Envelhecimento Ativo na USP: inscrições abertas até 02 de fevereiro

O curso “Envelhecimento Ativo: o que é e como fazer para alcançá-lo”, é completo. Cada aula é dada por um especialista, profissional do Hospital Universitário (HU) e mestre ou doutor na sua área de pesquisa.

Por Manuel de Barro

 

Inscrição – parte 7

O grupo de trabalho dedicado ao envelhecimento ativo oferece outros cursos no HU: Idosos na Informática; Estimulação Cognitiva e Dança Sênior. Você pode se inscrever em todos, mas se quiser conhecer os fundamentos do Envelhecimento Ativo opte preferencialmente pelo primeiro: “Envelhecimento Ativo: o que é e como fazer para alcançá-lo”.

Fiz esse curso no semestre passado. Marcou minha vida. Mais adiante contarei os detalhes da minha batalha para conseguir uma vaga. Oriento que faça sua reserva de matrícula enviando um e-mail para usp3idad@usp.br com cópia para unati@hu.usp.br e ligando em seguida para ter certeza que receberam seu e-mail e se há necessidade de comparecer pessoalmente para confirmar a matrícula.

Os telefones divulgados pelo programa são os do curso (11) 3091-9183 e o da própria UnATI (11) 99289-0838. O endereço do HU é Av. Professor Lineu Prestes, 2565, Cidade Universitária. Se for de transporte público, tome o Circular 1 no Terminal Butantã e se oriente com o cobrador. Mas não aconselho ninguém a ir lá antes de enviar um e-mail e telefonar para se informar sobre quem deve procurar e a qual setor do hospital deve se dirigir.

Este curso, em particular, não será mais dado nas dependências do hospital. Esse foi o compromisso assumido pelo Dr. Egídio L. Dórea, responsável pelo curso e coordenador da UnATI. Em uma reunião no semestre passado ele concluiu que o local – o hospital – não era adequado e resolveu mudar o curso para a sede da UnATI, na Colmeia, Favo 3, Circular 1, segundo ponto, CRUSP.

O curso oferece 20 vagas, mas devido a mudança é provável que este número seja revisto e até dobre. Mas não conte com isso, matricule-se já. Não perca a oportunidade de fazer gratuitamente um curso valioso. As aulas são semanais, às quartas-feiras, das 10 às 11 horas. Na prática, nunca termina às 11 horas, pois os palestrantes levam muito conteúdo para a sala de aula e os alunos acabam interagindo e a aula se estende por mais meia ou até uma hora. Todos os temas são fascinantes. É impossível assistir passivamente aulas tão ricas e bem elaboradas.

O período do curso vai de 01/03 à 14/06 e está dividido em três módulos: Disseminação do conceito de envelhecimento ativo para a pessoa idosa; Orientar quanto ao papel ativo do indivíduo no envelhecimento ativo e Capacitar o indivíduo para a adoção de estilo de vida favoráveis ao envelhecimento ativo.

Como temos divulgado aqui, a USP oferece dezenas de cursos em todas as áreas do saber. Cursos voltados exclusivamente para a terceira idade e matérias pinçadas de cursos de graduação de todas as faculdades.

Se você tem 60 anos ou mais, consulte o site e não perca a chance. Todos os campus da USP (Bauru, Lorena, Piracicaba, Pirassununga, Ribeirão Preto e São Carlos) oferecem cursos grátis e as universidades estaduais e federais, de uma maneira geral, também têm cursos gratuitos voltados para a terceira idade. As particulares costumam cobrar uma taxa mínima, mas todas têm alguma coisa a oferecer. Informe-se na sua cidade, no seu Estado, pois a aprendizagem ao longo da vida é fundamental para mantermos nossas mentes saudáveis.

Continuando…

Envelhecimento Ativo foi o curso que mais tirei proveito, que mais me deu prazer. Mas como eu estava contando, primeiro me matriculei nos cursos da EACH, a USP-Leste, para fazer Turismo Social e Recordando os Anos 70. Dois cursos que trabalham a memória. O simples fato de me matricular na USP mexeu até no meu metabolismo. Comecei a tomar nota de tudo, a escrever na minha caderneta o que via pelas ruas e tudo o que vinha a minha cabeça. Depois, quando chegava em casa, passava tudo para o computador. Com isso, os cochilos, que eram constantes, tornaram-se cada vez mais raros.

Dizem que velho dorme pouco, mas é o contrário. Meu filho, Maurício, praticamente não dorme. Vou deitar e ele fica no computador. E aproveita quando deixo a sala para se apoderar do meu.

– Pai, não desliga, preciso ver uma coisa.

– Quando esse computador vai ser realmente meu?

– Quando eu fizer o backup de tudo…

Mentira. Usa o meu enquanto baixa coisas no dele. Para acabar com sua mania, passei a esconder o fio. Cedo encontrei o computador sobre a mesa com a bateria descarregada. Fui ao meu esconderijo pegar o fio. Retirei cuidadosamente um dos filtros da coifa e enfiei a mão no vazio. Tateei em busca do fio e o segundo filtro desabou sobre o fogão. Fez um barulho tremendo.

– Pai, o que houve? O senhor caiu?

– Vira essa boca pra lá! Só fala em queda, queda, queda… só estou tirando os filtros da coifa para limpar…

– Milagre. Nunca vi o senhor limpar esses filtros.

Maurício sentou para tomar café. Coloquei os filtros na pia e olhei para o oco escuro e vazio.

– Viu o fio do computador? – perguntei, finalmente.

– O senhor não sabe onde o enfiou?

– Estava junto com o computador.

– Pai, não esquenta, quando o senhor menos esperar ele aparece. Por acaso o senhor estava procurando por ele dentro da coifa?

– Não fala bobagem, Maurício…

– Bobagem, é? O senhor não guarda as coisas, esconde. Depois não acha porque na sua idade…

– Isso é idadismo, sabia?

– Idadismo?

– Idadismo, ageísmo, preconceito contra o idoso. Você está me acusando de ter enfiado o fio em algum lugar e esquecido porque sou velho. Só se enfiei no seu…

– O que sei é que o senhor vive perdendo as coisas.

Maurício saiu para trabalhar. Fechei a casa e saí para caminhar. Esqueci de levar o celular. Ele pega no meu pé por causa disso.

– Pai, andar com o celular é uma questão de segurança – vive repetindo.

Só existe um nome na minha agenda de contato, é o dele, escrita em letras grandes: FILHO. Imagina que se eu cair na rua e passar mal, uma boa alma vai pegar o celular do meu bolso e ligar para ele.

– Maurício, vão ligar 192, SAMU, cai na real.

– O senhor brinca, mas o maior problema do idoso são as quedas. Precisa ficar atento por onde anda. O perigo das ruas não são os bandidos, são os buracos.

– É mais fácil você cair do que eu. E esquece essa bobagem de celular, pois ando com uma xerox do RG e atrás tem nosso endereço e o número dos telefones seu e do seu irmão. É mais que suficiente.

Quando voltei da caminhada vi o computador desmaiado sobre a mesa. Voltei a procurar o fio. Pensei nos lugares mais inusitados. Dento da máquina de fazer pão. Tinha teia de aranha. Na fritadeira sem óleo encontrei um bilhete de loteria. Fui conferir. Aproveitei para fazer um jogo. A casa lotérica é um ponto de encontro de idosos. Encontrei alguns conhecidos do clube.

– Sinto falto do bingo – disse um colega. – Será que não volta mais?

– Uma hora volta. Tem 15 anos que fecharam, mas a maioria mantém o ponto porque sabe que vai voltar.

– Por falar em bingo, lembram do Feitosa? Descobriu um bingo clandestino na Parada Inglesa e voltou a jogar. Se enfiou em dívidas e teve que vender o carro. Com vergonha de assumir a besteira, contou para a família que o carro estava na oficina. Quando viu que não havia mais saída, estourou os miolos.

– Sério?

– Você não sabia, portuga? O Feitosa deu um tiro na cabeça.

Precisei sentar para respirar. Aquilo embrulhou meu estômago. Fui eu que levei o Feitosa para o bingo. Era o ponto de encontro dos aposentados. Uma festa.

– O que houve, Manuel, tudo bem?

– Podia ser qualquer um de nós – disse. – Estávamos todos viciados.

– Só vicia quem tem a cabeça fraca.

– Não é bem assim. O jogo é pior que o álcool ou a maconha. Está mais para cocaína ou crack. É um vício desgraçado. Deviam acabar com todo tipo de jogatina.

Quase me apedrejaram. Chamaram-me de hipócrita.

– Se você é contra o jogo, por que joga?

– Porque sou viciado como vocês.

– Então você quer que os bingos voltem?

– Claro que não.

– Qual a diferença de uma casa lotérica para um bingo?

– A casa lotérica é a manutenção do vício, o bingo é a overdose.

Interrompemos a conversa porque a irmã Selma da paróquia Santa Rosa de Lima nos avistou e se aproximou com seu sorriso angelical. Trazia nas mãos um bloco de cartelas de bingo.

– Dia 23 de agosto quero todos vocês lá. Quantas cartelas, seu Manuel? Não precisa pagar agora.

– 20. Vou repassar metade para o Saboia. Qual é a prenda principal?

– Uma TV 4K de 60 polegadas.

– Se eu ganhar doarei para a igreja fazer uma rodada extra.

– Deus seja louvado – disse a irmã. – Ah, a missa de sétimo dia do Feitosa é amanhã.

– Fiquei sabendo agora… bingo…

– Mas é outro tipo de bingo, não confunda, seu Manuel.

– Bingo do demônio – murmurei e guardei no bolso as cartelas do bingo sagrado.

Ao retornar para casa, voltei a me empenhar na busca do fio do computador.

– Só pode estar embaixo da pia, dentro de uma panela – disse em voz alta.

Minha mãe fazia isso e meu pai dizia que ela falava com as paredes. Falo com panelas, geladeira, fogão e principalmente com a televisão. Atualmente converso mais com o computador. De todos os meus interlocutores domésticos, de longe é o mais inteligente.

Destampei algumas panelas e encontrei o que menos esperava, um relógio que ganhei no bingo da casa espírita Simão Pedro. Animei-me com o achado e fui direto na batedeira. Encontrei uma barata morta.

Sempre que invento de guardar uma coisa bem guardada ela desaparece. Meu passaporte, por exemplo, quase perdi a viagem para Portugal porque sumiu. Apareceu na hora de fazer as malas. Estava no bolso de um velho blazer embolorado, desses que só lembramos dele quando vamos viajar para o frio.

Por falar em viagem, os euros que sobraram da viagem que fiz a Portugal sumiram. Foi uma confusão. Por meses acusei Dolores, a senhora que limpa nossa casa uma vez por semana.

– Pai, não foi a Dolores. Um dia esse dinheiro vai aparecer e o senhor vai queimar a língua.

– Aqui não está com certeza.

Toda vez que afirmo ter certeza de alguma coisa a possibilidade de estar equivocado beira a 100%, mas continuo cheio de certezas.

Em um dia frio e chuvoso, resolvi usar uma velha galocha. Foi como desenterrar uma botija. Virei-a de ponta-cabeça por força do hábito e quando sacudi choveu dinheiro. Havia até escudos que já não valem nada.

Maurício me convenceu a criar estratégias para auxiliar a memória. Cansei de botar água para ferver e ela desaparecer como mágica.

– Pai, o senhor vai acabar botando fogo na casa!

Maurício me deu uma chaleira ótima para a memória. Ela apita. Tenho que correr para desligar o fogo porque o barulho é infernal.

Convencido que minha memória está falha, agora só vou ao supermercado com uma listinha de compras. O problema é que muitas vezes esqueço a lista e aí compro um bocado de coisas, menos o que estava na lista.

Maurício me ensinou a usar o bloco de notas do celular. Mas esquecer o celular é mais fácil do que esquecer a lista. Ele fala, critica, mas é igual. Outro dia pedi para ele comprar uma pomada para assadura.

– Voltou a ser bebê, é? – tirou sarro.

– Bebê é o cacete…

– Pai, o senhor precisa rever essa linguagem.

– Mas é verdade, a pomada é para passar na glande para prevenir assaduras.

– Não vou comprar pomada para o senhor se masturbar.

– Ficou louco? O xixi deixa meu bilau assado. Foi o geriatra que mandou usar a pomada.

– É só o senhor secar direito.

– Em casa, tudo bem. Mas na rua, não dá.

– Não entendo qual é a diferença.

– No dia da matrícula na EACH fui ao banheiro duas vezes. Sequei o máximo, mas mesmo assim vazou. Sempre vaza. E basta uma gota de xixi em contato com a pele do crepúsculo para assar tudo.

– Prepúcio, pai. Se o senhor sabe disso, por que não seca direito?

– Falei crepúsculo para ver se você estava prestando atenção. Maurício, só compra a porra da pomada e para de me encher o saco.

– Pai, é só o senhor andar com lenço de papel no bolso…

– Você acha que eu ainda chacoalho o meu bilau? Chacoalhar não resolve faz tempo. Seco com papel. Seco, seco, seco, mas ainda assim vaza. Só compra a pomada.

– O senhor não seca direito – disse Maurício para me irritar.

– Vou explicar de uma vez por todas. Por mais que um velho aperte o cu para forçar a saída do xixi, não adianta, sempre restará uma gota. E basta uma gotinha para fazer um baita estrago. Quer ver como está a cabeça do meu pau?

– O senhor precisa falar isso para o geriatra. Mas não vá falar que aperta o cu, aperta os esfíncteres para esvaziar a uretra. Possivelmente vai precisar usar fraldas.

– Porra, Maurício, você não entende pica nenhuma de velho. Falo de uma gota e você já quer condenar o encanamento todo. Traz a merda da pomada. Vou anotar para você não esquecer.

– Pensa que sou igual ao senhor?

No final do dia, perguntei pela pomada.

– Que pomada, pai?

Por isso não entro em pânico quando esqueço algo. Não é questão de idade. Só temos que criar estratégias, porque esquecer todo mundo esquece.

Uma hora o fio do computador ia aparecer, mas minha cabeça fervia conforme o tempo passava. Para relaxar, resolvi ir ao supermercado.

Velhos adoram supermercado. É outro ponto de encontro. Compramos o mínimo possível. Não tem a ver com preço ou peso, é uma estratégia, pois assim temos o que comprar todo dia.

Uma boa lista deve ter no máximo três itens. Precisamos deixar espaço na sacola para as ofertas. Todo idoso tem seu produto favorito. O meu é água de coco. Faz funcionar meu intestino que é uma beleza. Um copo por dia garante uma visita demorada ao banheiro. E o meu banheiro é dos mais agradáveis. Amplo, arejado, bem iluminado, um lugar de paz que de vez em quando se transforma em campo de guerra: pum, pum, pum!

Depois que minha mulher faleceu, reformamos a casa. Iniciativa do Maurício. Adorei como ficou o banheiro. A casa toda ficou melhor. A arquiteta mandou quebrar todos os batentes para ampliar as portas.

– Pai, é para poder passar uma cadeira de rodas.

– Isso é mau agouro. E para quê essas barras de ferro?

– São barras de apoio. É bom começar a usá-las. Uma queda na sua idade…

– Filho, tenho boa mobilidade e ótimos reflexos. Ainda vou completar 60 anos.

Lá se foram dez anos. Estou para completar 70. A reforma tinha outro propósito.

– Pai, estava pensando, o quarto da frente pega o sol da manhã e a cama também é grande, o senhor não prefere…

– Não, filho, agradeço sua preocupação, mas não…

Realmente o quarto da frente é melhor, mas não é uma suíte e o banheiro do corredor é bem apertado. O meu é espaçoso. A arquiteta queria tirar a banheira. Protestei. Ela mandou colocar as barras de apoio e ficou excelente. Tenho uma ligação sentimental com minha banheira por conta dos banhos de acento quando operei as hemorróidas.

Muitos idosos são tão apegados aos seus banheiros que têm dificuldade de sair de casa. Compreendo, pois se eu pudesse carregava o meu nas costas.

Dei uma passadinha rápida pelo clube, cumprimentei os amigos e falei sobre os cursos pela milésima vez. A ideia de todos é que a EACH, a USP-Leste, é no fim do mundo. Quando conto sobre o trem moderno e confortável que sai do Brás e nos deixa na porta, todos mudam de ideia.

Segui para o supermercado, fiz as compras e, na hora de passar no caixa, descobri que estava sem a carteira. Desculpei-me com o caixa que se mostrou compreensivo.

– Acontece. O senhor quer que guarde as compras enquanto vai pegar a carteira?

– Por gentileza.

Voltei correndo para casa. Maurício havia chegado, mas estava no banho. Aproveitei para esvaziar sua mochila, pois havia comprado coisas demais para trazer em sacolas de mão.

– Filho da puta!

Havia um monte de fios em um compartimento. Um deles, reconheci, era o carregador do meu computador. Botei a mochila nas costas e voltei para o mercado. Na metade do caminho, lembrei o que fui fazer em casa. Com o rabo entre as pernas, voltei para pegar a carteira.

– Minhas compras? – perguntei com um sorriso amarelo nos lábios.

– Estão com aquela mocinha…

De longe avistei as três sacolas. A mocinha me atendeu com a maior naturalidade. Convenci-me que esquecer a carteira era comum entre idosos. Paguei, peguei as sacolas e fui até um balcão vazio passar as compras mais pesadas para a mochila. Havia um livro no fundo. Grande, grosso e quadrado. O Círculo. Tirei para não sujar.

– Tudo bem, senhor, precisa de ajuda? – perguntou um segurança.

– Não, obrigado.

Arrumei tudo direitinho e voltei para casa com a mochila nas costas. Encontrei Maurício na cozinha, preparando um suco verde.

– Peguei sua mochila emprestada…

– Eu vi. O senhor não devia carregar tanto peso. E a sua?

– Soltou a alça. Você disse que ia comprar uma nova e me dar esta aqui, lembra?

– Esqueci…

– Outra coisa, havia um bocado de fios na mochila, estão sobre o sofá, por acaso um deles é o carregador do meu computador?

Maurício correu para ver os fios e retornou com o carregador.

– Pai, este é o fio do seu computador, onde estava?

– Na sua mochila!

Meu filho nunca assume suas merdas.

– Pai, sério, onde estava?

– Vá se ferrar…

Larguei-o falando sozinho, terminei de guardar as coisas e fui preparar meu jantar.

– Pai, e o livro que estava na mochila?

– Livro?

– Um livro grande…

– Se estivesse na mochila eu teria visto. É importante?

– É da Márcia. Peguei emprestado. Comecei a ler hoje.

– Se perdeu, é um bom sinal.

– Bom sinal por quê?

– Sinal que não era para ler. Quando essas coisas acontecem, pode ter certeza, tem um anjo agindo por trás, um espírito, nunca é coincidência. Não é o que diz seu sogro? Vai ver esqueceu na academia. Como chama o livro?

– O Círculo…

– É redondo?

– Porra, pai, todo livro é um retângulo.

– Um livro com esse título deveria ser redondo, não acha?

– Esquece. Devo ter esquecido na academia.

Meu filho costuma ler enquanto caminha na esteira ou pedala. Um belo hábito. Tentei fazer igual, mas minha vista é curta. Uso lentes compensatórias, uma para longe e outra para perto. Nenhuma funciona direito, mas acostumei com elas.

– A Márcia já leu?

– Claro.

– Então relaxa.

– O senhor parece que não sabe como são as mulheres…
– Não seja machista. Seu sogro ouviu um monte de uma colega na EACH por usar uma frase semelhante a esta.

– Quem diria. Mal fez a matrícula e já mudou o comportamento.

– Agora tenho que ficar atento, pois só tem mulher naquela joça.

Na EACH, para cada dez alunos que realizaram matrícula, oito eram mulheres. Dois viúvos, como eu e o Saboia, com as capacidades de andar, comer e falar preservadas, teremos que fazer um esforço danado para não cair em tentação.

– Pai, o senhor fez amizade com alguma mulher na EACH?

– Conhecemos duas mulheres bem interessantes. Graças a uma delas, uma ex-chacrete, foi que realizamos nossas matrículas. Se tudo der certo, até o final do ano seu sogro realizará um ménage com ela.

– Pai, falei sério!

– Mas é sério. Saboia se encantou com ela. Ele e a torcida sênior do Corinthians.

– Se o senhor não quer falar, tudo bem…

– Bom, já que o assunto são as mulheres, fale de sua relação com a Márcia. É um casamento real ou é uma farsa. Esse negócio de casar e morar separado não me convence. Vocês fazem sexo?

Maurício me deu as costas e saiu para a casa da mulher deixando o portão da garagem escancarado. Fui fechar o portão e na volta, em vez de ligar a TV, liguei o computador para atualizar meu diário. Nele, posso falar sobre coisas que nunca falei na vida, nem mesmo com a psicóloga. Por muito tempo desconfiei que Maurício fosse gay. No clube, os colegas pegavam no meu pé:

– Abre o olho, Manuel.

Quando Maurício casou, atualizaram a frase:

– Desse mato não sai coelho.

Essa história do casamento até hoje me intriga.

– Papai, vou casar.

– Como? Você nem namora?

– Sempre namorei. Desde os doze anos. E sempre com a mesma pessoa.

– A Marcinha? – pensei nos dois dançando quadrilha.

– A filha do Saboia, seu melhor amigo.

– Achei que fossem só amigos. Ela está grávida?

– Pai, sem especulação. Vamos casar só no cartório, mas tudo continuará igual.

– Não se iluda. Um casamento muda tudo.

No cartório, só eu, Saboia, os noivos e um casal amigo. Depois fomos a uma churrascaria. Comemoramos comendo um rodízio de carne dura e salgada. Nunca vi um casamento tão sem graça. E quer saber o que mudou? Nada! Continuo com a mesma desconfiança de antes.

– Quer saber, Saboia, assim é melhor, pelo menos nossos filhos nunca vão se separar.

– Não entendi. Eles casaram de verdade. Você estava comigo no cartório.

– E eu é que sou o português.

Depois continuo.

Leia as partes 1, 2, 3, 4, 5 e 6 desta história

Parte I: Atividade intelectual previne Alzheimer

Parte II: USP: vagas abertas à terceira idade

Parte III: USP: cursos gratuitos para idosos

Parte IV: USP convoca idosos para cursos gratuitos

Parte V: USP oferece cursos gratuitos para idosos

Parte VI: Cursos grátis para Idosos na USP: matrículas abertas

Serviço: Confira os cursos oferecidos pela Universidade Aberta à Terceira Idade (UnATI- USP) para o primeiro semestre de 2018 no link: https://prceu.usp.br/3idade/sao-paulo/


Mário Lucena

Mário Lucena

Jornalista, bacharel em Psicologia e editor da Portal Edições, editora do Portal do Envelhecimento. Conheça os livros editados por Mário Lucena.

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