Envelhecer e envelhecendo

A minha indagação é o que leva a uma velhice bem e tranquila, e o que faz de uma velhice triste, solitária e sem vontade de viver. Envelhecer é complexo. Pode-se dizer que são os problemas acumulados durante uma vida mas muitos desses idosos que têm sede de vida também tiveram grandes problemas, preocupações, e até doenças..

Por Francimeire Tomaz Lacerda (*)

 

Envelhecer e envelhecendo, palavras parecidas mas com significados um pouco diferente. Envelhecer é um processo natural da vida, fase que pela natureza todos iremos passar. Dizem que os Países Asiáticos são lugares onde mais se respeitam os velhos, onde se vive mais e com qualidade de vida. Confesso que nunca dei muita atenção para esse assunto pois pouco me interessava, mas hoje trabalhando, estudando e pesquisando sobre o envelhecimento compreendo que envelhecer aqui no Brasil não é uma tarefa fácil.

Não fomos educados culturalmente para respeitar os velhos, talvez porque eles sempre foram vistos como peso, chateação, gastos e doença. Percebo que essa nova geração não tem vista para os velhos, são como os moradores em situação de rua, olhamos para eles, sabemos que estão ali, que precisam de algo mas não paramos para ouvi-los, para saber das sua necessidades, usamos a correria do dia a dia como desculpa para não enxergá-los.

Percebo também no meu dia a dia que muitos não aceitam a velhice, e é perfeitamente compreensível, é difícil entender que tudo está mudando, que a pele, o rosto, o corpo, os movimentos não nos obedecem mais, acredito que a mídia, a publicidade, e as grandes marcas de cosméticos, têm uma parcela de culpa nessa não aceitação. A moda é manter-se jovem a qualquer preço, tornar cada vez mais distante as marcas de expressões, as rugas, as pelancas, viver em prol de medicamentos, tratamentos cosméticos, sessões e mais sessões de aplicações, e esquecer que tudo isso não trará nenhum benefício se você não aceitar que irá envelhecer, que esse processo não necessariamente depende somente do corpo, pois as mudanças viram tanto fisicamente como psicologicamente.

Já o envelhecendo, vejo como um processo de aceitação ou negação um momento que pode-se dizer de reflexão, observar como chegamos nesse processo e de que forma chegamos, compreender que estamos envelhecendo e como podemos nos preparar. Esse processo pode se tornar triste, pesado e lento, se não estivermos prontos para aceitar algumas mudanças que virão junto com a idade.

É estranho perceber que estamos envelhecendo, é algo que não imaginamos, como a morte, por exemplo. Sabemos que um dia ela chegará mas na verdade nunca estaremos prontos para recebê-la. Envelhecer é algo que poderíamos levar com mais tranquilidade se em nosso País tivéssemos realmente políticas públicas, efetividade nos serviços oferecidos e mais respeito, que venha ao encontro dessa crescente população e principalmente entender que envelhecer é algo natural da vida, que todos passaremos por ela, e que juntos precisamos encontrar maneiras de fazer com que esse processo da vida seja mais tranquila.

A grande questão é, será que existe como nos preparar? Será que é tão simples entender e aceitar que estamos envelhecendo? Será que esse processo depende mesmo de nós, das nossas escolhas, ou seria mais uma questão de sorte? Ou depende de onde se esteja envelhecendo, das pessoas que estarão ao nosso lado, no lugar onde se vive, ou até mesmo das condições financeiras que se vive?

Não podemos negar que envelhecer com uma condição de vida tranquila financeiramente é sem dúvida mas fácil, estar envelhecendo tendo acesso às necessidades básicas e não básicas mas necessárias, é algo que todos os idosos teriam que ter, políticas públicas, saúde, transporte, entretenimento, tudo isso deveria ser prioridade, pois muitos veem a velhice como o fim, e acreditam que os velhos só precisam de descanso, cadeira de balanço e paz.

Nas minhas observações, nas histórias ouvidas através de relatos dos próprios idosos percebo que muitos deles não se deram conta que tinham envelhecidos, que estavam doentes, sozinhos e perdidos, muitos não tiveram tempo de reparar nas sua rugas, no seu cansaço, e na sua fragilidade. Mas também conheci outros que falavam que a vida estava em uma das melhores fases, diziam estar libertos de obrigações e cerimônias, sentiam-se mais vivos do que nunca, queriam aproveitar cada segundo que tinham, sem obrigações, sem preocupações e apenas viver bem e feliz.

A minha indagação é o que leva a uma velhice bem e tranquila, e o que faz de uma velhice triste, solitária e sem vontade de viver. Pode-se dizer que são os problemas acumulados durante uma vida mas muitos desses idosos que têm sede de vida também tiveram grandes problemas, preocupações, e até doenças, essa é uma resposta que não consigo ter.

A tão sonhada aposentadoria, de um sonho muitas vezes se torna um verdadeiro pesadelo. Sim, não posso generalizar, talvez esteja sendo um pouco dramática ou exagerando nas minhas opiniões, mas me baseio no que vi, no que ouvi, e muitos me relatavam que o valor da aposentadoria era insuficiente, mal dava para se sustentar. Imagine para alguns que muitas vezes alimentava e cuidava de uma família inteira, insuficiente também para bancar dezenas de remédios que vêm junto com a idade… Por isso acabam por não pararem de trabalhar e se sujeitam a condições insalubres, sendo muitas vezes explorados, isso quando conseguem algum trabalho, pois do contrário vivem de forma precária, sem saúde, sem uma boa alimentação, e sem cuidados necessários que a própria idade pede.

Fico a me perguntar, o que devemos fazer para uma velhice tranquila, o que podemos esperar daqueles que na teoria deveriam cuidar e proteger os seus velhos, como podemos fazer para que a sua opinião tenha voz e valor, para que outras pessoas não decidam por eles a sua vida, para que a sua história seja sua até o fim.

E como chegar? O que fazer? Será que chegar na “terceira idade” gozando de virtudes e saúde é para todos? É só querer? Basta manter uma alimentação saudável, a mente sempre em movimento, praticar exercícios físicos, fazer prevenções de doenças, cuidar das doenças já existentes? Esse seria o segredo?

Por mais que queira ser pessimista, não ser tão radical, acabo entrando novamente nas questões econômicas, regionais, políticas e sociais.

Trabalhando na área da saúde é fácil observar a fragilidade, o descaso, o abandono. É comum ver pessoas despreparadas para essa crescente população, talvez seja porque o País não se preparou para cuidar, ou até mesmo enxergar os velhos, ou até uma questão de educação, uma geração que mal conhece a palavra respeito, que nem aos pais obedecem (perdão por generalizar de novo, mas tenho essa visão). Uma velhice saudável vai além de se preparar para ela, acredito que o primeiro passo é aceitar que ela chegará e descobrir qual a melhor forma de viver, saber que nem sempre poderemos contar com aqueles a quem compartilhamos uma vida inteira. Sim, acredito que isso seja um processo difícil e atá cruel, mas é uma realidade, então por que não se preparar para viver só, de uma maneira que a sua companhia já lhe basta?

O Brasil está em um processo natural de envelhecimento, entre os anos 50 e 60 o Brasil apresentava uma população excepcionalmente jovem. Este acontecimento de rápido envelhecimento populacional, não é algo exclusivo do Brasil e sim de diversos outros países em desenvolvimento. Em alguns textos lidos e estudados, observei que alguns países da Europa já se preocupavam com o crescimento da sua população idosa podendo garantir um certo conforto, digamos assim, para seus idosos, o envelhecimento de nossa população está se processando em meio a condições de vida, para parcelas imensas da população, muito desfavoráveis.

O País está envelhecendo, e precisamos entender a importância de saber lidar e cuidar dessa crescente população. Ainda temos muito a evoluir, entender, estudar sobre Gerontologia, pois até o nome ainda é desconhecido para a maioria da população, compreender a velhice e as suas etapas. Entender e respeitar a individualidade dos velhos é algo que aprendo todos os dias, entender que envelhecer não significa o fim, que nós temos uma história, que cada ser é único.

Hoje, quando olho e escuto uma conversa ou história de um idoso, sou capaz de observar cada ruga, cada marca de expressão, vejo como um livro que pode ser aberto e lido com muita fome e sede para chegar ao final dele e saber como foi o fim. Meus pensamentos viajam, fico tentando adivinhar como chegarei, quem estará ao meu lado, e aí que percebo que posso ser a autora da minha história e o fim dela eu posso escolher se vai ser boa ou ruim, não importa, o que importa é que essa é a minha história.

Termino esta reflexão com uma frase de Márcio Souza:

Envelhecer como os vinhos. Devemos envelhecer como os bons vinhos, mantendo sempre as qualidades e propriedades das colheitas, sem nos tornarmos com gosto de rolha (bouchonné), oxidação ocidental (vinho oxidado), ou vinagres, azedando as nossas próprias vidas e as das pessoas que nos cercam”.

 

(*) Francimeire Tomaz Lacerda – graduada em Serviço Social. Fez estágio em um centro de permanênia provisório onde teve um contato direto com os idosos. Texto apresentado no curso Fragilidade na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento ofertado pela PUC-SP no segundo semestre de 2017. E-mail: meire_tomaz@hotmail.com

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