Eu, o velho roupão cor de rosa

Quando chegar a hora de se despir deste viver, será assim puído, como eu, roupão, surrado e gasto que te vestirei de eternidade, com a maciez do meu tecido atoalhado, apesar de velho.


Valha-me Deus, como estou velho, mas não dá para negar que ainda dou pro gasto, mas e quanto à você? Deu-se conta do tempo que passou? Não há dúvidas que conservas, aos 85 anos, algo tão semelhante àquela jovem que, há tempos, me foi apresentada. No mais, melhor ir tomar seu banho e deixar fluir com as águas os tormentos do dia exaustivo vividos para atestar sua prova de vida que, de tempos em tempos se faz, burocraticamente necessária.

Sempre foi assim. O cansaço bate e com o pôr do sol vem o descanso merecido e o coroamento do dia através do banho, pijamas e roupão. Sei que estou surrado, como dizem, mas generosamente, você nunca quis me trocar por outro. Aquele florido que pertenceu a sua avó também teve seu favoritismo, mas sei bem que sou eu quem sempre melhor te envolveu o corpo. A maciez do meu tecido atoalhado, apesar de velho, continua a despertar em sua pele, agora enrugada, as tantas sensações de acolhimento para quem, como você, o modismo sempre esteve relacionado ao conforto e às histórias que cada roupa é capaz de contar.

Histórias não me faltam e em todas elas é você a protagonista.

Eu, o tal roupão cor de rosa que, se bem me lembro, fui um presente da sua mãe ao voltar de uma viagem qualquer. Você devia ter uns quinze anos ao me usar pela primeira vez. Jovem sonhadora que acreditava poder mudar as injustiças do mundo e que sentia na própria pele a dor das feridas dos outros. Minhas mangas e decote de bordado inglês branco, dão um toque romântico à minha aparência e continua sendo assim mesmo depois destes tantos anos de uso. Acho até que me pareço com você que ao me usar quando garota, fazia da minha cor a certeza de que a vida teria esta tonalidade. 

Agora, prestes a completar 85, você bem sabe que a vida não é um mar de rosas, mas continua apostando nos frutos que brotaram de sua vida para as mudanças do mundo.  

Ultimamente, seu corpo, já velho e cansado busca em mim um descanso físico para as dores do tempo enquanto bem sei que, em mim, você também encontra outro tipo de aconchego. Todos esses anos de uso fizeram eu te conhecer bem. Tua infância você sempre carregou em si me dando a sensação de também ter te vestido nesta fase da vida. 

Quantas e quantas vezes meu tecido de toalha não enxugou suas lágrimas derramadas por motivos que você nunca soube explicar? Hoje, sua velhice parece conter este tipo de choro apesar de continuar não se conformando com as asperezas da vida.

Pelos de cachorro sempre fizeram parte da minha composição, mas foram os pelos pretos da tua cachorra Nina que mais se misturaram à minha textura. Vivi em mim a falta que ela fez ao seu coração quando partiu depois de tanto tempo de afetos compartilhados. Nina, doce Nina.

Por mais que o tempo tenha passado, não existiu enxágue capaz de tirar você de nós, afinal era no momento do roupão rosa que você se ajeitava em nosso colo. Quando fui morar em Jundiaí na casa dos seus pais nos afastamos um pouco, mas sempre foi ao lado deles que você se sentia verdadeiramente abraçada, e eu estava lá, sempre lá.

A casa era pequena, porém acolhedora assim como o carinho existente em cada detalhe, em cada objeto.

Não foi nesta casa que você e seu irmão cresceram mas eles, ao mudarem para lá, fizeram questão de deixar um quarto para cada um de vocês, além das gavetas com algumas peças de roupas para que tivessem a certeza que estavam em casa.

Suas roupas favoritas sempre te colocam em perigo já que o desleixo te assombra como tentação de sair vestindo a tal malha puída de tanto uso com o sapato velho que já possui o formato dos teus pés. Sempre foi assim.

No guarda-roupa do teu quarto na casa dos teus pais havia muito mais do que roupas. Ao abri-lo você ia ao encontro de você mesma.

O cobertor mais macio do mundo feito daquele tecido que deixou de existir faz tempo e que parecia te cobrir com nuvens, o vestido que você usava na chácara que cravou em ti as mais deliciosas lembranças de vida, a malha de lã multicolorida feita por sua mãe quando você era uma mocinha e que conserva o bolso canguru que ela muito se esforçou para aprender a tricotar.

Na casa de Jundiaí eu dividia o guarda-roupa com suas roupas mais afetivas. Lembro como se fosse ontem da alegria que sentíamos ao nos encontrar e sei bem que ao me vestir, você ia ao encontro daquela garota que descia as escadas da casa do Cambuci, para jantar de banho tomado e pijama coberto pelo roupão. O tal banho do fim do dia e o pijama para glorificar o dia vivido. Hábito indestrutível, afinal, aos batalhadores: pijama, mas para não o sujar com a provável sopa da janta: o roupão. Rosa.

Sempre fui a proclamação das conquistas que certamente você teria ao longo da vida e a garantia do mundo cor de rosa que sonhavas e que continuas a sonhar.

Amores? Quantos haveria de sentir, perguntava-se quando garota, Quantos viveu? Recorda-se atualmente.  Que velha sonhadora você se tornou? Não desistes? Intimamente, te pergunto ao te ver ainda tão refletida com minha cor.

Sempre cercada pelos afetos cultivados ao longo da vida, você tanto fez que conseguiu ser a velha que desejava ser quando adulta.

Perdas? Foram muitas, afinal não é possível viver tanto sem passar por elas, o segredo está em como aprendeu a enfrentá-las.

Quanto a mim, sou seu roupão rosa que vestiu todos os seus corpos, todas suas angústias, alegrias, dúvidas, certezas e tristezas.

Hoje, sei bem que nossa história um dia irá se acabar e eu ficarei largado em um canto qualquer esperando a hora de ser descartado.

Vida intensa? Não importa até quando, afinal não vivemos aos pedaços e sim na plenitude do velho corpo e do velho roupão que se desenha nesta vida que tivemos, inteiramente vivida até ser esgotada.

Portanto, quando chegar a hora de se despir deste viver, será assim puído, surrado e gasto que te vestirei de eternidade. Com os pelos da cachorra Nina, cabelos dos amores, perfumes de abraços e cheiro de banho tomado. Que velha é essa? Que velha você se tornou. Não desistes de sonhar?


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Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: crispomeranz@gmail.com.

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