Epifanias para enfrentar a dor de existir

No momento em que vivenciamos a estimulação da banalidade, evento realizado pelo Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento da PUC-SP recomenda o contrário: este é o tempo em que se deve enfrentar a dor de existir.


Qual é o papel da literatura, da escrita, do texto, na atualidade? Existe ainda um papel para a poesia? Onde e por onde circula? Qual é o impacto dessa produção para uma época onde quase todo mundo tem um celular e na qual as pessoas se comunicam por meio do WhatsApp, Messenger e Telegram? Qual é, afinal, a importância dos poetas hoje?

Estas questões foram colocadas por Leandro Garcia, professor de Teoria Literária da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e diretor do Acervo dos Escritores Mineiros da UFMG, no evento intitulado “Mito, Poesia e Vida na coleção de Epifanias de Cláudio Guimarães dos Santos em seu processo de Longeviver”, promovido pelo Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (Nepe), e realizado recentemente na PUC-SP.

O professor Leandro Garcia lembra, logo de início de sua fala, que Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), quando morreu em 87, causou comoção nacional e o estado do Rio de Janeiro ficou em luto por uma semana. Drummond muito impactou a sociedade na época, muito diferente do que vivemos hoje.

Para Garcia, a escrita literária é marcada pela subjetividade e técnica. A técnica, segundo ele, é aprendida numa perspectiva clássica, mas até que ponto pode ser uma ferramenta terapêutica, pergunta o professor? Ele fala de epifania na perspectiva literária, e cita o conto Amor, de Clarice Lispector, publicado em 1960. O conto está inserido na obra Laços de Família e tal como as restantes 12 narrativas breves que compõe o livro, “Amor” retrata um episódio da vida de uma pessoa comum, Ana, que, perante uma situação ou experiência cotidiana, sofre uma epifania que a faz refletir sobre si mesma e o mundo que a rodeia.

Ana é descrita no conto “Amor” como uma mulher ativa, que dedica a sua vida à família e à manutenção da casa, procurando conservar a ordem de tudo, a “raiz firme das coisas”. Contudo, durante a tarde, havia a “hora perigosa” em que se encontrava disponível para se concentrar em si mesma, começando a refletir sobre a sua vida e o percurso que a conduziu até aquele ponto.

O professor Leandro diz que o texto literário provoca algo diferente em cada receptor. Cada verso revela, tem a sua epifania. Lembra novamente Clarice Lispector, em “A via crucis do corpo” (1974), quando descreve situações que discutem a solidão e o desamparo, especialmente aliados à velhice, pois um corpo precisa de outro corpo.

Finalmente, o professor Leandro chega até a poesia “Resposta: Jó”, de Cláudio Guimarães dos Santos (médico, escritor e diplomata), para falar da dor de existir, ou seja, do buraco na alma, que modernamente se nomeia depressão. Segundo ele, o Jó é muito contemporâneo. E pergunta: “cadê Deus ante o sofrimento humano”?, e lê um trecho da poesia:

Desarmado o sofrimento,

Veio a calma concentrada

Do silêncio que revela

As ranhuras da existência

E os recheios das palavras

Com que sonham os sentidos do Sem-Nome.

Catábase

Leandro Garcia encerra sua fala trazendo para o debate a Catábase, palavra que corresponde a qualquer forma de descida. Ou seja, o deslocamento que se faz para o autoconhecimento: descer às nossas profundezas para então subir. Lembra que na mitologia o termo é usado para se referir à descida ao mundo inferior (mundo dos mortos), citando vários personagens da literatura que baixaram aos infernos para se autoconhecerem, como Orfeu, Odisseu, Aquiles, Eneias e mesmo Dante, na obra Divina Comédia.

Já Cláudio Guimarães dos Santos iniciou sua fala afirmando que gosta da expressão “buraco na alma”, afinal, segundo ele, somos seres sem sentido, zumbis, que perderam a alma. E para enfrentar esse buraco na alma, Cláudio vê dois caminhos: o do enfrentamento ou a fuga banalizante da existência.

Para o poeta, infelizmente a sociedade atual estimula a banalidade. Mas, profetiza: “quanto menos ela (a dor de existir) for enfrentada, mais forte vai bater” em cada um. Portanto, o caminho do enfrentamento é o afrontamento, especialmente quando nos aproximamos da morte. Portanto, mais cedo ou mais tarde teremos que enfrentar a dor da existência.

Ele retoma, então a Catábase, comentada pelo professor Leandro Garcia, para dizer: “eu só me elevo se descer”. Para ele a “descida ao inferno” é reveladora. Dela nasce a poesia, a mitologia, a literatura e até a ciência. Lembra que no início da história ocidental os poetas eram profetas, porque a poesia tem essa força epifânica porque é resultado do enfrentamento. O poeta, para Cláudio Guimarães, recusa-se a ser banal. Sabe que a morte é a grande ferida da vida e o que acontece hoje é que “perdemos a capacidade de olhar a morte”.

O olhar a morte percorre a Coleção de Epifanias, que nasceu da vivência de Cláudio Guimarães dos Santos e da tentativa de revelar a sua experiência. Na busca de autoconhecimento, ele se deu conta que poderia fazer “pontes” e a poesia foi a atividade que lhe permitiu essa síntese, uma sensação de plenitude. Mas é da reflexão da morte que nasce a sua obra, que fala da vida.


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Beltrina Côrte

Beltrina Côrte

Jornalista, Especialização e Mestrado em Planejamento e Administração do Desenvolvimento Regional, Doutorado e Pós.doc em Ciências da Comunicação pela USP. É docente da PUC-SP. Coordena o grupo de pesquisa Longevidade, Envelhecimento e Comunicação. CEO do Portal do Envelhecimento, Portal Edições e Espaço Longeviver. Integrou o banco de avaliadores do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – Basis/Inep/MEC até 2018. Integra a Rede Iberoamericana de Psicogerontologia (Redip) e a Red Iberoamericana Interdisciplinar de Investigación en Envejecimiento y Sociedad (RIIIES). E-mail: beltrinac@gmail.com

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