Felicidade roubada

Seu avô duro e bom permanecia sentado na areia, olhando o neto como uma miragem. Por que não se jogava na água mãe? Talvez tivesse medo de tanta felicidade. Sua alma maltratada ficara com um medo colossal do acalanto.

Ana Laura Moraes Martinez *

 

felicidade-roubadaTalvez o avô sentisse que o mar fosse uma mulher traiçoeira que iria engoli-lo inteiro para depois cuspi-lo fora, tão logo ele entregasse docilmente seu corpo velho e enrugado àquele encontro, tão temido e aguardado. Por isso, o avô não ia. Sua cota de prazer era vivida à prestação.

O mar brilhante chamava o menino com seus braços verde-esmeralda. Era manhã de um domingo quente e o menino via o mar pela primeira vez. Fora o avô, seu avô duro e bom, que lhe proporcionara o encontro tão aguardado. Fugidos como duas pequenas lesmas, lá foram eles, como ladrões em busca de um quinhão de prazer: o avô guiando o caminhão enorme e o menino com seus pequenos olhos transpassando o limite das ferragens, com uma fome que pretendia engolir tudo de uma vez.

Chegaram e mal o avô teve tempo de estacionar o grande elefante vermelho, o menino zarpara com o coração batendo frenético como tambor. Abrira a porta num relampejar de olhos e, desembestado, correu com suas perninhas finas e um pouco tortas, em direção ao grande deus. No caminho, foi jogando suas roupas sujas, furadas do trabalho duro e precoce, um pouco prejudicado, é verdade, pelas brincadeiras irresistíveis de pneu com o irmão mais novo. Jogou tudo o que era sujo e roto, ficando só de cueca, com seu corpo esquelético de felino em formação.

O mar o chamava como os braços quentes e úmidos de uma mãe amorosa. Sim, o menino sabia que lá ele poderia jogar seu corpo na imensidão azul, pois a mãe natureza, o mar de ventre infinito, iria acolhê-lo sem medo, sem culpa, sem rechaço. Com sua sensibilidade de lobo, sabia que a água do mar era como um colo quente de mãe. Por isso correu até a exaustão de suas forças, e depois nadou até se exaurir por completo.a maltratada ficara com um medo colossal do acalanto. Talvez o avô sentisse que o mar fosse uma mulher traiçoeira que iria engoli-lo inteiro para depois cuspi-lo fora, tão logo ele entregasse docilmente seu corpo velho e enrugado àquele encontro, tão temido e aguardado. Por isso, o avô não ia. Sua cota de prazer era vivida à prestação. Depois, exausto de tanto sol e de tanta luz, o avô deitava seu corpo seminu na areia da praia e se entregava a um sono pacífico, enquanto seu neto agitava-se e gritava desvairadamente.

Mais tarde, quando a fome os visitava, o avô comprava um saco de pipocas. Retirava orgulhoso o dinheiro amassado de seu bolso roto e pedia ao pipoqueiro: um saco de pipocas, por favor! Seu peito se enchia. Sentia-se em um filme americano que ele via na TV. Estranhamente, ele só comprava um saco de pipocas, embora fossem dois, embora ele tivesse dinheiro, embora a fome fosse muita. E isso era tudo o que eles iriam comer até a viagem de volta.

O menino, com lágrima nos olhos, não entendia aquele gesto de amor que lhe parecia um pouco duro demais. O avô lhe explicava, com voz que tentava ser doce, que a vida era dura, menino, e que ele teria que conquistar as coisas por si mesmo. O menino assentia com a cabeça, em tom grave, demonstrando que havia compreendido a sábia lição. Apesar disso, sentia seu coração apertar-se. O aperto era consequência de uma luta selvagem gerada por sentimentos tão opostos. Aridez e doçura pareciam irreconciliáveis. Logo em seguida, perdoava o avô. Lembrava-se de sua quase morte, de sua alma de leão encarniçado na luta pela sobrevivência, dos anos miseráveis passados no navio, da fome, do frio abissal, da selvageria que é a vida. Depois do perdão comia, sentado no banco do caminhão e embalado pelos braços do avô, a deliciosa pipoca que parecia mais doce e mais tenra do que todas as pipocas do mundo.

O dia estava indo embora. O crepúsculo se aproximava tingindo o céu de um alaranjado que deixava tudo triste. O avô, agora mais duro que bom, chamava o menino com voz de touro e dizia que era hora de partir. As lágrimas vinham mais uma vez, agora em tom de despedida-despedaçada.

O elefante vermelho era posto a roncar os seus motores e partia, levando dentro o menino e o seu avô, calados, ambos querendo segurar o mais que pudessem aquele mar imenso no peito. E o mar, com seus braços de mãe, ia ficando para trás como uma promessa longínqua de um sonho bom.

* Ana Laura Moraes Martinez escreveu esta crônica, publicada inicialmente Aqui. Acesse o site da autora: Disponível Aqui. Email: contato@psicologiaribeiraopreto.com.br

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