Escritos dos/nos Tempos (pandêmicos)

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Vimos a tecnologia crescer, em diferentes áreas, e fazer parte das nossas vidas. Vida adulta e velhice em constante aprendizagem e adaptações. O que fazer com o tempo, no tempo da pandemia?


Uma das sensações mais instigantes derivadas do isolamento social, necessário neste período da pandemia, foi a da passagem do tempo. Meu marido e eu ainda trabalhamos (ele mais), e tínhamos uma vida com muitos compromissos – profissionais e sociais. Sempre idealizamos nossas ‘paradas’ –  pequenas viagens, finais de semana sem compromissos…Um tempo ‘sem fazer nada’…Livres. Ler, fazer caminhadas, conversar, ouvir música!

Em março de 2020 estes ‘tempos’ – trabalho e lazer – sofreram uma mudança radical! Mas, sabemos, não podemos parar o tempo. Temos um tempo de vida determinado, mas que não sabemos, e vivemos… Até o momento final, última experiência que teremos.

Alguns disseram – parece que o tempo parou. Outros – o tempo não passa.

Mudou o tempo ou mudamos nós?

Sim, o tempo não para. E o tempo cronológico não mudou – o dia continua a ter 24 h, o ano 365 dias, 8760 h! Quanto tempo!

Instalou-se aos poucos uma inquietude, a tensão, a angústia, o medo. O modo como sempre nossa geração viveu foi sendo transformado cotidianamente. Novas descobertas tecnológicas, impactando a comunicação e abrindo novos horizontes. Nossa geração – os jovens dos anos 1970 – já tinha vivido dois mundos/tempos simultâneos. Vimos a tecnologia crescer, em diferentes áreas, e fazer parte das nossas vidas – um período de cerca de 55 anos de constantes inovações e transformações. Vida adulta e velhice em constante aprendizagem e adaptações.

Mas, e agora? O que fazer com o tempo, no tempo da pandemia?

Tempo… Tempos…

A partir de 1994 inicio um trabalho com idosos. O tema solicitado – Antropologia. Juntos, construímos um ciclo que abordou os temas Memória e Cultura, viabilizado pelo processo dialógico comum à antropologia e à educação. O fio condutor foi o tempo das narrativas dos envolvidos.

Abordamos os tempos vividos a partir do presente. Foram sendo reconhecidos e reconstruídos tempos internos e externos, transformados em narrativas de ‘sentidos’ que ‘passaram a vida a limpo’ na definição de muitos.

Constatamos, então, que vivemos tempos plurais – uma superposição de tempos que marcam as etapas da vida. Do latim tempus, o termo pode ser definido como ‘a duração relativa das coisas’ criando, no ser humano, a sensação de presente – passado – futuro.

Cronos – objetivo, histórico, datado; Kairós – subjetivo, vivido “como uma das dimensões do ser”, como afirmava o filósofo Joel Martins (1998), e  que poderia se conectar com a noção de projeto existencial.

E se penso em tempo e projeto, penso no presente, ligando passado ao futuro, planos de um ser que (se) projeta. E o que se projeta? Tudo e nada.

No início (março de 2020) fazíamos planos para ‘quando terminar a pandemia’. Estamos em meados de agosto e a situação se agravou. Esperamos por algo indefinido. Difícil (impossível?) fazer planos. Vivemos o tempo de recolhimento e espera.

Mas os tempos datados e vividos como experiências regem igualmente esta ‘vida pandêmica’, e foi nele que tenho realizado um exercício de rever “meus tempos”. Não foi planejado, mas me percebi mais reflexiva do que já era, e nada angustiada. Ao invés de lamentar o ‘não vivido’ – planos de viagem,  afastamento do convívio com filhos e netos, projetos de trabalho – aliado às preocupações nos cuidados com minha mãe, quase centenária, a queda de renda e as mesmas despesas – me percebi grata e recompensada pelo tempo vivido.

Foram muitos os momentos nos quais me ‘reapropriei’ de mim e me refiz em processo de autoconhecimento contínuo – nos muitos anos de trabalho terapêutico; no meu fazer pedagógico com crianças, pais, avós e professores; na intensa e longa formação em psicodrama pedagógico; no trabalho de escuta das narrativas dos idosos, com base antropológica e, posteriormente, como instrumento de pesquisa e formação de profissionais em processo de educação continuada.

Em cada narrativa, compartilhada entre os muitos e diferentes participantes, e em diferentes estados do país, calada, acolhia, me identificava e aproximava dos narradores. Soma-se, a essas experiências, outra imersão na minha trajetória orientada pela metodologia biográfica, baseada na antroposofia, sistematizada por Gudrun Burkhard, a partir dos ensinamentos do filósofo e educador Rudof Steiner (1861-1925) – fundador desta abordagem. Processo constante de transformação e recomposição de mim.

Assim, o trabalho de vida-formação foi se articulando, alimentando sempre minha trajetória de estudo, reflexão, autoconhecimento e práticas no campo da educação continuada e no tema do envelhecimento. Com o passar do tempo pude realizar, no trabalho e na vida, o que o filósofo francês Paul Ricoeur (1913-2005) propõe em sua obra Percurso de Reconhecimento.  

A partir das reflexões sobre o processo de formação autobiográfica, de reflexão e escrita de si, e heterobiográfico, na reciprocidade das escutas narrativas partilhadas no grupo, ao qual tenho me dedicado, verifico o potencial de restabelecer o poder do diálogo pela palavra socializada – falada e escrita – na intermediação do grupo nos trabalhos de escuta e leitura mútuos. 

Neste processo os indivíduos passam de um ‘reconhecimento como identificação’ – momento individual e solitário de reconhecimento de si – e que nos encontros situa-se no plano de projeto-busca autobiográfico, para um ‘reconhecimento mútuo’ – estabelecido nas relações de reciprocidade das escritas de si e nas escutas sensíveis – heterobiográficas. E, nesse processo. ‘ser reconhecido’.  Realizei, assim, estudando, pesquisando e trabalhando meu próprio percurso de reconhecimento, como propõe Ricouer (2006).  

Acredito que este percurso tenha sido facilitador do mergulho na trajetória pessoal e na identificação dos diferentes tempos/etapas/vidas vividas, pois podem ser lidas no tempo que é presente (pandêmico), mas marcado pelo passado e as experiências, e as memórias que de tudo trago comigo e me constitui.

Organizei sem planejar uma retrospectiva, a partir das conversas com minha mãe, sentadas ao longo dos últimos domingos no terraço ensolarado, que temos o privilégio de desfrutar. Falamos da vida – dela, minha, nossa, das mulheres ancestrais – ‘passamos a vida a limpo’. Sem mágoas, com a certeza de ter realizado o melhor que foi possível a cada uma de nós, e com certo orgulho do que fizemos para honrar a saga dessa corajosa linhagem de mulheres italianas! Tempo de atualização e ‘certo’ recomeço desta última etapa que nos está sendo dada viver.

Percebo também que, neste momento, sem planos, expectativas – no tempo entre tempos – realizo outro percurso de reconhecimento identitário, como se desvelasse a mulher velha que me habita. Ela sorri para mim e me diz que tudo valeu a pena e que cada etapa teve seu sabor, valor e dor. Tudo em mim.

Do passado para o futuro – tempo incerto e indefinido – lá vou eu!

Referências
BURKHARD, G. Bases Antroposóficas da Metodologia Biográfica. São Paulo: Antroposófica, 2002.
MARTINS, J. “Não somos Cronos, somos Kairós”, Revista Kairós, nº. 1. São Paulo, Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia (PUC/SP), 1998.
RICOUER, P. Percurso do Reconhecimento. São Paulo: Loyola, 2006.

Foto destaque de Johannes Plenio de Pexels


Intergeracionalidade

Vera Brandão

Vera Brandão

Pedagoga (USP); Mestre e Doutora em Ciências Sociais (PUCSP); com Pós.doc em Gerontologia Social pela PUCSP. Docente. Pesquisadora do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (NEPE-PUC/SP). Editora da Revista Longeviver (https://revistalongeviver.com.br) e Coordenadora Pedagógica do Espaço Longeviver. E-mail: veratordinobrandao@hotmail.com

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