Estúdio Conexão Corpo: alternativas de cuidado com a Vida

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A proposta do Conexão Corpo é colocar o corpo-fazedor em constante processo de contaminação e transformação. Aposta nas trocas, nas forças do agir e do pensar, implicando em um cuidado potente com a Vida. As perguntas que norteiam o trabalho são: De onde provém a saúde? Como pode-se fortalecer a saúde? Onde estão as fontes da saúde física, anímica e espiritual?


Claudia Soares é matemática de formação e por mais de 12 anos lecionou no ensino fundamental II.   divorciada, tem um filho de 25 anos que é mestre em Ciências Sociais, dançarino de Butô e aluno na graduação de Arquitetura e Urbanismo na Escola da Cidade. Ainda não é avó, mas aguarda esse momento ansiosamente, o que deixa sua nora desesperada. Claudia se define como “Sou daquele tipo de gente que para descansar se inscreve num novo curso, pois gosto muito da leitura, do cinema e desde que me descobri bordadeira tenho adorado passar horas bordando e filosofando”.

Portal – Como uma matemática foi parar nos estudos do envelhecimento e na terapia externa antroposófica?

A licença maternidade me fez refletir muito sobre o meu fazer enquanto professora de matemática e não sei quanto os hormônios do período do puerpério me afetaram (risos), mas eu comecei a questionar se eu queria voltar para esse lugar. Acabei voltando por seis meses e aí decidi me afastar da escola. Fui fazer uma especialização em Psicopedagogia e tive a oportunidade de fazer dois estágios, um clínico e outro institucional na área hospitalar. E aí a chavinha virou, encantei-me com o trabalho que se dava na brinquedoteca e na classe hospitalar. Neste mesmo período meu pai começou a apresentar os sintomas da demência provocada pelos corpúsculos de Levi[1] o que foi me levando para o lugar da geriatria. Muitos dos meus questionamentos no trabalho eram similares aos que eu enfrentava acompanhando o processo do meu pai. Foi então que decidi me aproximar mais desse universo e fui trabalhar voluntariamente na Universidade Aberta para o Envelhecimento Saudável – UNAPES – dentro do Hospital das Clínicas. Lá eu levei uma proposta de trabalho psicopedagógico institucional mas acabei ministrando algumas oficinas para idosos saudáveis e me apaixonei por todos eles.

Fiquei na UNAPES por dois anos e depois segui com um projeto de cidadania com idosos onde realizei várias oficinas em São Paulo e na cidade de Campos do Jordão. Este projeto foi realizado juntamente com alguns idosos multiplicadores de opinião que frequentaram a UNAPES. Nesse intervalo de tempo, minha mãe teve um AVC e a doença do meu pai progredia. Os dois foram morar na minha casa e por 8 anos eu cuidei do meu pai em casa, até o seu falecimento. Nos três últimos anos de vida do meu pai me afastei muito do trabalho, praticamente ficava em casa nos cuidados dele e da minha mãe. Foi nesse período que me dediquei às técnicas de terapias externas antroposóficas mas apenas para o cuidado dos meus pais. Vale dizer que eu já me tratava com a Antroposofia desde 1999. No último ano de vida do meu pai, para me distrair e atendendo o convite feito pelo meu filho, fui fazer, como ouvinte, algumas aulas na PUC-SP no curso de Ciências Sociais. Foi lá que eu conheci pessoas maravilhosas como o Prof. Miguel Chaia e a Professora Silvana Tótora e reencontrei você, minha querida amiga Beltrina, companheira de outra formação (Gestão de Programas Intergeracionais na Universidade de Granada, Espanha).

Meu filho me levou para essas aulas e a sinergia com a Prof. Silvana Tótora foi tanta que me empolguei para pensar um projeto para o Mestrado em Gerontologia Social. No ano que meu pai faleceu me dediquei na preparação desse projeto e no ano seguinte ingressei no mestrado onde pesquisei o cuidado a partir do encontro da arte com a filosofia. Foi por conta da pesquisa que encontrei o Grupo Teia de Aranha, que é um coletivo  de mulheres de diferentes idades, que bordam há quase 20 anos juntas a partir da literatura de autores como Guimarães Rosa, Mia Couto, Euclides da Cunha, entre outros.  Foi a partir desse encontro que me descobri também uma aranha bordadeira e permaneço nesse grupo mesmo tendo concluído o mestrado. Paralelamente me aperfeiçoei nas técnicas de terapias externas antroposóficas, fiz o curso de deslizamentos rítmicos e passei a compor alternativas de cuidado com a Vida. Passei a me dedicar aos atendimentos individuais e coletivos sempre buscando formas de liberar o corpo para a Vida.

Portal – Com toda essa bagagem só restava então empreender?

A minha maior motivação para criar a empresa que se chama Estúdio Conexão Corpo foi ter cuidado do meu pai e, ainda hoje, cuidar da minha mãe, utilizando as práticas antroposóficas e perceber, por meio do mestrado, as potências do trabalho manual feito coletivamente aliado a um pensar que se dá via conexão com outra linguagem, que no caso deste grupo é a literatura. Pude compreender que potências se abrem para a Vida quando nos encontramos  com fazeres que, conscientemente ou não, desestabilizam um certo sistema de controle e normatização. Em alguns casos, é preciso um nível de abstração para encontrar alguns padrões gestuais, de comportamento, linguagem, para que “desaprendamos” aquilo que já havia sido marcado em nosso corpo. O que eu quero dizer é que ao estar entre amigas, lendo e bordando, estas mulheres se conectam com a possibilidade de outros modos de viver, pois são afetadas pelas histórias lidas, pelas histórias lembradas e ressignificadas na roda de bordado, pelos encontros com o modo de pensar de cada autor e pelo universo que cada um deles arrasta essas mulheres. Dessa forma, outros cuidados vão sendo produzidos diferente do cuidado com um organismo vivo que corre sempre o risco de adoecer. É um cuidado tecido nas bordas e nas dobras dos bordados. Cuidado entre amigas. Cuidado que zela pelas alegrias de um corpo que ainda tem muito o que oferecer.

Portal – Tua concepção de vida e envelhecimento é…

Então, na atualidade vemos que a subjetividade foi reduzida ao corpo, a sua imagem, à sua saúde, à sua performance e à sua longevidade. De maneira geral o que se busca é adequar o corpo às normas científicas da saúde e da longevidade. E desta forma entendo que a vida passa a ser gerida numa trama de relações de poder. Sim, são relações de poder que estão ditando as regras, poder médico, farmacêutico, jurídico, das mídias e assim vai. E essa vida passa a ser uma sobrevida, ou seja, uma vida que esquiva dos acasos e incertezas da vida e das potências que isso pode trazer, uma vez que se produz um corpo formatado, disciplinado, blindado que não se abre às potências de afetar e ser afetado. Na minha concepção de vida e envelhecimento precisamos enfrentar e combater essa vida e esse corpo formatados e isso se passa pela invenção de um outro modo de se relacionar consigo mesmo, incluindo a doença e a morte.

Portal – Mas como isso se dá?

Esse processo se dá pela experimentação de outra saúde, não aquela entendida como bem-estar, mas sim a saúde como produção de vida; não é uma saúde de ferro, de um corpo nunca acometido pelas enfermidades da vida, mas a saúde de que goza uma vida artista, uma vida que se experimenta em um momento “grande demais”. Não se trata de ser jovem ou velho para experimentar algo “grande demais”, mas inventar sua existência, sem perder do horizonte que a vida é arte de viver. Construir a própria singularidade; contribuir para que a saúde possa significar vida criativa e presença no mundo. Vida pensada, querida e desejada tal como um artista deseja e cria sua obra.

Portal – O Conexão Corpo ajuda a construir essa vida criativa?

Assim, no Conexão Corpo entendemos a possibilidade da literatura, poesia, bordado, feltragem, serem produtores de lugares de um cuidado inserido num tempo-espaço povoado de intensidades, o que gera possibilidades de se fugir da normalização do modo de existência, não só na velhice mas em todas as fases da vida. Dessa forma nossa proposta é colocar o corpo-fazedor de quem nos procura em constante processo de contaminação e transformação. Apostamos nas trocas, nas forças do agir e do pensar e acreditamos que isso irá implicar em um cuidado potente com a Vida. Então, posso dizer que o Conexão Corpo trabalha com a concepção de Salutogênese, ou seja, o que nos interessa é a procedência da saúde. As perguntas que norteiam o meu trabalho são: De onde provém a saúde? Como pode-se fortalecer a saúde?  Onde estão as fontes da saúde física, anímica e espiritual? Portanto, pretendemos fomentar a saúde e não impedir a doença.

Diante dessas certezas, acreditei que já havia insumo o suficiente para criarmos um conceito que definisse o nosso trabalho. Numa troca produtiva com a Veronica Miranda da empresa Pensar que trabalha com identidade e estratégia de marca, chegamos à conclusão de que o conhecimento e as práticas compõem e conectam forças para a produção da saúde. Daí, surgiu o nome de forma natural: Conexão Corpo. A palavra estúdio definiu o espaço de atuação e os 3 eixos de trabalho (Compor, Experimentar e Inventar) construíram a nossa promessa de marca – o que temos para oferecer.

Portal – Há muitas empresas focando isso?

Eu vejo muitos espaços trabalhando a partir do conceito de Pathogenesis – Pathein – sofrimento / gênese – origem e na linha da prevenção. Dessa forma a grande maioria dos trabalhos oferecidos atuam buscando evitar e/ou excluir fatores que produzem enfermidades. As perguntas que norteiam estes trabalhos são: Como se origina uma enfermidade? Como prevenir a doença evitando fatores patogênicos? Acredito que o meu grande diferencial seja exatamente olhar para o processo de envelhecimento através da lente da Salutogênese, isto é, focada na procedência da saúde e não na doença.

Portal – O que você pensa do mercado do envelhecimento, agora e no futuro?

Não temos mais como não olhar para este segmento. O século XX trabalhou para a conquista da longevidade, resta agora ao século XXI enfrentar este desafio de responder à grande questão: como lidaremos com uma sociedade povoada de velhos? Penso que o maior desafio do agora, para os gerontólogos, seja pensar nos enunciados produzidos pelos experts em envelhecimento que circulam pela sociedade e se transformam numa espécie de imperativo que faz com que todos repitam em consonância os mesmos enunciados e, também, acabem por controlar as suas próprias condutas e dos demais em prol de uma vida saudável, para se alcançar a longevidade. Agora necessitamos de  coragem para adentrar num embate com as tramas de saber-poder que nos sujeitam. Combater o pensamento não reflexivo, pensamento não pensado de muitos que tentam controlar o mercado do envelhecimento.

Precisamos partir para a invenção de exterioridade do pensar como ato político. Ou seja, pensamento que permita um estranhamento de si e das coisas do mundo para assim abrirmos possibilidades de inovação. Mas, não sei se isso é possível quando se trata de mercado. Porque, falar do mercado é falar de algo que está capturado pelas redes do capitalismo. Acredito que sempre é possível se abrir brechas potentes, e é nisso que estou apostando ao abrir meu novo espaço de trabalho, o Conexão Corpo. Temos que aprender a viver de outras formas dentro desse mundo tal qual ele é. Não existe a possibilidade de ser fora dele.

Nesse sentido, podemos dizer que há um saber relacionado à velhice, ou seja, um modelo, uma identidade maior, uma espécie de ideal que deve ser buscado por todos. Um saber que está entranhado nos enunciados e nas práticas de poder que sujeitam o corpo do velho, mas também de toda uma sociedade e que hoje regula o mercado do envelhecimento. Entretanto, há um pensar sobre a velhice, que é totalmente diferente do saber, pois este não se dá em relação a modelos pré-estabelecidos, mas nas singularidades do envelhecer. Colocando-se contra o bom senso e o senso comum sobre a velhice, devemos buscar um pensamento que viola ele mesmo e permite que pensemos o impensável. Estamos diante de uma tarefa nada fácil, no entanto, é preciso aprender a pensar. Eis a grande tarefa que se coloca para os estudiosos do envelhecimento e das velhices.

Nota
[1] A Demência de Corpos de Lewy é uma forma comum de Demência e que tem muitas similaridades com a Doença de Alzheimer. É causada pela degeneração e morte das células nervosas do cérebro. O nome deriva da presença de estruturas esféricas anormais, denominadas por corpos de Lewy, que se desenvolvem dentro das células nervosas.

Serviço
Estúdio Conexão Corpo
Rua Professor Pedro de Cunha, nº 80. Perdizes – São Paulo/SP
Site: www.conexaocorpoestudio.com.br
Facebook: /conexaocorpoestudio
Instagram: /conexaocorpoestudio
E-mail: claudia@conexãocorpoestudio.com.br
Whatsapp: (11) 9.8263-7654


Estamos diante do “corpo” ou de “corpos” e, ainda, de que “corpo” afinal se trata? Que tipo de corpo a sociedade atual quer criar e quais os efeitos do poder sobre ele? Estas questões estarão sendo debatidas por Cláudia Soares nesse workshop. Inscrições abertas: https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/corpo-2/

Beltrina Côrte

Beltrina Côrte

Jornalista, Especialização e Mestrado em Planejamento e Administração do Desenvolvimento Regional, Doutorado e Pós.doc em Ciências da Comunicação pela USP. É docente da PUC-SP. Coordena o grupo de pesquisa Longevidade, Envelhecimento e Comunicação. CEO do Portal do Envelhecimento, Portal Edições e Espaço Longeviver. Integrou o banco de avaliadores do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – Basis/Inep/MEC até 2018. Integra a Rede Iberoamericana de Psicogerontologia (Redip) e a Red Iberoamericana Interdisciplinar de Investigación en Envejecimiento y Sociedad (RIIIES). E-mail: beltrinac@gmail.com

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