Excesso de informação e condutas em saúde deixam idosos ansiosos?

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Alguns autores defendem que o “mal do século” é o excesso de informação que estaria nos tornando pessoas ansiosas. Você já parou para pensar que isto pode estar acontecendo na área da saúde? E que os Serviços de saúde podem contribuir para a “Síndrome do excesso de informação”? Esta é uma questão perturbadora pois há um esforço dos profissionais em orientar o paciente com relação a Prevenção e melhoria da saúde. O que devemos fazer para encontrar o equilíbrio? Uma reflexão sobre a prática.

Gabriela Correia de A. Goldstein e Fabiana Petito (*)


O tema abordado no título se aplica a diversas áreas de atuação em saúde. Aqui, focaremos a Saúde do idoso e, como exemplo, tomaremos a “Semana de prevenção de quedas” que ocorre em quase todo território nacional pelos Serviços de Saúde através de Campanhas de Prevenção de quedas, uma vez que dados do IBGE indicam que no Brasil 7.830.000 de idosos sofreram pelo menos uma queda e metade destes sofrem quedas recorrentes. Os dados assinalam que cerca de 30% dos idosos com 65 anos ou mais caem ao menos uma vez ao ano e mesmo entre os idosos que nunca caíram, cerca de 20% a 65% apresentam medo de cair.

Reconhecemos que o medo de cair pode ser fator protetor para a queda, mas sabe-se também que ele interfere negativamente na autonomia, nas atividades de vida diária e contribui para o isolamento social.

O fluxo informacional sobre saúde vem aumentando a cada dia e em todos os meios de comunicação, na internet, através das redes sociais, e-mails com conteúdo diversos, nos programas de televisão e rádio, nas campanhas de saúde realizadas por diversos serviços, jornais, revistas… E tudo isso é bom. Ou não?

Alguns autores defendem que o “mal do século” é o excesso de informação que estaria nos tornando pessoas ansiosas. Você já parou para pensar que isto pode estar acontecendo na área da saúde? E que os Serviços de saúde podem contribuir para a “Síndrome do excesso de informação”? Esta é uma questão perturbadora pois há um esforço dos profissionais em orientar o paciente com relação a Prevenção e melhoria da saúde. O que devemos fazer para encontrar o equilíbrio?

Para entender a questão, exemplificaremos com uma situação bastante comum: Imagine-se fazendo seu acompanhamento de saúde em, pelo menos, três serviços, cuidando de sua “pressão alta”, diabetes e de dores crônicas. Imagine-se ainda sendo acompanhado por diversos profissionais especializados, que orientam sua alimentação, medicação e tentam adequar a sua rotina para melhorar o seu estado de saúde. Você precisa praticar exercícios, se alimentar adequadamente, tomar remédios corretamente, dormir bem, estimular a memória e… tomar cuidado para não cair! Além disso, você conhece pessoas próximas que tiveram desfechos trágicos devido a uma “simples queda”.

Em uma mesma semana você recebeu folders e assistiu a três palestras sobre o risco de queda. Nos programas de televisão também disseram que os gastos públicos com pessoas que caem estão cada vez maiores. Eles mostram reportagens do quanto a queda pode mudar, para pior, a sua vida. Então, como você se sente? Com medo de cair ou se sente preparado para evitar uma queda?

Neste caso, dentre as consequências possíveis do excesso de informação está “o medo de cair”, que pode gerar maior fragilização físico-funcional e consequentemente aumentar o risco de quedas futuras” (Perracini, 2002).

As informações passadas, muitas vezes, não se contextualizam na rotina do idoso da forma desejada e o excesso de informação vem acompanhado da frustração e ansiedade de ambas as partes. Nesse contexto, toda a informação recebida perde o valor, ganhando um tom de “normalidade”, ou então, pode se iniciar uma busca desesperada por mais informações sobre sua condição de saúde, promovendo uma jornada em busca de diversos “especialistas”.

Informar e educar

Esta reflexão nos encoraja a propor como intervenção, no exemplo tomado como “A semana de Prevenção de quedas”, a diferenciação entre Informar e Educar. Na semana em questão, que sejam explorados temas que permeiam “a queda”, como por exemplo, a investigação de queixas de incontinência urinária ou o manejo da Polifarmácia e automedicação. Estas, são situações que podem já estar instaladas na rotina do paciente e são causadoras de quedas. A educação em Saúde para Prevenir quedas se dá por um período contínuo, com relação dialógica que respeita o universo cultural do outro e privilegia uma abordagem que valorize as experiências e saberes contextualizados dos sujeitos envolvidos, sendo parte de processos estimuladores de mudanças.

A educação em saúde empodera o sujeito, auxilia nas tomadas de decisões e o torna protagonista do seu envelhecimento, enquanto a multiplicidade de informação gera desconforto, ansiedade e é pouco efetiva como agente transformador. Quando pensamos em Educação em saúde e envelhecimento, temos a clara ideia que este processo deve ser iniciado o mais breve possível, antes da 5ª ou 4ª. década de vida e nos damos conta que é preciso repensar todo o nosso processo de educação em saúde e para a vida.

Referências

Alves, E N P (2015). Ansiedade de informação e Normose: As Síndromes da sociedade da informação. Biblionline, João Pessoa, v. 11, n. 1, p. 130-139. Disponível Aqui. Acesso em 26 de Jul, 16.

Matos, L C C (2011). Medo da queda, estado emocional, qualidade de vida e contexto habitacional em idosos: um estudo exploratório. [Dissertação de Mestrado]. Universidade de Lisboa. Faculdade de Psicologia, 79p. Disponível Aqui. Acesso em: 24 de Jul, 2016.

Perracini MR, Ramos LR. (2002). Fatores associados a quedas em uma coorte de idosos residentes na comunidade. Rev Saude Publica, 36(6):709-16.

Legters K (2002). Fear of falling. Physical therapy. [Review], Mar;82(3):264-72.

(*)Gabriela Correia de A. Goldstein – Fisioterapeuta da Unidade de Referência em Saúde do idoso URSI- PMSP – OS ACSC, especialista em Gerontologia Social pela PUC- SP e Mestre em Ciências pela USP. Membro da rede de Colaboradores do Portal do Envelhecimento. E-mail: [email protected]

Fabiana Petito – Formada em Psicologia pela FMU, especialista em Psicologia Clínica no Hospital do Servidor Público Estadual, pós graduada em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública, Pós graduanda em Gerontologia pelo Hospital Osvaldo Cruz. Psicóloga referência da URSI Cidade Ademar.

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