Ensaio sobre a cegueira

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Na intersecção entre fantasia (ou não), literatura e sabedoria, José Saramago nos obriga, nesses tempos sombrios, a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez e resgatar o afeto face à pressão e ao que se perdeu – “uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”.


Um motorista, parado no sinal, subitamente se descobre cego. É uma espécie de “nada” que logo se espalha incontrolavelmente, como uma doença contagiosa. Resguardados em quarentena, os cegos vão se descobrir perdidos numa viagem rumo à escuridão. José Saramago em o Ensaio sobre a cegueira nos faz refletir sobre“a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”. O livro/filme passa uma imagem aterradora e preocupante de tempos sombrios, é a angústia que guarda uma intimidade sem limites ao que estamos vivendo nesses dias tão tristes.

O filme, gravado em São Paulo – mostra vários pontos da cidade, como o minhocão, o centro, a Praça da Sé, a avenida Paulista, e vários outros pontos, ícones de uma metrópole desvairada -, conta a história de uma inédita epidemia de cegueira, inexplicável, que se abate sobre uma cidade não identificada. Tal “cegueira branca” — assim chamada, pois as pessoas infectadas passam a ver apenas uma superfície leitosa — manifesta-se primeiramente em um homem no trânsito e, lentamente, espalha-se pelo país. Aos poucos, todos acabam cegos e reduzidos a meros seres lutando por suas necessidades básicas, expondo seus instintos primários. À medida que os afetados pela epidemia são colocados em quarentena e os serviços do Estado começam a falhar, a trama segue a mulher de um médico, a única pessoa que não é afetada pela doença.

Na intersecção entre fantasia (ou não), literatura e sabedoria, o autor nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez e resgatar o afeto face à pressão dos tempos e ao que se perdeu – “uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”.

Mesmo com as atitudes tomadas pelo governo, a epidemia não arrefece e depressa o mundo se torna cego. Na quarentena obrigatória, vemos reações e manifestações de sentimentos sequer imaginados: lutas entre grupos pela pouca comida disponibilizada, compaixão pelos doentes e os mais necessitados, como idosos ou crianças, atos de violência, mortes (…).

Imersos em uma cidade toda infectada, esses cegos passam a seguir os seus instintos animais, sobrevivem como nômades, instalando-se em lojas ou casas desconhecidas.

Saramago mais parece um visionário quando nos apresenta uma obra intensa e angustiante, leva-nos a um sentimento de impotência extrema, reservando-nos o desprezo e o abandono. Mergulhamos na imprevisibilidade das coisas.

Ensaio sobre a cegueira é a própria reflexão sobre a moral, os costumes, a ética e o preconceito, uma versão de O Mito da Caverna ou Alegoria da Caverna, da obra mais importante de Platão, “A República”, escrita entre 380 e 370 a.C. Na verdade fala sobre o conhecimento… uma história contada pelos olhos da personagem principal, uma mulher que se depara com situações no mínimo constrangedoras em tempos inacreditavelmente modernos. A Chave de Pandora estaria no feminino?

Ao entrar numa igreja, ela presencia um cenário em que todos os Santos se encontram vendados: “se os céus não veem, que ninguém veja”. Onde, Eles estarão?


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Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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