Envelhecimento: onde está a educação?

O crescente número de idosos no grupo 60 a 75 anos, e a ampla faixa dos que vivem a longevidade avançada, de 80 e mais, é uma realidade que “preocupa” toda a sociedade. Existe uma questão pouco abordada: a formação profissional na área específica. Será que os profissionais da área de educação têm sido orientados na construção de “sólida formação teórica” e “sólida formação pessoal”?

Vera Brandão

 

envelhecimento-onde-esta-a-educacaoOs programas de Pós Graduação em Educação da Região Sudeste realizaram, no período de 12 a 15 de outubro, noCampus Dom Bosco da Universidade Federal de São João del-Rei (MG), o 11º encontro da ANPED Sudeste, intitulado “Culturas, Políticas e Práticas Educacionais e suas Relações com a Pesquisa”. O evento contou com mesas organizadas em torno de nove eixos temáticos, estimulando o debate entre importantes pesquisadores do Sudeste.

envelhecimento-onde-esta-a-educacaoDurante quatro dias, professores e alunos dos programas de Pós-Graduação em Educação de toda a região, que congrega o maior número no país (51 PPGEs ao todo), debateram temas centrais da área, como o financiamento e políticas públicas, movimentos sociais, diversidade, currículo nacional e pesquisa, dentre outros – além das apresentações individuais, pôsteres e atividades culturais.

Segundo os organizadores, o evento teve como objetivos incentivar a construção do conhecimento, favorecendo o debate e o enriquecimento político-institucional, em espaço de adensamento e socialização da produção acadêmica, e dar visibilidade a questões específicas da pesquisa na região.

O Profº Écio Antônio Portes – UFSJ, da área de Sociologia da Educação, um dos membros da comissão organizadora do evento, nos informou que foram realizadas cerca de 1800 inscrições, com apresentação de 690 comunicações e 580 pôsteres. Com uma equipe afinada na organização, que contou com destacada colaboração voluntária dos estudantes da Universidade, o balanço foi muito positivo, aspecto por nós observado como participante do encontro.

No evento apresentamos o trabalho Interdisciplinaridade na Gerontologia Social, em coautoria com a Profª Dra Beltrina Côrte do Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia e da Profª Dra Ivani Fazenda do PPG Educação Currículo, ambos da PUCSP.

Nele abordamos a construção de um saber interdisciplinar sobre o processo de envelhecimento, que busca ultrapassar o discurso geriátrico, ainda vigente, com foco nas doenças, fragilidades, perdas e morte, para compreendê-lo como processo dinâmico e multidimensional. Essa mudança de perspectiva, realidade em países desenvolvidos, no Brasil teve início só ao final da década de 1980 quando se abrem possibilidades para estudos focados no ser integral, com velhices plurais, panorama favorável à implantação dos cursos de Gerontologia Social.

O Programa de Estudos Pós Graduados em Gerontologia da PUCSP, iniciado em 1997, conseguiu, graças às parcerias e articulações entre profissionais de disciplinas específicas, a base para adoção da perspectiva interdisciplinar. Articular conhecimentos disciplinares variados em gerontologia requer postura diferenciada do pesquisador e docente, pois o ser que envelhece tem desejos e esperanças, fragilidades físicas e emocionais, não pode ser visto unilateralmente.

O objetivo da nossa Comunicação foi desvelar e fortalecer o conhecimento gerontológico social interdisciplinar, na construção da cultura da longevidade digna e solidária.

Envelhecimento: ausência no debate da Educação

Recebemos no momento do credenciamento uma “pequena” brochura (cerca de 130 páginas), que listava todas as comunicações e pôsteres a serem apresentados, nos respectivos eixos temáticos com seu título, autores e universidade de origem.

Imediatamente iniciamos a busca, entre tantos trabalhos, algum que inter-relacionasse os temas Educação e Envelhecimento, seja em UATIs na ação junto aos idosos, ou nas Universidades entre os inúmeros programas de Pós-Graduação, Graduação, Especialização ou Educação Continuada em Gerontologia, e nada encontramos.

Como represente do Programa senti-me solitária, sem interlocução… Em nossa apresentação houve espanto, mas interesse no tema, com momentos de troca ao final, naquele pequeno grupo.

Voltei com algumas dúvidas: o tema não foi abordado por algum acaso que impediu professores e pesquisadores de enviarem seus trabalhos? Existe, nos diferentes cursos da área gerontológica, estrutura pedagógica que articule as disciplinas oferecendo ao aluno uma preparação sólida e articulada? Ou será que se juntam professores de disciplinas variadas que abordam “seu” tema favorecendo um conhecimento restrito e sem projeto pedagógico?

A Pofª Dra Suzana Medeiros (2002, p. 121-124), fundadora do PEPG em Gerontologia, afirmava que: “A velhice é um tema complexo […] não é um evento que possa ser discutido por apenas uma disciplina. Exige diferentes olhares e, portanto, do ponto de vista metodológico, ele só pode ser trabalhado através da interdisciplinaridade [e que] a luta é transmitir conhecimento, sólida formação teórica e, por que não dizer sólida formação pessoal.”

O crescente número de idosos no grupo 60 a 75 anos, e a ampla faixa dos que vivem a longevidade avançada, de 80 e mais, é uma realidade que “preocupa” toda a sociedade. Fala-se em problemas de pagamento de benefícios, falta de estruturas institucionais, moradia, entre outros. Mas existe outra questão pouco abordada: a formação profissional na área específica. Será que os profissionais da área têm sido orientados na construção de “sólida formação teórica” e “sólida formação pessoal”?

Gostaria de ter discutido estas questões no tema da Educação em Gerontologia. Quem sabe em próximo evento…

Referência

MEDEIROS, S.A.R. Editorial da Revista Kairós – Gerontologia. São Paulo: Educ, 2003, v.6 (1)

Portal do Envelhecimento

Portal do Envelhecimento

Redação Portal do Envelhecimento

portal-do-envelhecimento escreveu 2332 postsVeja todos os posts de portal-do-envelhecimento