Experiências Plenas na Terceira Idade

Felizardos senhores que tiveram a sabedoria de calar-se, de apenas escutar, observar, estando somente presentes. A sabedoria em saber o momento certo de diminuir o ritmo, pois o corpo agora não acompanha a mente na mesma velocidade. Senhores com experiências plenas.

Por Fernanda Marini Leonardi (*)

 

Apresento aqui algumas reflexões sobre as pessoas que já passaram há algum tempo dos sessenta, sem a intenção de me aprofundar em pesquisas científicas ou filosóficas, apenas registrando observações e admirações a esse grupo privilegiado que nos acompanha ao longo dos anos.

Desde que nascemos, eles estão presentes, seja de forma mais efetiva ou esporádica, em nossos lares, escolas, praças, comércios, passeios ou mesmo no trabalho. São peças importantes na engrenagem da máquina chamada vida.

Hoje em dia as pessoas estão envelhecendo com mais qualidade de vida e  envelhecer bem traz grandes benefícios. Certamente muitas pessoas se perguntam, o que é envelhecer bem?

Podemos considerar alguns pontos como, viver ao longo do tempo se alimentando corretamente, sem excessos, sem muitos alimentos processados, consumindo frutas, verduras, proteínas de maneira equilibrada; praticando atividades físicas, se divertindo com amigos e família, se controlando para não se estressar com os percalços da vida, tentando resolver os problemas da melhor forma possível. Tudo isso juntando as experiências adquiridas e a sensibilidade de perceber o momento certo de agir ou não, a experiência que só os anos podem trazer.

Felizardos senhores que usaram tudo isso a seu favor, que tiveram a sabedoria de calar-se, de apenas escutar, observar, estando somente presentes, aliás presenças fundamentais, como peças-chave em um quebra-cabeça. A sabedoria em saber o momento certo de diminuir o ritmo, pois o corpo agora não acompanha a mente na mesma velocidade. Para os que dirigiram seus possantes carros durante décadas, constatar que não dá mais para continuar é, no mínimo, doloroso como se tirassem um pedacinho da sua liberdade de ir e vir.

Mas mesmo com essas perdas de independência, entendem que envelhecer é um processo e assim, esses seres iluminados vêm sendo referências. Mesmo depois do dever cumprido, arrumam disposição para continuar sua trajetória, pois ainda faz sentido trabalhar, estudar, se reinventar, fazendo o tal “Envelhecimento Ativo” ter significado.  Sinônimo de movimento, o Envelhecimento Ativo visa a otimização das oportunidades de saúde, participação e segurança, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida.

Infelizmente alguns velhos não conseguiram captar e usar todos esses benefícios que a maturidade proporciona, mas vou focar nos que conseguiram essa façanha e são muitos que podemos ter como exemplos.

Muitos profissionais continuam atuando no mercado de trabalho com maestria e excelência. Pilotos de companhias aérea voam até seus sessenta e cinco  ou setenta anos. Muitos se aposentam e são contratados para serem instrutores de vôo, dar simulador, passar a experiência adquirida durante décadas de trabalho.

É difícil para esses profissionais se desligarem deste universo que se fez presente por anos de dedicação exclusiva, nos quais não havia Natal, Ano Novo, aniversário com seus familiares. E quando param de vez, mesmo após tanto tempo desfrutando o tão merecido descanso, o que se ouve desses funcionários nas Associações de Aposentados são histórias recheadas de aventura, paixão, superação e saudades. Saudades de um tempo em que a maioria gostaria ainda de estar!

E assim a vida segue seu rumo com as perdas naturais que todos devem um dia passar. E estórias vão sendo desenhadas, contadas, escritas e reescritas por outros senhores e senhoras. Sábios donos de tal habilidade em encantar leitores de todas as idades, os escritores de livros infanto-juvenis, que com sua vasta experiência de vida, conseguem captar cada sentimento, explicá-lo, transformá-lo em algo que faça sentido à geração X, Y,Z.

Alguns mestres desta arte merecem destaque, Ruth Rocha, Ana Maria Machado, Maurício de Sousa, Ziraldo e tantos outros que mesmo não mencionados, tiramos o chapéu e fazemos reverência pelos anos de dedicação nesse trabalho que ultimamente compete em desigual proporção com jogos eletrônicos, redes sociais, you tube, etc.

Ruth Rocha é autora do Best-Seller “Marcelo, Marmelo, Martelo” e também O Reizinho Mandão, Romeu e Julieta, O Menino que Quase Virou Cachorro, O Que os Olhos Não Vêem. Os livros de Ruth Rocha se imortalizaram como clássicos da literatura nacional e conquistaram o imaginário de diferentes gerações. Hoje com 86 anos, tem mais de duzentos títulos publicados e sua obra já foi traduzida para vinte e cinco idiomas. A escritora se dedica também à tradução de diversos livros infanto-juvenis. Recebeu prêmios da Academia Brasileira de Letras, da Associação Paulista dos Críticos de Arte, da Fundação Nacional do livro Infantil e Juvenil, oito Jabutis da Câmara Brasileira de Letras, entre outros.

Ana Maria Machado, prestes a completar 76 anos, foi a primeira escritora de livros infantis a fazer parte da ABL. Com o livro Bisa Bia, Bisa Bel (Salamandra, 1982) recebeu o prêmio de melhor livro juvenil da Fundação Nacional do Livro Infantil Juvenil (FNLIJ). A menina Bel encontra um dia uma foto de sua bisavó Bel, entre as coisas de sua mãe. A partir daí, ela inicia uma relação de muitas descobertas com essa pessoa tão importante na vida de sua família e na da própria. Até que surge uma menina inesperada. Uma relação de amizade e troca, capaz de emocionar a todos. Menina Bonita Do Laço de Fita e Rei Artur são algumas preciosidades desta autora que foi eleita para a cadeira número 1 da Academia Brasileira de Letras.

Ziraldo, nascido em 1932, é um cartunista, desenhista, jornalista, cronista, chargista, pintor e dramaturgo brasileiro. É o criador do personagem de quadrinhos infantil “O Menino Maluquinho”, um dos maiores fenômenos editoriais no Brasil. O livro foi adaptado para o teatro, televisão, quadrinhos, videogames e cinema. Foi um dos fundadores da revista humorística “O Pasquim”. Com o livro Flicts, Ziraldo ganhou o prêmio internacional Hans Cristian Andersen. Um livro para crianças de tamanha profundidade era mesmo de se esperar que fosse vencedor do prêmio considerado o mais importante da literatura infantil.

Mauricio de Sousa (1935) é um cartunista e empresário brasileiro. Criou a “Turma da Mônica”, e vários outros personagens de história em quadrinhos. É membro da Academia Paulista de Letras, ocupando a cadeira nº 24. É o mais famoso e premiado autor brasileiro de história em quadrinhos. Hoje, entre quadrinhos e tiras de jornais, suas criações chegam a cerca de 50 países. O autor já chegou a 1 bilhão de revistas publicadas. Os quadrinhos se juntam a livros ilustrados, revistas de atividades, álbum de figurinhas, CDs, livros tridimensionais e livros em braile.

Exemplos a serem seguidos, estas pessoas nos encantam e nos inspiram cada vez mais. Aproveito para parabenizar a todos os velhos que fazem a diferença,  mostram seus dons e nos proporcionam alegrias e nos ensinam que a vida deve ser vivida, de que maneira?

Cada um tem a sua resposta!

 

(*) Fernanda Marini Leonardi é graduada em Letras com Ênfase em Tradução na Universidade Mackenzie desde 1997. Curso de Especialização em Língua Inglesa pelo Programa de Aperfeiçoamento do Estado de São Paulo. Trabalha como professora de inglês em escola particular e cargo efetivo no Estado. Texto produzido no curso Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), no segundo semestre de 2017. E-mail: fernandaleonardi@gmail.com

 

 

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