Estratégias residenciais para pessoas idosas com deficiência intelectual

Em contato com amigos que nos visitam em São Paulo, vindos de outros países, e em correspondência que mantemos constantemente com o exterior, ficamos sensibilizados em ver quanta coisa se faz pela família que envelhece nos países adiantados, e tristes por ver quanto falhamos nós, no Brasil, no sentimento social, realmente humano e apoiador de nossas famílias. Será que passaremos mais 500 anos protestando contra as injustiças da nossa sociedade sem conseguir modificá-la?

 

Numa projeção à idade avançada das pessoas com deficiência, as alternativas residenciais acompanham as propostas de atenção a todas as fases da vida. Incluem o apoio às famílias, o treinamento dos pais em como lidar e educar seu filho em determinadas circunstâncias e, especialmente para adultos, é necessário procurar desenvolver alternativas fora do lar natural. Por exemplo, quando os pais falecem ou ficam doentes, ou quando o adulto que tem deficiência intelectual tem problemas mais graves de comportamento ou de saúde, ou chegando à velhice e está sozinho. Ás vezes é necessário apenas preparar a pessoa para ficar mais independente. As opções fora do lar natural, então, são muitas. Talvez a alternativa mais comum seja a casa de grupo. Casas de grupo são uma alternativa excelente para adultos com deficiência intelectual que precisam de um lar para morar e para aprender a viver o mais independentemente possível. Nem todas as pessoas que têm deficiência intelectual precisam de uma casa de grupo. Alguns só precisam dela para um tempo de treinamento. Outros talvez precisem de uma casa de grupo para a vida toda.

O ritmo do dia dos adultos com deficiência intelectual deve ser o mesmo ritmo de qualquer outro adulto: hora de acordar, hora de trabalhar, hora de voltar para casa e hora de recrear.

Dentro deste ritmo a pessoa deve ter a oportunidade de agir como uma pessoa adulta: vestir-se de modo normal, andar de ônibus, sair com amigos, fazer compras, etc.

Em muitas comunidades existem movimentos que se chamam “defensores” em que o voluntário treinado é ligado a uma pessoa com deficiência intelectual. O “defensor” ajuda a pessoa a se integrar na comunidade em ritmo de vida normal.

É necessário entender que uma casa de grupo deve ser um lar. Deve ter um grupo pequeno de moradores de 4 a 6 pessoas. Deve ser num bairro comum. Deve ser uma casa comum.

Como deve ser uma casa de grupo

Os organizadores devem se perguntar quais as necessidades daquelas pessoas que residirão ali.

1) Aprenda o máximo sobre as necessidades das pessoas;

2) Crie um grupo de voluntários que planejem a casa;

3) Escolha um bairro receptivo;

4) Defina o tipo de equipe que vai assistir as pessoas com deficiência intelectual.

Uma casa de grupo deve ser um lar, não um centro de treinamento.

O bairro escolhido deve encorajar a integração. A lista seguinte indica as perguntas que devem ser feitas antes de fundar uma casa de grupo.

1) A casa é dentro de um bairro receptivo?

2) A casa se parece com qualquer outra casa?

3) O transporte é fácil?

4) A casa é limpa e bonita?

5) Os moradores saem durante o dia para o trabalho ou para um centro de treinamento?

6) Os moradores têm direito a uma vida reservada quando querem?

7) A equipe trata as pessoas como adultos?

8) Os residentes têm roupa pessoal, livros, jogos, etc?

A equipe é geralmente um casal simpático às necessidades de adultos com deficiências. Eles geralmente tem um ou mais assistentes. Também é bom utilizar voluntários da comunidade. O casal tem a responsabilidade de criar um ambiente de amor e comunidade, ensinar os residentes a cuidar da casa, preparar as refeições, cuidar de si, etc., planejar a vida cotidiana com os residentes, dar liberdade mas também proteger no que for necessário.

Uma casa de grupo é um compromisso com a normalização de adultos com deficiência intelectual. Pode ser uma base para a maioria sair para a independência. Permite até aos mais deficientes morar e trabalhar e se socializar dentro da comunidade (John MAcGee, Universidade de Nebraska, Estados Unido).

Um Plano “residencial” inclui

Casa de cuidados

dispensar apoio familiar através de atendimento no próprio lar, por determinado tempo.
Providenciar assistência e atendimento a pessoas com deficiência numa emergência familiar, período de férias, crises familiares e outras situações.
Pode ajudar também na prevenção de possíveis crises familiares, resguardando o equilíbrio familiar.

Casa para pequenos grupos

Para 6 a 8 pessoas – 2 pessoas para atendê-los (casal) É uma proposta de normalização como se fossem os próprios lares das pessoas com deficiência.
Pode ter atividades “familiares” – como alimentação, serviços individuais para pessoas que não são capazes de viver em suas próprias casas mas que sejam capazes de auto-cuidados.

Moradias de 2 a 4 pessoas

Para pessoas mais comprometidas, como por exemplo com certos graus de paralisia cerebral, visando o desenvolvimento de habilidades para alcançar níveis compatíveis de independência. Podem freqüenta a residência por períodos curtos.
Pessoas com deficiências graves – visa o desenvolvimento de níveis de independência. Pode ter caráter de transição ou permanência por tempo longo.

Residências pessoais

Exige um sistema de suporte adicional, implementado por outros recursos na comunidade para assistir pessoas que vivem em suas próprias residências – (apartamentos, por exemplo), mas que necessitam ajuda nas compras, bancos, lavanderia, preparação de comida, limpeza em geral (casa própria ou alugada).

Quando se aborda o tema relacionado com a pessoa que tem deficiência intelectual e o envelhecimento, não podemos deixar de fazer uma referência aos problemas que se colocam para os pais idosos, razão da importância de também aqui se mencionar a importância dos lares.

“ O envelhecimento, em princípio, para pais de um adulto ou de um adolescente – representa o fato de não mais contar com a ajuda de seus próprios pais, muito velhos ou já falecidos, nem de outros filhos do casal que já se afastaram – é de repente se encontrar só, sem marido ou esposa. É também atingir a idade da aposentadoria, tendo por corolário uma situação material reduzida, que para muitos não permite o pagamento de um auxiliar, ainda que suas forças diminuam. Que fazer então face aos esforços físicos que uma pessoa com deficiência exige sempre, mesmo quando ela freqüenta uma instituição mas, sobretudo, quando ela permanece no lar e ainda se for o caso de uma pessoa com deficiência grave, cuja mobilidade é reduzida ou até mesmo praticamente inexistente.Todos nós conhecemos mães e pais que não conseguem mais carregar seu filho adulto, que se tornou muito pesado, e, quando os pais ainda o conseguem, continuam inquietos e angustiados em relação ao futuro. Muitos, enfim, “perdem o controle da mente” e não apresentam mais condições de assegurar o que quer que seja para seu filho.” (Jacques Henry – França).

Nestas condições, estão presentes a criança, o adolescente, o adulto e o idoso – antropologicamente a vida humana, o que somos, o que fazemos, o que nos acontece é um processo contínuo.

Este processo vital humano, de idades distintas, não representa etapas ordenadas para uma eliminação ou apoteose, mas distintas versões da possibilidade humana.

Assim, a pessoa com deficiência intelectual não “termina” na idade adulta, mas como todo ser humano chegará à terceira idade.

A terceira idade será um momento digno, de houver consciência e coerência no seu preparo, que se iniciou num processo contínuo desde a mais tenra idade, através de programas e serviços adequados ao atendimento de suas necessidades específicas, valorizando-se suas possibilidades e assegurando seu desenvolvimento integral.

Tais considerações visam reafirmar que todos os envolvidos – pais, profissionais, e amigos – junto às próprias pessoas com deficiência – operacionalizem os objetivos pelos quais lutam, ou seja, atender sempre as “necessidades especiais” de pessoas “muito especiais”, para facilitar-lhes uma sólida integração e conseqüente melhoria de sua qualidade de vida, capacitando-as a se integrarem adequadamente à realidade social onde estão inseridas.

É indispensável que as pessoas com deficiência intelectual não sejam “manipuladas” numa proposta fictícia de “adultização”, mas que lhes sejam oportunizados os meios de vencer as suas “limitações” através do desenvolvimento de suas potencialidades na área da comunicação e socialização.

Extraído da conferência feita pela professora Maria de Lourdes Canziani que nos anos noventa fins do século 20, estando à testa da CORDE, Coordenadoria das Pessoas com Deficiência, deu grande atenção à questão do envelhecimento. A Conferência foi realizada em Salvador, Bahia, de 27/11 a 3/12/1997 durante o III Congresso Baiano sobre Deficiência e Reabiiltação. Este texto foi digitado em São Paulo por Maria Amélia Vampré Xavier, do Grupo de Informações Área Deficiências e Programa Futuridade da SEADS-Secretaria Estadal de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo, Carpe Diem, Sorri Brasil, Rebrates, SP, FENAPAES, Brasília,(Diretoria para Assuntos Internacionais Inclusion InterAmericana e Inclusion International, em 8 de dezembro, 2009.

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