Envelhecer na contemporaneidade

Nos tornamos seres humanos porque somos socializados em uma determinada cultura, criamos cultura por meio de vínculos comunicacionais, a sociedade no processo comunicacional e cultural, cria laços em que o material e o simbólico estão presentes na contemporaneidade, logo a cultura é um espaço de completa ligação entre o corpo e o imaginário. Nossa estrutura cultural é permeada por pertencimentos.

Juliana Rosário dos Santos (*)

 

Este século ficará definitivamente marcado pelas enormes alterações ocorridas na composição etária da população, pois o envelhecimento é um fenômeno mundial. No Brasil acarreta implicações nas políticas sociais, tornando-se um grande desafio na saúde. Envelhecer tem uma série de consequências e implicações para o idoso e sua família; idosos em situação de vulnerabilidade social a questão é mais complexa.

Ao passo que a humanidade se desenvolve científica e tecnologicamente – e, os meios de transporte e comunicação possibilitaram o encurtamento das distâncias e otimização do tempo – paralelamente, observa-se que ocorre um o fenômeno inverso nas relações humanas, provocado, principalmente, pelo distanciamento do contato pessoal, direto e físico entre as pessoas – causando um empobrecimento das relações humanas.

Um dos malefícios de se pensar o mundo pela ótica industrial fez com que passássemos a viver no mundo do descartável, onde tudo e todos são passíveis de substituição, e neste aspecto as relações humanas se desagregam, porque o indivíduo deixa de ser visto como humano que biologicamente está em processo de envelhecimento e que precisa de cuidados especiais e atenção. O desenvolvimento da ciência e tecnologia proporcionou, de fato, vida mais longa aos seres humanos e, por conseguinte, gerou um fenômeno: aumento significativo na expectativa de vida. A longevidade não aumentou, temos pessoas mais longevas, o que aumentou foi a expectativa de vida, mas não sua qualidade.

O ser humano está suspenso em uma teia de signos, significados que ele mesmo construiu ou que construíram para ele, ou que construíram dentro dele. Comunicação é circulação simbólica, toda comunicação e toda cultura é sempre espaço de circulação simbólica, é o processo de aprendizagem que determina o seu comportamento, através da comunicação constrói relações e vínculos com outras pessoas e com a sociedade ao longo do tempo, interage com o ambiente em que está inserido, interage com a natureza. A comunicação é um processo cultural, a linguagem humana é um produto da cultura. A comunicação pode ser estabelecida para o bem e para o mal, e, por meio dos vínculos comunicacionais podemos atar a cultura a determinadas formas de vida.

Cultura e mercado

Nos tornamos seres humanos porque somos socializados em uma determinada cultura, criamos cultura por meio de vínculos comunicacionais, a sociedade no processo comunicacional e cultural, cria laços culturais em que o material e o simbólico estão presentes, logo a cultura é um espaço de completa ligação entre o corpo e o imaginário. Nossa estrutura cultural é permeada por pertencimentos.

A arte como expressão cultural alcança seu objetivo social de comunicação, o homem é fruto da sua cultura, a arte é expressão cultural, toda expressão cultural é carregada de subjetividade, a expressão cultural é o volume de conjunto de uma série de subjetividades unidas, no marco de subjetividade de cada uma das situações que perpassam as nossas existências.

Por isso, ao se propor uma atividade para o idoso deve-se observar, analisar e proporcionar um estímulo interessante, com uma gama de possibilidades, que tipo de olhar cultural estou trazendo, pois lidamos com processos cognitivos de ampliação do saber, ampliação de possibilidade, de olhares, recomeço, experiências, importante respeitar o desejo/vontade do velho, em relação ao que ele quer fazer.

As atividades têm que ter qualidade artística, sentido, reconhecimento, conteúdo, cultura, história, começo, meio e fim. Qualquer ação artística é importante, seja na dança, pintura, teatro, música. Positivação extremada na velhice não é benéfica, ser reconhecido como velho jovem para ter valor e se sentir útil, como é ser velho para cada um, e o acesso à cultura e consumo?

Importante pensar no idoso como um sujeito consumidor que tem um poder de compra que interessa ao mercado, a indústria, vivemos uma sociedade de consumo, massificada, num sistema capitalista em que o Estado está cada vez mais subjugado a questões privadas. Neste sistema o idoso se transformou descartável, mas também num grande mercado, mas onde entra a responsabilidade social?

Corpo finito

O corpo é um lugar que nós habitamos e implica uma visão de mundo em relação a esse corpo. Visão de mundo é um contexto de tempo e espaço, condições sociais, econômicas e culturais tem grande influência no decorrer da vida, as funcionalidades cognitivas, físicas e os instrumentos de avaliação são muito importantes para avaliar a capacidade funcional e cognitiva dos idosos, se o idoso tiver nível de consciência alterado, comprometimento na fala, linguagem, ele vai ter dificuldades para se comunicar. A senescência é o envelhecimento fisiológico e a senilidade é o envelhecimento patológico e em ambos têm perdas, uma queda funcional do organismo.

O histórico de vida e a genética do indivíduo podem interferir no estado de saúde real, no complexo de doenças e como consequências acabam interferindo na qualidade de vida, saúde física, mental e emocional do idoso afetando diretamente sua capacidade de gerir sua vida com autonomia e independência para a realização das Atividades de Vida Diária, Atividades de Vida Instrumental e Atividades Avançadas de Vida Diária Social. A independência é a possibilidade de fazer e a autonomia é a possibilidade de escolher, para ter autonomia de decisão é importante que se considere a cognição e o humor. A dependência é uma condição humana e está presente no ciclo de vida, no curso de vida, na trajetória de vida, no processo de envelhecimento e na velhice, assim como a dependência, a finitude acompanha nossa trajetória de vida.

O envelhecimento, embora inerente à natureza do ser vivo é um fenômeno rechaçado principalmente entre os seres humanos – viventes pensantes. No envelhecimento o adoecer do idoso tem uma relação muito íntima com a questão da finitude, e a questão da finitude da vida não é abordada e discutida entre os familiares, sociedade e Estado. Quem vive a realidade e conhece a situação em que está, é o próprio idoso, o envelhecimento não está só na área da saúde, está presente na vida social, econômica e política. O viver em sociedade implica em relacionamentos pautados por interesses.

O envelhecer na contemporaneidade só vê o velho inserido no negativo, ninguém quer ser inserido, fixado, categorizado, classificado em uma categoria que só tem predicados negativos, deve-se ter atenção e cuidado para não tratar tudo com eufemismo. Neste aspecto, as questões de ordem estética e econômica assumem papeis preponderantes – o poder, o novo e o belo são presenças marcantes. Na velhice as famílias têm dificuldade para lidar com a situação do idoso, principalmente, porque o envelhecimento biológico traz consigo uma série de consequências que vão além das questões simplesmente sociais e econômicas, a fragilidade está relacionada com a funcionalidade, quando a fragilidade se instala ela permanece e tende a agravar o estado real de saúde. A fragilidade biológica está inserida na vulnerabilidade social, o cuidar emocional, social e corporal são muito importantes, doenças transmissíveis e não transmissíveis são epifenômenos. O fenômeno é a realidade e nas Grandes Síndromes Geriátricas encontramos a Insuficiência Cognitiva, a Incontinência Esfincteriana, Instabilidade Postural, Síndrome do Imobilismo, Insuficiência Familiar (isolamento social) que produz sinais e sintomas.

Rede de proteção

No Brasil foi construída uma rede nacional de proteção e defesa da pessoa idosa. É notável a participação dos idosos na agenda política brasileira, Constituição Federal – 1988, Loas – 1992, Política Nacional do Idoso (PNI) – 1994, Lei 10.741/03 de 1 de outubro de 2003 refere-se ao Estatuto do Idoso que surge para punir e cobrar do Estado, sociedade e família assistência, proteção e garantia dos direitos do idoso.

Os idosos têm participação política na sociedade através de fóruns de debate, movimentos sociais e conselhos, fóruns são espaços sócios políticos onde os idosos representantes das entidades e grupos têm direito a voz e voto. O movimento social do idoso realiza fóruns, conselhos que priorizam a participação do idoso, luta pela cidadania, velhice com dignidade, dever de atenção para todos os grupos etários.

Na prática clínica, tenho observado que não apenas as famílias, mas a sociedade como um todo não está devidamente preparada para lidar com a nova condição social que se apresenta em nossos dias – o envelhecimento humano. As questões que envolvem a saúde física, o estado emocional, e as condições psicológicas dos idosos devem ser observadas, contemplando algo maior, ou seja, contextualizadas, considerando-se não apenas o momento presente “aqui e agora”, mas o histórico biopsicosociólogico do indivíduo.

Por isso, vislumbra-se que para prestar um serviço de qualidade, todos os profissionais que lidam com idosos devem estar integrados, capacitados para realizar o atendimento, sendo importante que o profissional detenha conhecimento teórico e prático da profissão. O princípio da intersetorialidade e interdisciplinaridade exige conhecimento para atuar na questão do envelhecimento, não tem como trabalhar mudança de paradigma, educação permanente, promoção da saúde, sem trabalhar a relação de ajuda que envolve a intersetorialidade, além é claro da dedicação e amor pela profissão e olhar humano para o idoso que se apresenta perante nós como alguém que precisa de um direcionamento para dar sentido à vida.

Escuta

A escuta para o envelhecer tem que ser muito apurada. Ela é muito necessária para o trabalho na área da saúde, pois além de ouvir aquilo que está sendo dito, temos que ouvir qual é o significado que está por trás daquilo que nos é dito, não dá para trabalhar com envelhecimento se não estiver com o pensamento multidisciplinar, trabalhamos em equipe para atender a demanda. A prática da Terapia Ocupacional não se limita a intervenção de forma isolada, nos campos da área física, cognitiva ou social, mas na sobreposição de todas essas esferas.

O mundo contemporâneo favorece o isolamento, é importante propiciar ambiente favorável que ofereça atenção, acolhimento e segurança para o idoso, ao isolar o idoso anula-se as possibilidades que ele tem de manifestação de si mesmo, de potencialidades e de crescer mesmo dentro das limitações que possa ter, mesmo nos adoecimentos, na perda de relação. As pessoas idosas devem ser desafiadas, não devem ser protegidas o tempo inteiro pois muita proteção não possibilita a expansão, a proteção só restringe, ela não dá possibilidade de desafio de si mesmo e nem de uso do meio que está a sua volta para que ele possa se projetar para além daquilo que é agora. Toda mudança e transformação é uma apropriação. O que temos de compreensão e características da modernidade não atende muito ao quesito de ser acolhedor para que o idoso possa se expressar como ele mesmo.

Processo de humanização

Somos produto de um processo de humanização dos sentidos, ao longo da história o homem foi trazendo elementos para os dias atuais. O século XIX trouxe maior humanização, dos sentidos. Enfim, tudo o que é vivo se adapta às novas exigências e condições dos ambientes, evoluímos e o conhecimento vem sendo substituído. A substituição das novas formas de conhecimento contribui para o aprendizado, experiência, aprimoramento, formação. O conhecimento não nasceu do nada, ele vem se gestando, se desenvolvendo, estamos em processo de transformação, sempre!

(*) Juliana Rosário dos Santos – Terapeuta Ocupacional, graduada pelo Centro Universitário São Camilo em 2008, pós-graduada Lato Sensu (Especialização) em Arteterapia e Terapias Expressivas no Instituto de Artes de São Paulo-UNESP (2016). Texto escrito para o curso Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social na PUC – SP, no segundo semestre de 2017. E-mail: jul_rosario@yahoo.com.br
 

 

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