Envelhecer com HIV: estigma ainda é um problema

Tempo de Leitura: 4 minutos

O medo da solidão e do estigma estão entre as principais queixas das pessoas com HIV com mais de 60 anos. Muita coisa precisa ser revista, inclusive entre os profissionais da saúde.

Agência de Notícias da Aids (*)


Os desafios, conquistas e cuidados ao envelhecer com HIV foi tema de debate da Agência Aids, que reuniu especialistas e pessoas vivendo com HIV na terceira idade para um bate-papo coordenado pela jornalista Roseli Tardelli. Essa também foi uma oportunidade para lembrar que a idade chega para todos, e que, com ela, novas dificuldades devem surgir, mas que é possível envelhecer com qualidade de vida. Afinal, o envelhecimento da população é um dos maiores triunfos da humanidade e também um grande desafio.

Roseli começou o bate-papo perguntando a Maria Elisa, do Movimento Nacional das Cidadãs Positivas, o que significa para ela envelhecer. “É um acúmulo de experiências, uma dádiva divina. Fiz 67 anos e vivo com HIV há 31. Ter chegado a essa idade vivendo com HIV é um presente de Deus, pude fazer tanta coisa, aprendi muito e tive a oportunidade de conhecer muita gente.”

Na visão do seu José Armando, de 74 anos, “envelhecer é uma saúde que Deus dá para gente. Depois dos 50 anos você volta a ficar mais forte psicologicamente pelo que aprendeu, viveu e sofreu. Chegar à idade que eu cheguei, com saúde, é um poder da natureza.” Viúvo, ele vive com HIV há mais de uma década e garantiu que faz de tudo para se manter ativo, inclusive cozinhar, lavar roupas, passear com o cachorro, ir aos jogos de futebol aos domingos e tomar até uma ‘cervejinha gelada’.

A infectologista Gisele Cristina Gosuen, responsável pelo Ambulatório de “HIV e o Envelhecer”, na Unifesp, também acredita que envelhecer é um privilégio. “Sempre digo aos meus pacientes que a muitas pessoas vivendo com HIV foi negada essa oportunidade no mundo. No começo da epidemia não tínhamos medicamentos que pudessem interromper o progresso da doença. O envelhecimento saudável deveria ser uma meta de todos nós, independentemente do status sorológico.”

Para Jean Dantas, diretor do Núcleo de articulação com sociedade civil organizada e assessor da gerência de planejamento do CRT de São Paulo, envelhecer é uma vitória. “As pessoas que estão envelhecendo com HIV puderam chegar até aqui, constituíram famílias, tiveram a oportunidade de ver seus filhos crescerem, seus netos, oportunidades de ter trabalhos. A aids ceifou a vida de uma geração, ainda bem chegamos até aqui, vivemos e podemos comemorar a possibilidade de não transmitir o vírus para outras pessoas desde que façamos o tratamento corretamente.”

O cientista social e mestre em Saúde Coletiva Renato Barboza completou o time de especialistas da live. Segundo ele, envelhecer é conseguir reconhecer as conquistas e os desafios que enfrentamos ao longo da vida. “Quando a gente começa a envelhecer, nos damos conta desta trajetória, é um privilégio, principalmente envelhecer com saúde, inserido socialmente, com grupos de afetos. Por outro lado, é desafiador quando a gente pensa na trajetória das pessoas vivendo com HIV/aids. Na década de 80 até meados dos anos 90, antes do coquetel, a gente tinha outro cenário. Graças a ciência, aos avanços tecnológicos e ao Sistema Único de Saúde, conseguimos mudar o quadro. Hoje, podemos até em falar em pessoas vivendo com HIV/aids, pessoas indetectáveis.”

Envelhecimento ativo

Roseli quis saber como tem sido o envelhecimento ativo de Maria Elisa e José Armando.  Elisa garantiu que sua agenda de atividades se mantém sempre cheia. “Além da militância, trabalho com comida e recentemente me inscrevi em um grupo de ginástica. Tive covid em janeiro, fiquei com muitas dores muscular e na próxima semana devo começar a atividade física. Caminho muito, me movimento bastante e aos finais de semana sou babá de dois pré-adolescentes.”

Já José Armando contou que não se sente velho. “Sou idoso por causa da idade, mas faço de tudo um pouco. Até aprendi a cozinhar.”

Segundo explicou a infectologista Gisele, envelhecimento ativo é praticamente a vida que o José Armando leva. “O fato dele cuidar da própria casa, passear com o cachorro, vida social com os amigos. O tabagismo e as bebidas alcoólicas não são hábitos saudáveis, mas ter uma vida ativa faz com que você tenha um envelhecimento saudável. Por isso, sempre incentivo os meus pacientes a manter uma dieta equilibrada e a praticar atividade física.”

Medo da solidão

A jornalista questionou ainda Jean Dantas sobre quais são as principais queixas e vitórias das pessoas com HIV com mais de 60 anos. “Existe o grande medo da solidão e do estigma. Tivemos muitos avanços nos últimos anos, mas o estigma ainda é muito presente. Existe também a preocupação sobre como estará o corpo com o passar dos anos, sobre efeitos colaterais do tratamento a longo prazo. No passado, tínhamos a questão da andropausa e da menopausa, o envelhecimento interno das pessoas com HIV é um pouco avançado, existe o envelhecimento celular causado pelo processo inflamatório contínuo. E isso gerou muito medo. Mas sempre digo que a rede de apoio é fundamental. A solidão potencializada por um estigma na população idosa é um grande desafio.”

Na avaliação dos especialistas, ainda é preciso avançar bastante na política pública. “Já temos ambulatórios específicos, como o da Unifesp, mas temos que caminhar bastante no Brasil. Avançamos, os medicamentos mais novos são menos tóxicos. Os antirretrovirais são aliados da vida. Mas o processo de envelhecimento faz com que os nossos pacientes apresentem doenças próprias do envelhecimento: hipertensão, diabetes, osteoporose, todas as comorbidades que acometem qualquer indivíduo em idade mais avançada, a diferença é que nas pessoas vivendo com HIV isso acontece em uma idade mais precoce”, explicou a médica Gisele.

“O acesso a informação é fundamental para reduzir o peso do estigma. Muita coisa precisa ser revista, inclusive entre os profissionais da saúde. As pessoas precisam aderir também aos serviços de saúde”, acrescentou Renato.

Assista o bate-papo na íntegra a seguir:

(*) Agência de Notícias da Aids – redação. Matéria na íntegra publicada no dia 29/09/2021.

Foto destaque de RODNAE Productions/Pexels


Portal do Envelhecimento

Redação Portal do Envelhecimento

portal-do-envelhecimento escreveu 3807 postsVeja todos os posts de portal-do-envelhecimento