Eutanásia: o debate sociológico de Hendrik Groen

Hendrik Groen pode estar usando a sua ficção para chamar a atenção sobre o tema, demandando uma maior liberalidade para a prática da eutanásia voluntária.

Maria do Carmo Di Lascio (*)

 

O grau de civilização de um país pode ser visto pela maneira como são tratados os idosos e os mais fracos”. Hendrik Groen

Hendrik Groen, de O diário secreto de Hendrik Groen – Tentativas de fazer algo da vida, volta à cena com o lançamento do último livro de sua trilogia, ainda não traduzido no Brasil, On the Bright Side, editado pela Penguin e disponível em ebook. No original holandês, a tradução do título é Viva e deixe viver, sempre editado na Holanda pela Meulenhoff. Ambos, original e versão em inglês, lançados em 2018.

O segundo livro, Enquanto houver vida, tradução de Zolang er leven is, lançado pela Meulenhoff em 2018, também não foi traduzido e publicado no Brasil.

O primeiro livro, O diário secreto de Hendrik Groen – Tentativas de fazer algo da vida, lançado no Brasil em 2016 pela Editora Planeta/TusQuets Editores, e em 2014 na Holanda, se tornou um enorme sucesso de vendas e de crítica. Na Holanda, foi adaptado como série de TV e peça de teatro. Traduzido em diversos idiomas, fez sucesso nos EUA e Europa. Hendrik Groen é pseudônimo de Peter de Smet, que tinha 62 anos quando escreveu o primeiro livro. Para quem não leu, o livro é o diário do octogenário Hendrik Groen, que vive em um asilo de idosos em Amsterdã. Teve várias citações aqui no Portal do Envelhecimento e em 02/03/2017, Mário Lucena publicou uma resenha.

O terceiro livro, parece encerrar a trilogia dos diários, com a morte de Evert Duiker, seu grande amigo, confidente e interlocutor, também morador do asilo. Ao longo dos diários, o amigo Evert enfrenta o envelhecimento com doenças graves, amputações e cadeira de rodas, mas sempre mantendo o bom humor e a irreverência. A narrativa da morte de Evert é o momento culminante do grande debate que perpassa os três livros – o debate da eutanásia, ou morte digna. Evert foi diagnosticado com câncer e se recusou ao tratamento pois os próprios médicos não davam bons prognósticos de cura, devido à sua saúde já debilitada e seus 86 anos. A partir daí, com a cumplicidade do amigo Hendrik, Evert planeja a própria morte. Desde a escolha do túmulo até o terno comprado especialmente para o funeral.  Na noite da sua morte, se despediu do amigo Hendrik e pediu para que este deixasse sobre a mesa de cabeceira uma jarra de água e a sua preciosa caixa de pílulas. Na manhã do dia seguinte, Hendrik bateu na porta do seu quarto e como não obteve resposta, chamou o enfermeiro. Entraram no quarto, e como havia planejado, Evert estava deitado, vestido com seu terno, barbeado e com o cabelo cuidadosamente penteado.

O debate da eutanásia

Em abril de 2002, o parlamento holandês legalizou a eutanásia e o suicídio assistido.

O debate da eutanásia é abordado com ênfase ao longo dos três livros. Hendrik Groen é um defensor da pílula que permite a opção pela morte digna, sem o desnecessário prolongamento do sofrimento físico. Ou mesmo, o desejo de não viver mais.

“A Sociedade de Eutanásia Voluntária da Holanda fez campanha para a distribuição da pílula de Drion, cujo nome vem do juiz sênior e defensor da eutanásia, Huib Drion, e ficou conhecida como pílula de Drion…”

Um idoso que quer morrer, deve se apresentar ao “assistente de óbito” e terá que convencê-lo do seu genuíno desejo de morrer após uma vida plena. Isso tem que ser depois de, no mínimo, duas conversas longas e abrangentes. Se o assistente decidir cooperar, ainda é preciso encontrar um segundo assistente diplomado que concorde. Em seguida, um médico deve prescrever os recursos necessários que o idoso cansado de viver deve tomar, sob a supervisão de um assistente.”(citações do livro O diário secreto de Hendrik Groen – Tentativas de fazer algo da vida)

A Holanda tem um dos melhores sistemas de saúde do mundo e é destaque pelo cuidado com os idosos. Estatísticas de 2017 demonstram uma população de 17 milhões de habitantes e quase 18% de idosos, sendo que 200.000 vivem sozinhos. As mortes por eutanásia representaram 4% do total de óbitos.

Apesar de legalmente permitida desde 2002, a pesquisa de publicações acadêmicas e não acadêmicas sobre o tema, ainda demonstram um grande cuidado e restrições por parte das instituições e da classe médica em relação à eutanásia. Ainda não parece ser acessível a todos, uma caixa de pílulas como a de Evert, que continha a famosa pílula de Drion. Hendrik Groen ou Peter de Smet pode estar usando a sua ficção, de grande sucesso, para chamar a atenção sobre o tema, demandando uma maior liberalidade para a prática da eutanásia voluntária.

E em seu último livro, para se garantir, o personagem Hendrik Groen baixou o formulário de inscrição do website da Sociedade de Eutanásia Para Uma Morte Digna, e preencheu o seu pedido de eutanásia voluntária. Pagou 9,50 euros pela inscrição. Esta é a proposta defendida por Hendrik Groen. Segundo ele, atualmente, as clínicas são a opção possível. É muito difícil ter acesso à pílula. Para reforçar a defesa de sua proposta, cita o caso de sua querida amiga Eefje, também moradora do asilo e membro do clube “Tô velho mas não tô morto”. Eefje morreu devido a um AVC e ficou em coma por mais de um mês, tendo a sua filha autorizado a eutanásia, que não pode ser realizada, porque Hendrik e a filha não encontraram o documento escrito por Eefije, autorizando o procedimento.

No livro On the Bright Side, Hendrik Groen faz menção à eutanásia em pelo menos vinte parágrafos. Seja nas consultas ao geriatra, nas conversas e nos preparativos para a morte do amigo Evert, nos comentários sobre a gestão das instituições e nas políticas públicas para idosos.

As pessoas deveriam se mudar para uma casa de repouso apenas se forem incapazes de cuidar de si mesmas e necessitarem de cuidados especiais. Após a chegada no asilo, os novos residentes estão a poucos passos do túmulo ou do pavilhão de cuidados especiais. Residentes saudáveis são minoria. A média de idade está subindo para os noventa anos e a rotatividade está acelerando. O que não contribui para um ambiente agradável.” (citação do livro “On the bright side”, tradução minha)

Outro debate central introduzido por Hendrik Groen através de sua ficção é a participação dos idosos asilados na gestão das instituições. A personagem Sra. Stelwagen, diretora do asilo, se vê confrontada pelo grupo dos idosos, a ceder espaço para representantes dos asilados participarem das reuniões da diretoria. Decisões importantes sobre a instituição não podem ser omitidas dos residentes.

“Ela, a Sra. Stelwagen não considera os idosos como seres humanos competentes, e ela não é a única. E às vezes eu tenho que concordar com ela. Se você sempre trata os idosos como crianças, no longo prazo eles acabam se comportando como tal.” (citação do livro “On the bright side“, tradução minha)

Hendrik Groen e seu amigo Evert Duiker, fundaram um clube, o “Tô velho mas não tô morto”. Alternativa criativa para a convivência no asilo, onde nem sempre “o ambiente é agradável”. O clube seleciona criteriosamente os que serão admitidos. Sempre em número de 8. Além de discutir e participar da política da instituição, o clube promove passeios, experiências gastronômicas e encontros.

O último livro da trilogia, On the bright side, tem a narrativa mais voltada para a crônica do cotidiano. Críticas sobre a monarquia, sobre temas caros aos europeus como a imigração, e sobretudo, sobre as políticas públicas voltadas para os idosos.

Com uma grande população de idosos ativos, a Holanda possui um partido político que representa os idosos e os aposentados, com 9 membros eleitos para o Parlamento, o Partido 50Plus. O partido é sempre mencionado na crônica política de Hendrik Groen. Um exemplo da liberalidade dos costumes na Holanda é o fato de que Henk Krol, o fundador e líder do partido dos idosos, um grupo social sempre conservador, é também um ativista LGBT e fundador e editor da revista Gay Krant. Um exemplo ilustrativo de como temas rejeitados pela maioria das sociedades, fazem parte da cultura holandesa tais como, casamento entre homossexuais, aborto e eutanásia. Uma sociedade onde a perspectiva da liberação da pílula da eutanásia não seria impossível.

Jacob Kohnstamm, presidente da agência governamental, Comissão Regional de Revisão da Eutanásia, salienta que “a eutanásia é uma possibilidade, não uma obrigação”. “Acho que graças a ela as pessoas vivem mais; é um alívio saber que o médico vai ajudá-lo se a dor é insuportável e o mal, irreversível”.

Os escritos de Hendrik Groen contribuem para uma reflexão sobre as doenças associadas ao envelhecimento. Como a descrição da evolução do Alzheimer em uma das personagens do clube, a Grietje, que demonstra consciência e aceitação de que está, aos poucos, se despedindo do grupo.

..teste para reconhecer Alzheimer. Saber que aos poucos, mas inevitavelmente, irá perder toda a noção de realidade. Bem diferente da rã que é cozida aos poucos e nem percebe, fica-se por muito tempo dolorosamente consciente da própria decadência. Cada vez mais você vai afundando num buraco negro. Cada vez são mais curtos os momentos em que consegue se arrastar para fora do buraco, com a certeza de que vai cair de novo. Tempo suficiente para ver onde tal caminho vai dar: um monte de velhos confusos, tristes, assustados ou raivosos. Salvo os poucos dementes animados. Primeiro, buscando sem sossego o que não existe mais. Depois, babando apáticos numa cama ou poltrona. Amarrados como se já não houvesse para onde navegar. Toda a dignidade perdida. Pobre Grietje. O que posso dizer para consolá-la?” (citação do livro, O diário secreto de Hendrik Groen – Tentativas de fazer algo da Vida)

Hendrik Groen comenta que em 2040, a Holanda terá cerca de meio milhão de pessoas com demência.

Peter de Smet escreveu o primeiro livro O diário secreto de Hendrik Groen – Tentativas de fazer algo da vida, aos 62 anos. Entrando no “portal do envelhecimento“, o autor faz a sua reflexão sobre o envelhecer, através da ficção. Estudos e pesquisas demonstram que, em sua maioria, a principal preocupação dos idosos não é a morte, mas sim, a perda da dignidade. Antecipando um futuro, Peter de Smet, através de seu famoso personagem Hendrik Groen, propõe a liberação da pílula da eutanásia, como o recurso à autodeterminação de por fim à vida.

Serviço
Primeiro livro: O diário secreto de Hendrik Groen – Tentativas de fazer algo da vida: https://www.portaldoenvelhecimento.com.br/tentativas-de-fazer-algo-da-vida/
Segundo livro: Enquanto houver vida (sem tradução para o português)
Terceiro livro: On the Bright Side (sem tradução para o português): https://www.penguin.co.uk/books/304/304484/on-the-bright-side/9781405930307.html

Referência
FERRER, Isabel: Holanda, onde morrer bem é parte do cotidiano. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/08/31/internacional/1504197638_959922.html

(*) Maria do Carmo Di Lascio tem Graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Pós-graduação em Gestão e Políticas Públicas pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo/SP. Fez voluntariado em Lisboa, Portugal, de 10/07/2018 a 12/10/2018, na Freguesia da Câmara Municipal de Lisboa, Centro de Convívio de Idosos da Paróquia de São Paulo e Projeto “A avó vem trabalhar”. E-mail: mariaguidodl@gmail.com

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