Estudos sobre a velhice

Não são muitas as obras que tratam da velhice. Beauvoir, Debert e Bosi foram as primeiras e continuam a orientar e dar a diretriz a muitos estudos sobre o envelhecimento no país.

Mariana Marlière Létti (*)


Tendo em vista a restrita quantidade de trabalhos antropológicos sobre a velhice utilizei uma série de obras de outras áreas do conhecimento. Dentre elas acredito que A Velhice: Realidade Incômoda, de Simone de Beauvoir (1970) tem fundamental importância por ter se proposto a quebrar a “conspiração do silêncio” que circundava esse tema nos anos 70. Para Beauvoir, o problema da velhice está no fato do homem não enxergar em seu futuro essa condição. Dentre todas as realidades a velhice talvez seja aquela cuja noção puramente abstrata mantemos durante maior lapso de tempo. Portanto, para que a velhice assuma o importante papel que lhe é devido, Beauvoir propõe que devemos nos reconhecer na pessoa deste ou daquele velho, isso nos levaria a deixar de aceitar com indiferença os infortúnios da idade final. Tal afirmação pôde ser facilmente percebida durante a realização da pesquisa.

Já a antropóloga Guita Grin Debert faz em seu livro, A Reinvenção da Velhice (1999), uma análise da transformação da velhice em um tema privilegiado. Ela propõe que é necessário atentar para o duplo movimento que acompanha a transformação da velhice em uma preocupação social. Por um lado, percebe-se uma socialização progressiva da gestão da velhice. Isso é facilmente visualizado ao olhar um pouco para trás e constatar que até muito recente o cuidado com os idosos era uma preocupação restrita ao âmbito familiar ou, no máximo, relegado às associações filantrópicas. Atualmente, porém, o que se nota é um conjunto de intervenções e orientações, muitas vezes contraditórias, implementadas pelo aparelho Estatal e/ou pela sociedade civil. Até mesmo um campo de saber específico para a terceira idade foi criado: a gerontologia, especialistas no envelhecimento.

O segundo movimento, segundo a autora, é caracterizado pela imagem da velhice, construída a partir do século XIX, como uma etapa da vida marcada pela decadência física e ausência de papéis sociais. Apesar de causar a associação de uma série de aspectos negativos e, consequentemente, prejudiciais aos idosos, essa imagem foi um elemento fundamental para a legitimação de direitos sociais, como o direito à aposentadoria. Ao mesmo tempo essa revisão dos estereótipos ligados aos idosos traça um movimento contrário à socialização da gestão da velhice ocorrendo uma reprivatização dessa gestão.

Na medida em que a sociedade, de uma forma geral, provê recursos financeiros e intelectuais para a existência de uma terceira idade sã, o idoso decadente é visto como relapso e culpado de sua própria decrepitude. Debert (1999) ressalta que a visibilidade conquistada por experiências inovadoras e bem sucedidas relacionadas com a reprivatização do envelhecimento, fecha o espaço e os olhos da sociedade para as situações de abandono e maus-tratos.

Uma visão mais psicológica é encontrada em Memória e Sociedade de Ecléa Bosi (1979). A tese da autora, segundo a introdução do livro feita por Marilena Chauí, é de que o velho não tem armas, nós é que temos que lutar por ele. A sociedade capitalista desarma o velho, mobilizando mecanismos pelos quais oprime a velhice, destrói os apoios da memória e substitui a lembrança pela história oficial celebrativa. Para Bosi (1979), oprime-se o idoso por intermédio de mecanismos institucionais: a burocracia da aposentadoria e dos asilos; psicológicos: a tutelagem, a recusa do diálogo, o banimento e a discriminação; técnicos: as próteses e a precariedade existencial daqueles que não podem adquiri-las; e científicos: as “pesquisas” que demonstram a incapacidade e a incompetência social do velho.

O trabalho de Bosi, longe de se encerrar na constatação da opressão a que está submetida a memória dos velhos, procura encontrar a gênese dessa opressão. Segundo ela, a degradação senil começa prematuramente com a degradação da pessoa que trabalha. A nossa sociedade pragmática, para ela, não desvaloriza somente o operário, mas todo trabalhador. Bosi conclui que para reparar a destruição sistemática que os indivíduos sofrem na sociedade da competição e do lucro e para que o indivíduo, na velhice, permaneça um indivíduo, seria necessário que ele sempre tivesse sido tratado como um indivíduo. Para ela, a noção que se tem de velhice decorre mais da luta de classes do que do conflito de gerações.

Outra obra de cunho psicológico é A Arte de Envelhecer de Mira y Lopes (1966), que pretende desfazer preconceitos existentes sobre a velhice e indicar os problemas de relações humanas existentes nessa fase de vida, tratando da reorientação ocupacional e oferecendo conselhos médicos. É um livro com objetivos práticos, um esforço para modificar o critério e a atitude da sociedade em face da velhice de acordo com as concepções científicas da época. É o trabalho de um psicólogo que tem como objetivo, assim como algumas das obras supracitadas, modificar o comportamento de velhos e não de velhos em relação à velhice.

Maria Gusmão, em sua dissertação A Sala de Espera (1977), realiza uma pesquisa durante três meses de 1977 em um dos dois únicos asilos existentes, naquela época, em Brasília. Esse trabalho tem, na minha opinião, particular importância porque apresenta um panorama geral da situação do velho asilado no início do desenvolvimento da capital. Ela aborda questões centrais como os motivos que levam o velho ao internamento, a identidade do velho e os ritos sociais no asilo. Esse trabalho será melhor explorado no desenvolvimento da dissertação. É importante também ressaltar que, apesar de ter sido escrita em 1977, esta obra continua muito atual e ajuda a compreender a realidade do idoso ainda nos dias de hoje.

Durante a pesquisa da teoria da velhice que realizei encontrei várias coletâneas de artigos sobre o tema, dentre as principais estão Velhice ou Terceira Idade, organizada por Myriam Moraes Lins de Barros (1998), As Múltiplas Faces da Velhice no Brasil, por Anita Liberalesso Neri (1991), Terceira Idade, por Altair Lahud (1998) e Rejuvenescer a Velhice por Maria Laís Mousinho (1996). Todas se propõem a refletir, dentro de diversas áreas do conhecimento, sobre a velhice e o envelhecer e observam que tratando de aspectos específicos da velhice podemos falar sobre o ser humano em geral.

(*) Mariana Marlière Létti – Mestre em Antropologia Social e doutora em Educação pela UnB. Este texto faz parte de sua dissertação de mestrado, intitulada “Velhas (e) Histórias” – Estudo sobre Idosas em Situação Asilar, defendida na Universidade de Brasília em 2008, sob a orientação do prof. Dr. Klaas Woortmann.  


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