Eunice, que já me disse ter 30 e poucos anos

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E foi assim que elas, Eunice e Sílvia, me ensinaram algo precioso: quando a doença encontra outras explicações e vivências possíveis, ela transborda da medicina para mostrar que há muitos outros caminhos. 


Eunice nasceu em 1933, em São Paulo, S.P., onde se casou e viveu até a vida adulta. Trabalhou em grandes lojas de departamento arrumando prateleiras e vitrines, e chegou a ser gerente. Muito cuidadosa e dedicada, ganhou prêmios como reconhecimento do bom trabalho que desempenhava. Sempre foi muito elegante e vaidosa. Após ficar viúva, Eunice viajou o país todo em grupos e excursões de terceira idade. Também frequentou diversos cursos e atividades voltados a esse público. 

Conheci Eunice em 2013, durante uma consulta na neurologia, acompanhada da filha Sílvia. Naquele momento, quando o médico perguntou sobre a memória, Eunice respondeu “continuo esquecendo tudo”, dizendo que guardava as coisas e esquecia onde estavam. “E os nomes dos netos?” “Ah, isso eu não esqueço!” Sílvia contou que a mãe estava precisando de ajuda para se vestir, pois colocava a blusa ao contrário. Ela também se perdia dentro da própria casa, estava mais apática e chegou a guardar roupa no armário da cozinha. 

Os primeiras sinais da doença teriam aparecido em 2010: esquecia onde tinha guardado objetos, de comer e tomar banho, achava que queriam roubá-la e que a televisão conversava com ela, ligava repetidas vezes para a filha no mesmo dia. Chegou a se perder na rua. Não sabia mais como fazia arroz. O quadro teria se agravado com o falecimento da mãe, também diagnosticada com doença de Alzheimer. Desde 2012, faz acompanhamento no ambulatório de neurologia de um hospital universitário. 

Quando fui visitá-la pela primeira vez, Eunice morava sozinha num apartamento em frente ao de Sílvia, em Campinas, S.P. Estava muito frio e ela via televisão, no quarto, enrolada em um cobertor. Cheguei, me apresentei e ela logo pediu desculpas por estar deitada. Como boa anfitriã, Eunice, apesar do frio, levantou-se da cama para me receber, conduzindo-me até o sofá da sala, ajeitando apressadamente as roupas e o cabelo. 

Quando retomei o contato com Sílvia, depois de 5 anos, Eunice estava em uma casa de repouso, local onde conversávamos desde então. Com andar mais arrastado, Eunice continuava bem articulada. Era nítido que ela queria falar. Às vezes tinha receio de cansá-la porque começava e não parava mais. Em outros momentos, permanecia em silêncio, com os olhos no chão. 

Sentia-me uma amiga que ela não via há muito tempo. Um dia, ao me ver, deu-me um abraço e disse: “estava pensando em você!” Eunice, que já me disse ter 30 e poucos anos, comentava sobre o trabalho na loja e como costureira.

Descrevia os afazeres domésticos que fazia todo santo dia na sua casa – ela não via a instituição em que estava como sendo a sua moradia. Um dia, disse-me que era a primeira vez que estava lá, não conhecendo aquelas pessoas. Já chegou a achar que ali era a minha casa – “será que eu posso usar o seu banheiro?”, perguntou-me, sempre muito educada. “Bom, querida, o papo está muito bom, mas eu preciso ir pra casa”. O cuidado com os filhos pequenos era um assunto frequente: as comidas que gostava de fazer para eles, os conselhos como mãe para uma boa educação e, sim, o quanto eles davam trabalho. Uma vez, conversávamos no quarto quando ouvimos um forte barulho. “Nossa, eu deixei meu menino sentado na cadeira da sala, será que ele caiu?”, disse, preocupada. 

A mãe era o grande tema de nossas conversas. Falava dela com tanto amor que me emocionava. A mãe de Eunice estava viva – não só pela força das histórias que ela contava: ela vivia literalmente, como corpo, presença física, carne e osso. “Minha mãe está fazendo um vestido pra mim, não vejo a hora!” “Vou embora porque minha mãe fica preocupada se eu atraso…” “Hoje eu vou almoçar com a minha mãe!” “Não sei se minha mãe deixa eu ir, eu conheço a peça”. “Tô preocupada com a minha mãe, ela ficou de aparecer, mas ainda não chegou”. Eunice ajudava a cuidar da mãe, fazer comida pra ela, arrumar a casa e a considerava uma ótima avó para os seus filhos. Em outros momentos, Eunice era apenas uma criança. “Minha mãe fala: não fica na rua, não pega friagem, toma cuidado. Então eu vou obedecendo e tá dando efeito”. Ou uma jovem descobrindo o mundo: “agora que eu tenho 18 anos, já posso ir no portão!”

Na primeira conversa que tive com Sílvia, antes de saber que a mãe seria o mote de nossos encontros, perguntei se Eunice tinha alucinação. A pergunta pareceu não fazer sentido. Dei como exemplo dizer ter visto alguém que já faleceu, pois notava certa frequência desses episódios em minha pesquisa de campo. Sílvia respondeu que não veria dessa forma, uma vez que são espíritas e, portanto, acreditam nessa possibilidade. Eunice, inclusive, já foi médium e psicografava cartas no centro espírita onde frequentava com a mãe, quem lhe passou as concepções religiosas. Ver a mãe, portanto, conversar com ela, não era um sintoma patológico, mas uma experiência espiritual. 

E foi assim que elas me ensinaram algo precioso: quando a doença encontra outras explicações e vivências possíveis, ela transborda da medicina para mostrar que há muitos outros caminhos. 

A demência como estética em sopros e assombros

Desde 2013, acompanho pessoas em processo demencial (diagnosticadas com doença de Alzheimer e outras demências) como parte de minha pesquisa de doutorado e pós-doutorado em Antropologia. Ao longo dessa trajetória, participei de consultas na neurologia e psiquiatria geriátrica de um hospital universitário, reuniões do grupo de apoio aos cuidadores-familiares da Associação Brasileira de Alzheimer, fiz visitas domiciliares às famílias, coletei ensaios fotográficos e vídeos de campanha de conscientização, li blogs e autobiografias dos próprios enfermos.

O interesse foi mostrar como se dá a composição dos processos demenciais nos diferentes lugares e sujeitos percorridos, transbordando da biomedicina para chegar a outras dimensões possíveis. Assim, a demência foi vista não só como diagnóstico, mas também como estética (no sentido de um pensamento visual e sensível), modo de vida, experiência, um outro mundo possível.

Nos últimos anos, acompanhei mais de perto 3 famílias: João e a filha Ana Paula; Eunice e a filha Sílvia; Maria, o filho Ivan e a nora Neuza. Com eles, registrei conversas e rotinas, fiz passeios, compartilhei almoços, bolos, cafés, dores e esperanças. Recolhi cenas, afetos, lembranças, delírios. E transformei esses materiais em um site da pesquisa, chamado sopros e assombros – contos fantásticos de um mundo às avessas.

Fotos internas: arquivo. Foto destaque extraída do depoimento de Eunice no youtube.


Daniela Feriani

É antropóloga formada pela Universidade Estadual de Campinas, com mestrado e doutorado na mesma instituição e pós-doutorado pela Universidade de São Paulo. É pesquisadora no Laboratório Antropológico de Grafia e Imagem (La’Grima) / Unicamp, no Grupo de Antropologia Visual / USP e colaboradora no Portal do Envelhecimento. E-mail: [email protected]

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