Eu e a Tertúlia, a Tertúlia e Eu. Impressões sobre o meu primeiro estágio

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Os encontros da Tertúlia me causaram uma forte impressão e me marcaram profundamente por uma série de motivos, um deles é que sempre tratavam de literatura.

Pedro Dolav da Cunha (*)

Ora, escrever um texto capaz de retratar, mesmo que sinteticamente, todas as impressões, tanto as de satisfação como as de frustração, que me foram causadas pelos encontros com o grupo Tertúlia Literária em uma Unidade de Referência da Saúde do Idoso, não é tarefa fácil. É verdade que não foram muitos encontros: menos de dez; e é verdade que eles não duravam muito tempo: no máximo uma hora. É verdade, também, que me marcaram profundamente. Para fins de comparação, posso lhes garantir que me marcaram bem mais do que algumas disciplinas da minha grade que contaram com mais de 15 encontros, cada qual com aproximadamente duas horas e meia de duração. Naturalmente, forma-se a questão: por que, Pedro, os encontros, mesmo que breves e de pequeno número, causaram a você tamanha impressão? Para tanto, não há resposta exata – ainda bem! As questões que não são prontamente respondidas, que não têm o espaço que por elas é aberto instantaneamente preenchido por uma resposta pretensamente exata, nos dão margem para investigações de pensamento; para teorizar, confabular, devanear, imaginar. Resposta exata, portanto, não lhes garanto; me sobram, porém, algumas boas ideias.

No início do ano, quando ainda não sabíamos e nem mesmo suspeitávamos quais seriam nossos estágios, eu não carregava comigo boas esperanças. Temia, antevia, previa, quase que sabia que o que quer que viesse não seria bom. Tive meu pessimismo e minha casmurrice abalados quando surgiu no grupo de WhatsApp a possibilidade de estagiar no grupo Tertúlia Literária – um grupo no qual ocorriam, semanalmente, encontros para o debate de clássicos da literatura. Sem pestanejar, declarei meu interesse. Depois, eu sabia bem, haveria de lidar com a incompatibilidade de horários – tinha uma aula importante logo no meio das reuniões da tertúlia. Francamente, não estava me preocupando com isso; qualquer contratempo, como esse desencontro de horários, era mísero detalhe, minúsculo obstáculo frente ao que essa oportunidade de estágio representava para mim: nem nos meus sonhos pude imaginar a possibilidade de um estágio que unisse a literatura à psicologia.

Os primeiros encontros foram, sem dúvidas, os melhores. Ao chegar no grupo, como se fosse de paraquedas, a leitura que havia acabado de começar era de A Metamorfose, do Kafka. Por mais que já houvesse lido e não houvesse gostado muito, li-o de novo, com a maior das animações, e fui às reuniões como se nelas fosse ter conversas sobre o meu livro favorito. As observações das participantes, que se mesclavam em ideias sobre os livros e comentários sobre a própria vida, me surpreendiam muito positivamente; neles eu enxergava, escancaradamente, o propósito literário e o propósito terapêutico do grupo de mãos dadas, caminhando pelas telas. As impressões, nesses primeiros encontros, foram tão profundas que até minha sensação para com o livro mudou; passei a ver A Metamorfose com outros olhos.

Nas reuniões seguintes, a história foi mudando um pouco. Conforme os encontros foram se sucedendo, meu envolvimento foi, gradativamente, minguando. Seja por uma diminuição naquele ímpeto característico das primeiras reuniões, seja por uma escolha de obras que não se encaixou com as minhas expectativas, os últimos encontros, para mim, não foram bons como os primeiros. Acredito, pensando bem, que os dois motivos, em comum acordo, cumpriram com esse papel de tornar as minhas reuniões menos empolgantes. Ao perceber que faria estágio num grupo que se descreve como palco de conversas sobre clássicos da literatura e ao constatar, assim que me juntei aos participantes, que o livro de minha primeira reunião era uma das mais importantes novelas do século XX, nada pôde conter o meu entusiasmo. Talvez, nesse momento, eu tenha cometido um erro. Minhas expectativas foram às alturas e passei a esperar muito da Tertúlia. As reuniões que teriam como obra um conto desconhecido, sobre galinhas, da Clarice Lispector, ou um outro, também sobre galinhas, de uma das participantes, não me animavam muito, tão pouco me empolgou aquela com os poemas e aquela seguinte, com a história da Bela e a Fera.

É importante deixar claro, no entanto, que não pretendo encontrar algum culpado pelo declínio do meu envolvimento; não creio que exista outro que não seja eu mesmo e minhas altas expectativas. Por mais que a Tertúlia se descreva como grupo de debate de clássicos da literatura, não o condeno por ter feito escolhas que fugissem dessa descrição; não há nada mais natural, num grupo pequeno, íntimo e próximo como ele do que escolher obras que foram escritas por uma das participantes e, para complementar esta escolha, escolher um outro conto de menor expressão que aborde o mesmo tema abordado pela nossa colega. É também fundamental frisar que, por mais que nas últimas reuniões eu não estivesse tão animado como nas primeiras, elas foram muito enriquecedoras e tiveram, sem nenhuma exceção, aspectos bastante positivos.

Bem, agora, já no final, voltamos à pergunta do início, aquela para a qual não há resposta exata. Aqui vão as minhas ideias a seu respeito: os encontros da Tertúlia me causaram uma forte impressão e me marcaram profundamente por uma série de motivos. Penso que, em primeiro lugar, é impossível não ressaltar que as reuniões, de uma forma ou de outra, sempre tratavam de literatura e, atualmente, poucas coisas me interessam mais do que isso; ter esse contato com os livros de ficção promovido pela faculdade foi algo que pareceu bom demais para ser verdade. Outro aspecto que creio ter contribuído para que a Tertúlia me marcasse da forma como marcou foi o de que se tratou do meu primeiro estágio. Algumas linhas acima escrevi que, no começo do ano, minhas expectativas e minha empolgação pelo estágio que eu ainda nem sequer sabia qual seria eram as mais baixas possíveis.

Penso, agora, que havia um certo medo nisso; eu temia o estágio, qualquer que fosse ele, pois não sabia como seria, não sabia o que esperar, sabia somente que era mais uma fronteira que estava sendo cruzada entre a já confortável e habitual vida de estudante e a cada vez mais próxima vida de psicólogo, e então, como resposta ao medo, formou-se em mim aquele pessimismo e aquela teimosia de que o estágio, sem dúvida alguma, seria uma grande chatice. O desenrolar da história, a percepção de que a tão temida fronteira foi cruzada, penso eu, com sucesso, devo compor mais um dos motivos pelos quais a Tertúlia me marcou tanto.

O último pensamento que foi despertado em mim por intermédio daquela pergunta, e pelo qual eu sou eternamente grato ao estágio do qual fiz parte, foi o de que a Tertúlia me deixou com uma certeza; a certeza de que, algum dia, no futuro, retornarei. Não digo a essa Tertúlia, a esse projeto da Unidade de Referência da Saúde do Idoso (URSI), mas a alguma tertúlia por aí, que pode muito bem já existir, mas que pode também, quem sabe, estar somente esperando por alguém que deseje criá-la…

(*) Pedro Dolav da Cunha – Depoimento do estágio de 5º ano – 1º Sem 2021, do Curso de Psicologia, Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde – FACHS-PUC-SP, sob a supervisão da Profa. Dra. Ruth Gelehrter da Costa Lopes na disciplina Estágio Básico I, composta por atividade prática voltada para o exercício de competências e habilidades psicológicas que favoreçam a compreensão e posterior atuação em realidades específicas. O Estágio foi realizado em uma Unidade de Referência da Saúde do Idoso – URSI em São Paulo e os nomes das pessoas são fictícios para preservar seus participantes. E-mail: [email protected]

Foto destaque de Anna Shvets no Pexels


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