Espanha: Programa Cidades Amigas é como órtese urbana

Conheci Yolanda Vilorio Gomez, recentemente, em um curso sobre Programas Intergeracionais, em Granada, Espanha. Uma pessoa muito sensível, concentrada e crítica. Yolanda é uma educadora social com mestrado em Gerontologia e muitos conhecimentos sobre Biologia, carreira que começou lá atrás e que não terminou por não concordar com a matança de animais para estudo.

Beltrina Côrte

 

espanha-programa-cidades-amigas-e-como-ortese-urbanaMas também conhecimentos adquiridos em muitas experiências de trabalhos voluntários, especialmente no âmbito intergeracional.

Ela sempre se sensibilizou com a exclusão das pessoas idosas, principalmente quando estas eram sutilmente afastadas das ações de voluntariado. Exclusão que, segundo ela, ocorria pela falta de compreensão e formação dos responsáveis e coordenadores das organizações de trabalhos voluntários.

Yolanda tem 43 anos, é uma pessoa sensível, entusiasmada e comprometida com novas e férteis propostas para e com uma sociedade para todas as idades. Fez seu mestrado em gerontologia na Universidade de Deusto, em Bilbao, Espanha. Trata-se de uma instituição de ensino jesuíta e com tradição (completou 125 anos em 2011) na área de Direito e de negócios, principalmente. O mestrado em gerontologia foi implantado em 2007 e conta com a colaboração do governo Foral de Bizkaia e de diversas empresas privadas de âmbito nacional, dedicadas à atenção geriátrica e gerontológica.

espanha-programa-cidades-amigas-e-como-ortese-urbanaYolanda, qual foi o tema da tua pesquisa?

Minha pesquisa foi dentro de uma linha de pesquisa do mestrado em gerontologia de Deusto que está dentro do programa da Organização Mundial de Saúde (OMS), chamado Cidades Amigas para Todas as Idades. Minha investigação foi, a partir de uma revisão de literatura sobre esse programa da OMS, aqui na Espanha, atualizar e propor novos modelos de participação, em que os idosos pudessem interagir.

O que a motivou a trabalhar nessa linha de pesquisa?

Eu queria aproveitar a proposta das cidades amigáveis para todas as idades, pois entendia que o foco intergeracional estava presente, o que inclui pensar na participação de diversos grupos com pessoas de idades diferentes pensando em sua cidade. Em minha revisão de literatura não encontrei esse foco, infelizmente.

Como assim?

Embora o programa das cidades amigáveis fosse dirigido para todas as idades, infelizmente constatei que nem todas as idades não estiveram presentes no programa em muitas regiões da Espanha. Observei em meu estudo que a participação dos idosos era muito pontual, e uma vez com o título de Cidade Amiga, o trabalho com os idosos, por exemplo, acabava, não gerando participação contínua, vínculos. Constatei ainda que esse tipo de programa de fato não gerou participação aqui na Espanha, foi como uma prótese…. Não há continuidade.

O que você vê como positivo?

O programa apresenta muitas possibilidades de ação, investigação, participação. Ele permite criar vínculos, relações entre diversas gerações. Em alguns lugares da Europa isso de fato aconteceu, não na Espanha. Aqui se fez diagnóstico, ação, relatórios, se fez algumas “maquiagens” nas regiões centrais porque nos bairros nada aconteceu, e são ali justamente que se encontram muitas pessoas idosas, totalmente isoladas pela própria geografia do país. Em muitas cidades espanholas o selo de Cidade Amiga foi ganho em praticamente em um único mês. Sei que sem subvenção da ONU não teríamos nenhuma cidade amiga, mas os governos e a sociedade perderam uma ótima oportunidade de gerar verdadeiros trabalhos intergeracionais focados na intervenção urbana.

E agora, o que você faz?

Meu trabalho de agora não tem nada a ver com a pesquisa de mestrado, por enquanto. Há três anos participo de uma proposta intergeracional em um centro de educação de adultos envolvendo pessoas de 25 a 70 anos. Trata-se de uma iniciativa própria fora das atividades formais, e eu atuo como voluntária. No grupo, dirigido pela professora Sharo Gonzalez estão pessoas idosas, uma autista, jovens, outra com síndrome de Dow. Em três anos observa-se uma melhora incrível. Nesse grupo trabalhamos muito com música, especialmente focada na Prática Psicomotora Aucouturier (PPA), a qual apresenta um referencial teórico-prático específico, centrado na ação espontânea da criança e na unificação dos aspectos cognitivos, afetivos e sociais do desenvolvimento infantil, que se expressam nas relações estabelecidas com o espaço, o tempo, os objetos, as pessoas e com seu próprio corpo. O PPA aplicado aos idosos tem as mesmas propostas de educação. Os resultados são impressionantes, os idosos recuperam sua imagem e, uma vez com ela renovada, percebem sua potencialidade, estendendo-a ao seu círculo de relações, beneficiando todos que estão à sua volta.

Você pretende continuar com esse trabalho voluntário?

Lamentavelmente, como consequência da crise espanhola, crise que está asfixiando e acabando com muitas propostas como esta, que tem mais de 10 anos de atuação, é bem possível que este ano, com a aposentadoria da professora responsável, este trabalho também seja encerrado. Por esse motivo, muitas pessoas participantes do grupo já estão organizando uma grande festa intergeracional a fim de chamar a atenção da sociedade e assim continuarem com a atividade.

Finalmente, Yolanda comentou que o fato de trocar reflexões com profissionais brasileiros (o curso sobre Programas Intergeracionais contava com a participação de muitos brasileiros) foi, para ela, uma experiência renovadora que lhe proporcionou um novo olhar a respeito do trabalho intergeracional.

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Redação Portal do Envelhecimento

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