Envelhecer é um processo heterogêneo

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O processo para compreensão do heterogêneo envelhecer pode ser longo e complexo, mas a fuga dele não resulta em soluções práticas e sociais.

Lorraine Bessa Honório Montanheri (*)


O crescimento da população idosa no Brasil e no mundo é indiscutível, mas nossa cultura que visualiza o processo de envelhecer com negatividade e homogeneidade está enraizada e distorcida. Entender o velho como um fardo e não uma evolução, é uma das sobrecargas que lançamos na sociedade jovem, adulta e velha de que esse processo não é bom e muito menos natural. Esse tipo de cultura nos adoece, nos transforma em seres que buscam a perfeição industrializada e vendida por um mundo irreal. O envelhecer se torna assim, um gasto para a família, o Estado e nossa sociedade, visto como algo improdutivo, com pouca geração de lucro financeiro e social, esquecido como o antecessor da construção de qualquer economia.

Esse processo estrutural na sociedade faz aparecer a verdade, de que temos mais jovens adultos falando pelos velhos do que os próprios donos da fala. Não se pergunta ao velho o que é envelhecer, pergunta-se a autores, conhecedores do sistema fisiológico e biológico, reduzimos todo o processo ao âmbito físico, do corpo que envelhece e adoece, tudo fomentado por estereótipos enrijecidos, delimitando o envelhecimento ao mundo cronológico. Por isso, nenhuma sociedade quer envelhecer, criar rugas, ter cabelos grisalhos e aceitar seu processo, porque estamos presos no envelhecer como doença.

Velhos, donos da fala?

O processo de envelhecimento, quando entendido como algo homogêneo cria um funil social, colocando todos os indivíduos que estão na fase anterior em um grande nicho de possibilidades e oportunidades, deixando os velhos em uma grande fila de mesmice e previsibilidade, como se a partir deste momento, nada mais fosse possível além do que já foi pré-determinado. Se perguntado a um grupo de velhos o que é esse processo teremos respostas completamente heterogêneas, com pontos positivos e negativos, alegrias, tristezas, ganhos, perdas, ou seja, tudo aquilo que a vida oferece desde o nascimento.

A intenção de entender o velho não é romantizar nenhuma das fases da vida, por vezes, independente da fase em que se encontram os indivíduos, as situações podem ser muito difíceis, precárias ou com escassez de recursos mínimos à qualidade de vida. A preocupação social que devemos ter é de buscar entender quem já está na fase da velhice, sem ideias preconcebidas. Procurar, inclusive, entender que o processo do envelhecimento se dá desde que chegamos ao mundo, a cada segundo estamos mais velhos. Tomando como base o envelhecer desde o nascer, criamos uma linha de acontecimentos, onde o envelhecimento de qualidade depende de tudo aquilo que formou o indivíduo, na infância, na adolescência e na vida adulta, e é isso que torna o envelhecer tão heterogêneo, nenhum ser é igual.

Buscar ao redor exemplos de diferentes amadurecimentos de vidas é fácil, nós temos os mais variados contextos sociais disponíveis para análise de disponibilidades de consumo e bens. As pessoas que envelhecem bem ou mal têm envolto à sua história, o contexto ao que estava inserido. É preciso entender também que mal ou bem é passível de pontos de vistas, acompanhar o envelhecer e compreendê-lo é um processo complexo e longo, mas é importante dar o ponta pé inicial.

No processo, as perdas

Há de se conhecer pessoas que passaram suas vidas com a presença de um único companheiro, que construíram juntos sua fortaleza, sendo ela pequena ou grande, tiveram seus filhos, seus netos e bisnetos e no meio de tanto nascer, também viu morrer. Eram os condutores de toda uma família, garantiam o sustento e o padrão de vida. No meio das perdas, a mais dolorida a acometeu, aquele único companheiro se foi, era ele quem dava sentido aos nasceres e talvez com ele se vai a alegria de ver qualquer outro novo florescer.

A partir deste ponto, de onde virá a força para quem ficou para reconstruir-se, ou ver sentido naquilo que lhe restou? Talvez não haja uma nova fonte de acolhimento e segurança, a partir daqui desenvolve-se um processo de solidão involuntário, onde nada preenche o vazio deixado, quanto mais acúmulo se traz para ocupar o espaço, mais vazio se fica. O avanço dos anos traz mais perdas do que ganhos, a percepção do mundo muda, a capacidade de execução de tarefas muda e aquele que devia ser o apoio já se foi há tempos. O papel na família mudou, o comando não é mais seu e ninguém mais consegue encaixar esse velho no novo contexto familiar. Afinal, qual passa a ser o papel desse indivíduo?

Entramos em um ciclo onde ninguém pergunta, só pressupõe desejos, declínios e necessidades, a família passa a fazer aquilo que pensa ser melhor, sem considerar o que o outro realmente quer. Trata o acúmulo como doença, mas não trazem a escuta que serviria tranquilamente como um bom remédio. Tratar sem escuta não é solução, é um erro. Agir sem questionar a necessidade de ser feito não traz alívio, acreditar na retirada de fardos é uma ilusão quando não há compreensão. A solidão aumenta, a infelicidade progride e nada mais parece ter emenda. Talvez essa seja a situação mais recorrente nos ambientes familiares pelo Brasil afora, a escuta incompleta deixa lacunas profundas no ser, não incorrigíveis, mas cada vez mais afastada dessa possibilidade. 

Também é fácil identificar idosos que ao longo da vida trouxeram consigo apenas a própria companhia, sempre viveu bem com isso e ainda vive, é ativo economicamente e socialmente, participativo e influente em seu meio social. Esse é um bom envelhecer? Ou esse diagnóstico depende mais da estrutura pessoal? Há também aquele que traz aspectos parecidos, mas na velhice não encontra amparo para viver o que ele entende como ideal, a falta de companhia lhe causa angústia e medo do que a vida tem reservado. Encontramos na vida o oposto desses, pessoas que nunca passaram pela falta de companhia e ainda são assim, estão inseridos de forma segura na velhice, aceitam o momento de sua vida com naturalidade, não são lucrativos economicamente para o Estado, nem para sua família, mas ainda garantem sua posição de desejo, como patriarca ou matriarca de sua família, são a verdadeira base daqueles que os sucedem, trazem em sua história aquilo que ajudará a formatar as próximas gerações.

Dependências

Verifica-se, do mesmo modo, diversos casos de dependências medicamentosas, intervenções externas e cirúrgicas para a manutenção da vida. Desde a mediação para melhora da visão com óculos, até procedimentos mais invasivos. Entender a necessidade do medicamento é importante e não é incorreta, desde que feita com necessidade e não por descaso na escuta. Medicar nem sempre será a solução para qualquer modo de envelhecer. Encontramos situações de pessoas hospitalizadas que tem suas vidas reduzidas a uma sentença, criada muitas vezes por uma má interpretação do mundo externo, principalmente devido a uma cultura hospitalocêntrica, onde frequentemente deviam prevalecer os cuidados paliativos.

A escuta não seria em diversos casos aqui citados, um remédio promissor de um envelhecer mais saudável? Colocados como os outros nessa história, aceitar a passagem da velhice não seria uma forma de acolher e aconchegar àquele que está em posição de ser ouvido? Deixar o que nos torna egoístas de lado, para que em ocasiões de decisões difíceis a escuta necessária seja feita, colocando em foco o verdadeiro protagonista, sem que o apego seja um peso para quem quer deixar seu corpo partir, não seria também um modo de aceitar a vida, sua passagem e o processo do envelhecimento em que todos estamos inseridos de formas diversas e em posições diferentes?

No tocante ao momento atual, temos vivenciado uma pandemia onde identificamos mais um estigma sobre o envelhecimento, a negligencia no direcionamento de tratamento intensivo, com priorização aos pacientes mais jovens, tendo como triagem corriqueira a idade dos pacientes, apoiados na errática suposição de que o idoso apresentará maiores dificuldades em recuperação posterior à doença em relação aos mais jovens. Esse aspecto demonstra uma desvalorização da vida da pessoa idosa. Por que isso ocorre? A visão de improdutividade e prejuízo social seria um ponto passado despercebido, mas medular na triagem hospitalar? A fixa interpretação de que envelhecer é adoecer tem influência nas decisões?

Envelhecer é chegar ao fim?

De todas as perguntas, apenas uma resposta tem a capacidade de atar todas essas indagações, somos construídos socialmente com a perspectiva de que envelhecer é chegar ao fim da vida, quando na verdade é a sequência de uma história. É preciso entender com apreço o envelhecer, para assim respeitar o próprio futuro.

No processo dessa pandemia novas preocupações surgem no cuidado da saúde psíquica, prioritariamente do idoso, que tem as maiores taxas de tentativas de suicídio bem-sucedidas, em relação às demais faixas etárias. No momento em que definimos o isolamento social como a melhor prevenção à uma doença desconhecida, impomos um novo estilo de vida, sem preocupações com a capacidade de independência de cada idoso e desconsiderando as necessidades sociais e afetivas que cada um pode ter. Não tínhamos e ainda não temos uma rede de apoio estruturada para atender com rigor a esse grupo. A tecnologia, que poderia ser um acesso ao meio social é complexa e confusa para quem teve ao longo da vida menos convivência com esse tipo de informação, não se pode aprender tudo repentinamente.

Em todos os casos nós temos o idoso, que é o sujeito propriamente dito do processo de envelhecimento, de maneira minimizada. Destacamos alguns modelos de envelhecimento, resumindo o significado de heterogeneidade de um grupo em ascensão mundial e que precisa de mais atenção, escuta e oportunidade de escolha. Em todos os momentos descritos conhecemos anseios e receios de um conteúdo de vida que todos os indivíduos têm, independente de seus momentos. É preciso separar o acometimento físico do psíquico, amarrando toda a escuta necessária para fornecer o atendimento e entendimento imprescindível.

30 anos de acréscimo de vida

Entender o envelhecimento se torna essencial em sociedades que estão cada vez mais velhas. Nos anos 50, nossa expectativa era em média de 48 anos. Em 1990 já estávamos com 66 anos, hoje chegamos a expectativa em média de até 77 anos. São 70 anos de evolução em saúde, educação, saneamento, acessos gerais e urbanização que nos garantiram, pelo menos, 30 anos de acréscimo de vida. Seremos nós capazes de vivermos mais, com mais aceitação, mais atenção e mais conhecimento sobre a nossa natureza?

A expectativa que nos foi dada gera uma ideia de que todos os idosos chegarão à essa idade e que todos eles terão acesso ao que tem sido ofertado no mundo, mas assim como temos indivíduos com socializações diferentes, também os temos economicamente. Separados em diversos grupos de ocupação, os destinos são esmiuçados, gerando consequências individuais ao histórico ocupacional. Criando um vão econômico entre os mais afortunados e os desprovidos de recursos. É igualmente fácil aceitar a vida e o envelhecimento entre esses grupos, ou é preciso ter uma base de equidade para lidar com a variabilidade da vida?

Ofertar o que falta a um indivíduo e garantir seu acesso a uma vida com dignidade, é papel do Estado, com estrutura para o atendimento físico, psicológico, social e econômico. Faz parte dos deveres, atender a saúde dessa população de forma específica e individual. Atuar na organização econômica e assegurar seu acesso ao consumo de itens essenciais.

O processo para compreensão do envelhecimento pode ser longo e complexo, mas a fuga dele não resulta em soluções práticas e sociais, a garantia da qualidade de vida, do acesso e da participação ativa de quaisquer indivíduos é vital para a manutenção de uma sociedade que tem cada vez mais diversidade, e assim necessidades emergentes.

O caminho está traçado, basta percorrê-lo.


(*) Lorraine Bessa Honório MontanheriLicenciatura e Bacharelado em Educação Física na UNAERP (Universidade de Ribeirão Preto). Pós-graduanda em fisiologia do exercício pelo Centro de Estudos de Fisiologia do Exercício e Treinamento (CEFIT). Trabalho escrito no curso de extensãoem Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) no primeiro semestre de 2020. E-mail: logbessa@gmail.com

Foto destaque de Kevin Bidwell de Pexels


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