Estímulos sensoriais beneficiam idosos demenciados

Para idosos demenciados, estímulos sensoriais podem facilitar a interação entre eles e seus cuidadores, melhorando a comunicação em nível verbal e não verbal. O aumento da consciência sensorial também suporta o processamento de informações e aumenta a conscientização sobre o ambiente geral.

Maria Luisa Trindade Bestetti (*)


Que os ambientes impactam no bem-estar dos seus ocupantes, todos sabemos. Consideram-se os estímulos sensoriais que são percebidos pelos sujeitos a partir de cores, sons, formas e composições, com objetos colecionados ao longo da sua história e que remetem a momentos importantes. Não é à toa que alguns rejeitam certas cores quando elas lembram momentos tristes, ou que desejam muita luz e claridade para não se sentirem confinados. Enfim, cada pessoa estabelece preferências a partir da história que vai traçando ao longo da existência.

Pesquisas desenvolvidas no Reino Unido, há poucos anos, têm demonstrado os benefícios que salas sensoriais podem oferecer a idosos demenciados. O conceito surgiu na Holanda, no começo dos anos 80, e era inicialmente para estimular dificuldades de aprendizagem. De acordo com Jakob e Collier, em How to make a Sensory Room for people living with dementia, a pesquisa desenvolvida nos anos 2013-14 demonstrou o poder de transformação que esses ambientes podem oferecer quando utilizados de modo adequado por profissionais treinados.

A sala sensorial, também chamada Snoezelen ou ambiente multissensorial (MSE), é um espaço para desfrutar de uma variedade de experiências sensoriais e onde a estimulação suave dos sentidos (visão, som, toque, paladar, olfato e movimento) pode ser fornecida de maneira controlada.

Na pesquisa, alguns residenciais para idosos receberam equipamentos e adequações para a composição de salas sensoriais e os residentes, em especial os que apresentavam demência moderada, puderam usufruir dos exercícios de percepção e estimulação dos sentidos. Situações foram criadas com vídeos e potencializadas com aromas que remetessem àqueles cenários, assim como sons adequados para situações de estímulo ao movimento ou de repouso para tranquilizar idosos mais agitados. Igualmente eram inseridos alimentos como frutas, chás e cremes aromáticos, além de objetos com texturas que sugerissem a interação e o toque.

Mas há a sugestão de que os elementos sensoriais continuem em outros ambientes da residência, mantendo o interesse do morador em buscar novos focos de atenção.

Para pessoas com demência, um ambiente sensorial estimulante pode facilitar a interação entre elas e seus cuidadores, melhorando a comunicação em nível verbal e não verbal. O aumento da consciência sensorial também suporta o processamento de informações e aumenta a conscientização sobre o ambiente geral.

No Brasil, ainda pouco se sabe a respeito, a não ser que é preciso aprofundar esta questão tão significativa para o bem-estar de moradores idosos, em especial os que estão em processo de demência e, assim, podem prolongar sua presença no mundo. Cabe aos arquitetos compreenderem profundamente como produzir ambientes assim.

(*) Maria Luisa Trindade Bestetti é arquiteta formada pela UFRGS, com mestrado e doutorado pela FAU USP, além de MBA em Gestão de Projetos pela FGV. É professora doutora no Curso de Gerontologia da Universidade de São Paulo, com disciplinas de Gestão de Projetos e Empreendedorismo na graduação e Habitação e Cidade para o Envelhecimento Digno no mestrado. Pesquisa sobre modos de morar na velhice, desenvolvendo caminhos para a reflexão sobre o tema utilizando metodologias colaborativas, em especial o Design Thinking. Criadora do Blog Ser Modular – harmonizar todas as etapas da vida, atendendo desejos e necessidades de moradia na velhice.


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