Estação saudade

Em meio aos goles de café, sorvidos entre compaixão e espanto, dona Hercília soube que todas as portas da casa foram retiradas para facilitar os passos do filho de Alice que um dia partiu, não mais retornou e pelo qual ela só faz esperar e esperançar com fé, força, coragem e alegria! Em meio à abraços e silêncio, ambas entenderam a importância da casa sem portas, representando o amor liberto, inteiro, com tempo e espaço para uma entrega total!

Vera Helena Zaitune *

 

estacao-saudadeTodo dia, o ritual de Alice era o mesmo: colocar a sua melhor roupa, pentear suave e lindamente o seu cabelo e perfumar-se com aquela água de colônia levemente cítrica. A vizinhança já se acostumara com a rotina daquela mulher que cotidianamente se dirigia ao aeroporto para assistir e se comover com os abraços das chegadas e partidas dos viajantes voadores!

Dona Hercília, foi a primeira pessoa a notar um movimento diferente na residência de Alice. Tornou-se frequente ouvir o ruído de marteladas, como se algo fosse desmanchado. Meticulosa, indagou dos vizinhos sobre esse evento. Dentre eles, alguns já haviam escutado e outros ainda não.

Decidiu então ficar muito atenta a fim de descobrir o que acontecia na casa da Alice. Percebeu-a mais esbaforida, quando se dirigia ao ponto do ônibus e sem tempo de participar dos rotineiros dedinhos de prosa. Tal constatação aguçou ainda mais a curiosidade de dona Hercília. Era preciso elaborar um plano de ação para tal investida! O ruído do martelo se intensificava mais e mais…

No bairro em que viviam, anunciou-se a proximidade da festa da santa padroeira da cidade, com uma programação bastante diversificada. Inclusive, se pedia por prendas para o bingo. Bingo, pensou dona Hercília! Isso mesmo! Ofereceu-se para arrecadá-las no quarteirão que morava. Bom pretexto para esclarecer sobre o barulho ensurdecedor da casa de Alice!

Numa manhã chuvosa tocou a campainha da casa dela e surpreendeu-se pela forma que foi recebida. Alice parecia serena embora o seu olhar também traduzisse uma certa nostalgia. Convidou-a para entrar enquanto escutava da vizinha o motivo que a trazia até sua casa. Mostrou-se receptiva à ideia de providenciar as prendas e prontamente entregou-lhe as que possuía naquele momento, prometendo comprar mais.

De tão envolvida que estava no sentido de receber e atender dona Hercília, Alice não percebeu a transformação ocorrida no seu semblante. Avistou-a assustada, impactada!

Só naquele instante notou e certificou-se que a sua antiga vizinha necessitava de uma explicação. A mesma se relacionava com o formato que o interior da sua casa imprimiu para dona Hercília.

Como se encontrava num lugar que lhe permitia uma visão nítida e ampla de toda a sua casa, Alice compreendeu o motivo do susto estampado na face da vizinha. Exceto o banheiro, tudo mudara e se alargara muito. O imóvel se assemelhava a um retângulo coberto pelas velhas telhas. Isso era só e tudo ao mesmo tempo.

Café coado, biscoitinhos e pãezinhos do dia, assentados sobre a toalha de chita compunham a mesa do lanche de ambas. O cheiro das iguarias exalava e as convidava a uma pausa saudável.

Em meio aos goles de café, sorvidos entre compaixão e espanto, dona Hercília soube que todas as portas da casa foram retiradas para facilitar os passos do filho de Alice que um dia partiu, não mais retornou e pelo qual ela só faz esperar e esperançar com fé, força, coragem e alegria!

Em meio à abraços e silêncio, ambas entenderam a importância da casa sem portas, representando o amor liberto, inteiro, com tempo e espaço para uma entrega total!

* Vera Helena Zaitune – Graduada em História, Mestre em História da Educação, Especialista em Educação para o Envelhecimento e Alzheimer. É colaboradora do Portal do Envelhecimento. Email: vhzaitune@gmail.com

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