“Encontros Culturais” na 3a idade é o curso mais concorrido da USP

Para conseguir uma vaga no curso Encontros Culturais o interessado precisa se matricular por e-mail no momento exato em que ela for disponibilizada na internet.

Por Manuel de Barro

 

Aulas – parte 2.

Meu filho, Maurício, conseguiu garantir minha vaga e a do Saboia, seu sogro. O programa anunciava 45 vagas, mas só foram admitidos três alunos novos. Descobri quando cheguei lá, mas chegar lá não foi tarefa fácil.

Meu sexto sentido me disse para sair de casa cedo. Nesse dia não fui caminhar. Almocei por volta das onze da manhã e meia hora depois já estava chamando Saboia.

– Vamos!

– Calma, Manuel, entra um pouquinho.

– Vou esperar aqui fora… tem cinco minutos para se aprontar… quero chegar cedo.

– Vou comer uma coisinha e já vou!

– Saboia, é pra hoje! – voltei a apressá-lo. – Espero você no ponto do ônibus. Vou subindo o morro devagar…

– Calma, Manuel, já vou!

Saboia culpou a minha pressa por haver esquecido a mochila. Deu-se conta quando descemos do ônibus na estação Tucuruvi do Metrô. Por um bom tempo manteve o mau humor.

– É melhor ir se acostumando porque nessa idade esquecer é a regra. Eu, como já sei, criei estratégias para não esquecer…

– Para de falar merda, Manuel, não sou velho como você.

– Pelo menos concorda que é velho…

– Velho é outra coisa…

– Velho é uma coisa só. No Brasil, a partir dos 60 anos, de acordo com o Estatuto do Idoso, somos oficialmente todos velhos, todos da terceira idade.

– Não sei por que você gosta tanto da palavra velho. Velho é uma coisa que não serve mais, que se joga fora. Pode ser seu caso, mas não é o meu.

Saboia estava irritado porque na mochila estavam o programa do curso e todas as coisas que sua filha, Márcia, separou para ele não esquecer: caderno, caneta, lanche, água etc.

– Envelhecente… é isso que você é, um envelhecente.

– Não tem graça, Manuel. Deixa eu ver o endereço?

– Aqui – passei a cópia do programa e esperei que memorizasse. – Se já decorou o endereço, pode devolver – estendi a mão para pegar o programa de volta.

– Escola Politécnica, bloco 22, piso superior, conjunto das Químicas – disse Saboia sem olhar no papel.

– Vai confiar na memória? Os esquecimentos nessa fase da vida…

– Esqueci a mochila por sua causa. Márcia vai ficar furiosa. Preparou um lanchinho com tanto carinho…

– Só faltava essa, Saboia, carregar lanchinho para a universidade – dei uma boa risada. – Deve haver uma lanchonete por lá, não acha?

– Uma barra de cereal, um pacotinho de biscoito integral e uma bananinha light para beliscar no intervalo.

– Ontem discuti com meu filho por causa disso.

– Por causa do lanche?

– Desde quando Maurício se preocupa com o que eu como ou deixo de comer? Lá em casa, se eu não fizer comida ele morre de fome. O que quero dizer é que nossos filhos esqueceram que somos adultos. E não venha me falar que mulher é diferente de homem. Maurício e Márcia agem da mesma forma.

– Não gravei o nome da rua – disse Saboia.

– Não se preocupe. Cedo pesquisei no Google o trajeto e imprimi para não haver erro. Posso deixar a folha com você.

– Ótimo!

– Merda – disse depois de tatear os bolsos e olhar na mochila.

– Esqueceu? – Saboia gargalhou feito um louco.

– Esqueci o papel, mas tá tudo aqui – bati com a ponta do indicador na têmpora. – Vamos descer no décimo terceiro ponto do Circular USP.

– Circular 1 ou 2?

Minha confiança desceu ladeira abaixo. Esqueci que havia dois ônibus.

– Só pode ser o 1 – arrisquei.

– Por quê?

– Porque se fosse o dois eu saberia…

– Prefiro me informar com a molecada no ponto…

Chegamos cedo ao Terminal Butantã. Saboia foi se informar com um rapaz na fila do Circular 2 e por lá permaneceu. Chamou-me, mas fingi não ouvir e segui para a fila do Circular 1.

– Quer apostar quem chega primeiro?

– Saboia, o Circular 1 é este.

– O certo é o 2, acabei de me informar.

– Sabe o endereço?

– Escola Politécnica, bloco 22, piso superior.

– E a rua?

– O ônibus passa na Poli, é só o que interessa…

– Nos veremos lá – acenei e embarquei no Circular 1.

O ônibus estava lotado, mas havia um lugar vazio na poltrona reservada aos passageiros prioritários. Sentei-me ao lado de uma mulher com o perfil da UnATI, ou seja, uma velha como eu. Assim que o ônibus deixou o ponto, puxei assunto.

– Boa tarde, a senhora vai para a USP?

Pergunta estúpida, pois quem toma o Circular USP, 1 ou 2, só pode estar indo para a USP. A mulher, talvez por conta da minha estupidez, não entendeu a pergunta. Fiz mais uma tentativa.

– A senhora conhece a Poli?

– Não senhor. Não conheço nenhuma Poli – respondeu como se Poli fosse uma pessoa.

– Será que peguei o ônibus errado? – deixei escapar em voz alta.

– Para onde o senhor vai? – perguntou a senhora, preocupada.

– Vou participar de um curso para a Terceira Idade na Poli – respondi.

– Deve ser em uma das paróquias da Diocese do Campo Limpo? Na São Judas Tadeu costuma ter essas coisas…

– Meu curso é na USP, é para onde estamos indo. A senhora pegou o ônibus errado. Este não é o Campo Limpo.

– O senhor enlouqueceu? Está brincando comigo?

– O Campo Limpo agora sai da calçada ao lado da estação. Trocaram os pontos. Outro dia, tomei o Campo Limpo pensando ser o Circular USP. Por isso sei…

– Este ônibus é o Campo Limpo? – a mulher perguntou ao cobrador.

– Não senhora. Este é o Circular USP – disse o cobrador.

– Mudou o ponto e ninguém avisa! Isso é um desrespeito ao usuário – desabafou e se encaminhou para reclamar com o motorista e pedir para descer.

– Se soubesse ler… – debochou o cobrador. – Não sei por que estudam? – ampliou sua provocação para os alunos da USP.

Os estudantes contestaram. Certamente algumas passaram pela experiência que passei quando embarquei no Campo Limpo pensando estar no Circular USP.

– Tinha que haver uma faixa orientando as pessoas para a mudança – dizia a mulher ao motorista e apenas ouvia. – As pessoas, habituadas, entram no ônibus automaticamente. Ninguém lê placa…

O cobrador, semianalfabeto, não abriu mão de sua tese.

– O problema é esse. Vivem no automático – usou o celular para ilustrar sua fala. – Ficam entretidos com bobagens e não prestam atenção em nada – concluiu.

Queria muito que o Saboia estivesse ao meu lado para rirmos juntos. O cobrador seguiu provocando a mulher e todo mundo.

– Pessoal, este ônibus não é o Campo Limpo, mais alguém perdido?

A pobre mulher suava. Havia muito trânsito. Demorou uma eternidade para alcançar o próximo ponto. Antes de descer, encarou o cobrador.

– É obrigação da prefeitura informar as mudanças, seu imbecil.

– Se soubesse ler… – disse o cobrador. Os estudantes, furiosos, mandaram que calasse a boca.

Lembrei-me de contar os pontos de ônibus para não depender de um cobrador arruaceiro. Aquele era o segundo. No quarto o ônibus já estava vazio.

– Hospital, senhor – falou o cobrador na minha direção.

– Vou descer na Politécnica. Ainda faltam três pontos – respondi cheio de certeza e o cobrador deu uma boa risada.

– Politécnica, senhor? Agora só na volta.

– O Google dizia para eu descer no décimo-terceiro ponto…

– Acho que nem contando com a volta a Poli seria o décimo-terceiro ponto. Em qual prédio o senhor vai? A Poli é grande…

– Conjunto das Químicas – disse depois de confirmar o endereço no programa.

– O senhor vai na Química ou na Poli?

– É tudo a mesma coisa – esnobei. – É a Química da Poli.

– A mesma coisa é um carga de melancia… posso ver? – apontou para o programa. Entreguei e ele leu palavra por palavra.

– Avenida Professor Lineu Prestes, 580… o certo era o senhor tomar o Circular 2…

– Passamos perto?

– Se o senhor conseguir andar…

– Tenho pernas, não vê? – perdi a paciência.

– Calma, pai. Vou deixar o senhor na avenida Lineu Preste e aí é só seguir até o número 580. É uma boa caminhada, tudo bem?

– Agradeço… é só me indicar a direção… é muito longe?

– Vai andar o equivalente a dois pontos, pai. O problema é que aqui os pontos são distantes, entende?

– Já percebi – disse irritado com aquela história de pai.

– P 3 – anunciou o cobrador e reparei que naquele portão havia uma espécie de ponto final com muita gente a espera. Pensei em passar a catraca para me aproximar da porta traseira para ficar mais fácil na hora de descer. Levantei, mas o cobrador me barrou – Fica aí, pai, na sua idade é melhor descer pela porta da frente…

– O que tem minha idade?

– O senhor não é mais jovem, concorda?

– Sei muito bem disso.

Dei graças a Deus por Saboia não estar comigo. Estaria rindo, com certeza, mas de mim.

– Falta muito?

– É aqui, pai – anunciou o cobrador. – Motorista, vai descer um velhinho perdido, segura aí – gritou. – Pai, é só seguir reto.

Pai é o caralho – disse antes de descer e os dois, motorista e cobrador, riram alto. Alguns moleques imbecis também riram. Mostrei o dedo do meio para todos e mais gente riu do meu descontrole.

Vi-me sozinho sob o sol. E não era da Toscana, era de Tostar. Não havia vivalma. Cobri minha cabeça com o boné e fui em frente. Lembrei-me de Dubai. Paisagem bonita, ruas conservadas e arborizadas, mas vazias. Perguntei o motivo ao taxista que me apanhou no aeroporto.

– Vai descobrir quando pararmos para abastecer e esticar as pernas.

Foi como sair de uma câmara frigorífica e entrar em um forno. Um cristão diria sair do paraíso e entrar no inferno. O asfalto fumaçava. O calor era tanto que víamos as imagens distorcidas, como miragens no deserto. O ar se derretia. Os carros, à la Dali, escorriam pelas ruas derretidas.

Assim estava a Cidade Universitária com seu verde desértico e grama esturricada. Já havia andado um bocado e em nenhum lugar pude conferir o nome da avenida. Começava a duvidar da boa vontade do cobrador quando vi ao longe a imagem deformada de um atleta amador. Um borrão em movimento vindo na minha direção. Preparei-me para pedir informação, mas não achei correto pará-lo. Minha estratégia seria acompanhá-lo. Uma corridinha ao seu lado para confirmar se estava na rua certa. Coloquei-me lateralmente como quem cede passagem, sorri amigavelmente e assim que ele passou segui suas pegadas.

– Amigo, não pare, não pare, só me diga se esta é a avenida Lineu…

Desabei como um saco de batatas. O rapaz, na tentativa de me segurar, caiu por cima de mim e rolamos sobre a relva seca e dura.

– Não se mexa. Vou parar um carro para levá-lo ao hospital… – disse o atleta.

– De forma alguma, estou bem, só queria saber se esta é a avenida Lineu… esqueci o resto…

– É, sim. Mas nunca mais faça isso, senhor, uma fratura na sua idade… tem certeza que não quer ir ao hospital?

– Estou bem – disse batendo a poeira da roupa e pisoteando o gramado para mostrar que as pernas estavam boas. – Vou na Química, conhece?

– É do outro lado da rua, vou ajudá-lo a atravessar. Consegue andar?

Mexi as pernas e mostrei que estava em condições de seguir em frente.

– Pode deixar que vou sozinho. Já atrapalhei demais seu exercício.

– Agora perdi o pique… vamos atravessar na faixa… acho que torci o pé…

O pobre mancava. Que vergonha. Estava me sentindo um Mazzaropi do asfalto.

– Daqui posso ir sozinho… obrigado e desculpe… talvez você deva ir ao hospital…

– Acho que sim – disse o rapaz se alongando e seguiu na direção do hospital.

Alcancei o número 580 da avenida. Um totem sinalizava que aquele era o Conjunto das Químicas. Estava no 1 e meu destino era o 22. Blocos imensos. Cada um com um papel colado na porta indicando o número. Na altura do bloco 16 acenei para uma garota que acabara de subir uma escadaria enorme.

– Boa tarde, por gentileza, falta muito para o bloco 22.

– O último é o 18… depois vem o bandejão…

– Não existe o bloco 22?

– Que eu saiba, não. Passo aqui todo dia. Termina no 18, tenho certeza…

A garota tinha razão, acabava mesmo no 18. Perguntei para outro estudante.

– Só se continuar do outro lado, fazendo a volta, mas se for está fechado.

Era outro que parecia coberto de razão. Estava tudo em obra. O acesso, fechado por placas de madeira. Talvez tivesse que voltar tudo e entrar pelo outro lado. Pelo 36, contando que havia 18 blocos de cada lado. Estava retornando quando vi uma garota de jaleco.

– Boa tarde, você é da Química?

– Sou.

– Sabe me dizer como faço para chegar ao bloco 22?

– Os blocos continuam para lá, o senhor passa o bandejão e aí vem 19, 20, 21 e 22, entendeu?

– Entendi… e depois do 22 deve vir o 23, o 24 e assim por diante, não é? – disse para ela entender que minha deficiência não era tão severa quanto imaginava.

– Não. O 22 é o último.

– Desculpe… e muito obrigado…

Quando me aproximei do bloco 22 um senhor, vindo do estacionamento, cumprimentou-me como se fôssemos velhos amigos. Imaginei que fosse o professor. O problema de frequentar cursos da terceira idade é que todos os alunos tem o estereótipo de professor. Segui-o. Encontrei outros tantos supostos professores pelo caminho. Muitos conversavam no corredor do piso superior.

– Veio para o curso? – perguntou um aluno simpático.

– Exato, mas primeiro boa tarde – respondi.

– Um aluno novo. Pessoal, um aluno novo!

A recepção calorosa me deixou à vontade. Usavam crachás de fundo laranja berrante e seus nomes, em preto, bem destacados, corpo 70 para combinar com a idade e a vista cansada.

– Tem mais algum aluno novo? – perguntei na esperança de encontrar Saboia.

– Por enquanto você é o único. Foi sorteado.

O aluno recepcionista funcionava como um átomo de ligação. Colocou-me em contato com outros alunos e me orientou da melhor maneira possível.

– Corre lá e garante um lugar, pois sempre lota.

– Não há lugar para todos?

Riram da minha pergunta. A sala de aula não precisava de muita gente para lotar. Estava entulhada por mesas-carteiras, grandes e antigas, grudadas uma na outra de forma que só havia um corredor delgado no meio da sala e um vão de passagem em um dos cantos, junto a janela. Cada mesa dispunha de duas cadeiras. A sala comportava 30 alunos, mas o curso oferecia 45 vagas.

– Boa tarde, posso sentar-me aqui? – dirigi-me a uma oriental na segunda fileira.

– Hoje, pode. Minha colega faltou.

– Mas ainda falta muito tempo…

– Chegamos sempre uma hora antes, se não veio até agora, não vem mais…

Sentei e fiquei de olho no movimento. Pelo estreito corredor entre as mesas, mesmo uma pessoa magra só conseguia passar lateralmente. Depois que as pessoas sentavam, se alguém no meio quisesse deixar seu lugar teria que passar por baixo ou por cima da mesa.

Todos se conheciam e me olhavam como se eu fosse um alienígena. Algumas pessoas perguntavam pela dona do lugar no qual eu estava sentado. E me alertavam que a dona era brava e já havia expulsados outros com a bengala.

Esqueceram de mim quando surgiu uma aluna nova e mais interessante.

– Joyce com y. É minha primeira vez…

Alguém apontou um lugar vazio e ela se estabeleceu com seu largo traseiro e amplo sorriso.

– Ela não é nova – comentou a oriental e só depois de alguns segundos me dei conta que se referia a idade da aluna.

Aproveitou o embalo para me falar da turma. A aluna mais velha tinha 87 anos e eu estava sentado no lugar dela. Um lugar privilegiado, pois tinha acesso fácil ao corredor. Havia dois alunos que frequentavam o curso desde sua criação, há 12 anos. A média de frequência era de quatro anos e meio. Era uma turma de repetentes que se orgulhava da situação.

– As pessoas entram, fazem amizades e não querem sair mais…

Consultei o relógio. Faltavam dez minutos para o início da aula. Eu não estava me sentindo apertado, mas o bom senso me aconselhava a ir ao banheiro.

– Sabe se tem mictório neste andar? – consultei a oriental.

– Não faça isso. O professor, quando entra na sala, fecha a porta e fica furioso com quem chega atrasado e atrapalha a aula.

O terror nos olhos da oriental me convenceu. Lembrei-me quando estive no Japão. A rigidez dos japoneses em relação ao horário é exagerada.

– O professor é japonês?

A oriental riu e disse que era pior que japonês com o horário. Desisti. Até porque a sala já estava tomada por cadeiras avulsas, o que comprometia a locomoção. Uma vistoria dos bombeiros renderia uma boa multa e a interdição da sala. Não havia uma única saída de emergência.

Alunos não paravam de chegar. Como formiguinhas, entravam com suas cadeiras na cabeça e iam se encaixando onde fosse possível. As mesas, projetadas para duas pessoas, comportavam três e até quatro.

Passei os olhos na sala. De um lado, armários antigos com portas de vidros para as pessoas visualizarem os títulos dos livros. Do outro, janelas basculantes com persianas em péssimo estado. Tortas, irregulares, incapazes de conter a claridade. A sala era inadequada para qualquer atividade, o que dizer para uma sessão de cinema.

– Os filmes são exibidos aqui mesmo?

– A tela fica atrás da porta, por isso o professor fecha a porta e fica louco quando alguém chega atrasado.

A porta era formada por duas lâminas largas. Cada uma tinha um grade retângulo vazado acima do meio. Duas janelas de vidro devidamente cobertas por papel Kraft para conter a claridade. As salas não eram divididas por paredes de alvenaria, mas por divisórias. E as divisórias também tinham a parte de cima vazada para entrar claridade, o que não era desejado. Por isso estava tudo remendado com papel Kraft.

– As aulas são sempre aqui?

– Desde a criação do curso, há 12 anos, e não adianta reclamar…

– Um curso para idoso no piso superior e sem elevador… quem tem mobilidade reduzido como aquela senhora como fica?

– Aproveita para fazer exercício – concluiu a oriental e rimos.

Não era só isso. Havia um tablado diante da lousa. Uma espécie de palco com 30 centímetros de altura. Sobre o tablado, uma gigantesca mesa de madeira maciça. Tão alta, que sob ela ficavam embutidas quatro banquetas. A mesa tirava a visão dos baixinhos com certeza. Não era meu caso.

Com todos os espaços tomados, quem chegava em cima da hora passava por um teste raro. Precisava subir e descer o tablado para se encaixar do outro lado, na lateral da janela ou do próprio tablado, e tudo isso com uma cadeira na cabeça. O risco de queda era gigantesco. Para evitar o pior, mãos e braços solidários auxiliavam quem se arriscava a fazer a travessia.

– Acho muito arriscado… é mais fácil seguir um coiote pela fronteira do México rumo aos Estados Unidos.

– É só chegar cedo – disse a oriental. – Se você sabe que vai encontrar dificuldade, procure chegar uma hora antes. É simples.

O barulho era ensurdecedor. O calor vencia o aparelho de ar-condicionado alemão de sete a um. Vingança verde e amarela. Na sala projetada para 30 alunos e com jeitinho ampliada para 45 vagas já contava com mais de 60 velhos amontoados. Todos felizes com a situação. Clima de festa.

– Só dois alunos novos… ainda bem – disse a oriental. – A sala não comporta.

– Três. Vim junto com um amigo que também vai fazer este curso.

– E onde foi parar seu amigo?

– Se perdeu…

– Mas vocês não estavam juntos?

– Fizemos uma aposta para ver quem chegava primeiro. Peguei o Circular 1 e ele o 2… ganhei a aposta e perdi o amigo – disse laconicamente.

– Apostaram o quê?

– Orelhas de burro…

A oriental olhou para minhas orelhas e deve ter imaginado que eu ganhei o prêmio e estava a usá-lo.

– O senhor vai precisar sentar bem para baixo da mesa porque o professor vai entrar e passar por trás da gente pois o lugar dele é nesse cantinho aí – apontou para a lateral onde eu me encontrava.

Havia uma cadeira solitária diante de um mesinha com um computador e rodeada por outros aparelhos eletrônicos.

– O problema é meu tamanho – disse puxando a cadeira para a lateral, ficando quase em cima dos equipamentos.

– O senhor não devia estar aqui – disse a oriental depois de avaliar a situação. – O professor não vai gostar nenhum pouco…

Tenho quase dois metros de altura, 1,98m para ser preciso, e sou largo como um armário. A oriental, mirrada, disse que a pessoa que sentava ao seu lado era mais mirrada ainda.

– Não atrapalhamos em nada – ilustrou o que dizia se enfiando praticamente sob a mesa.

Olhei para trás e vi que tiraria a visão de muita gente. Mas não tinha o que fazer. A merda estava feita.

– É sua primeira vez?

– Minha primeira vez foi na Madeira, atrás de um pé de bananeira…

– Não entendi….

– Você quer saber se é minha primeira vez na USP?

– O que o senhor entendeu?

– Nada… mas é minha primeira vez, sim. Meu geriatra e minha psicóloga me indicaram os cursos da Universidade Aberta porque acham que estou com os miolos moles.

A oriental riu da expressão miolos moles e repetiu meu gesto de girar o dedo contra a têmpora.

– Estou aqui há oito anos. O senhor vai gostar. Principalmente do café. Já deu sua contribuição? – apontou para o quadro onde se lia:

Cada aluno deve

colaborar com R$ 10,00

para o café do semestre.

 

– O curso nem começou e já estou devendo?

– E dez para o semestre inteiro? A responsável pelo café é ela.

A mulher estava atrás de mim com a caixinha do café nas mãos. Repassei o valor e a oriental me informou que há seis anos aquela mesma mulher se ocupava do café voluntariamente.

– Não sei se gosta de fazer isso, mas eu pagaria para não fazer.

– É o que estamos fazendo… e onde está o café para eu já tomar um gole?

– Na cozinha. No intervalo vamos todos pra lá, o senhor vai ver, é a melhor parte do curso.

– Seis anos fazendo café voluntariamente… já pode entrar na Justiça e reivindicar direitos trabalhistas.

– Aqui todo mundo ajuda. Somos uma família. Aquele senhor de barba está no curso há 12 anos. Aquela senhora há dez. Tem gente com oito, sete, seis como é o caso dela, quem tem menos tempo está há três anos ou mais. Não sei porque o professor admitiu gente nova neste semestre, a sala está cheia…

– Vocês estão esse tempo todo no mesmo curso?

– Não é o mesmo curso. Todo semestre é um tema novo. Quem entra não sai mais. É um curso para o resto de nossas vidas. Esta é nossa segunda casa, o ambiente é muito bom, criamos boas amizades, por isso é difícil sair.

– Parece o clube que frequento no meu bairro, Vila Cachoeira, já ouviu falar?

– Não. O senhor frequenta um clube?

– Na verdade é um Centro Comunitário. Lá é assim. As pessoas só param de frequentar por três motivos: mudança, doença ou morte.

– As pessoas morrem muito pouco aqui… graças a Deus.

Nunca vi uma turma tão barulhenta. Conversavam sem parar. Faltando cinco minutos para as duas o professor entrou na sala. O barulho aumentou ainda mais. O professor precisou gritar, ameaçar, apelar, chantagear para conseguir silêncio. Quando parecia ter assumido o controle da situação, duas senhoras entraram na sala equilibrando um bolo de oito quilos de aspecto delicioso. Irromperam os parabéns. Animadores de buffet não fariam melhor.

– Para o professor nada?

– Tudo!

– Então como é que é?

– É pica, é pica, é pica, é pica, é pica. É rola, é rola, é rola é rola, é rola…

Seguiram-se gritos excitados de discurso, discurso, discurso. Depois que o professor quase perdeu o fôlego tentando apagar uma vela que teimava em se manter acesa e ameaçou falar alguma coisa, foi cercado por idosos entusiasmados com pequenos embrulhos em mãos. Peças reluzentes de fazer inveja aos reis magos surgiam entre papeis celofane e seda e tecidos delicados.

– Gente, não precisava – repetia o professor com brilho nos olhos.

– Não vai partir o bolo? – gritou uma aluna esfomeada.

– O bolo fica para o café – anunciou o professor.

– Tem bolo para a sala toda – observou a oriental.

O professor usou de muita paciência e diplomacia para conter os ânimos da turma mais interessada no bolo do que na aula.

– Discurso, discurso, discurso…

Sem discurso, percebeu, não teria trégua. Limpou a garganta com uma sequência de pigarros e obteve silêncio para dar início a um depoimento emocionado. Terminou com água nos olhos depois de declarar que todos ali tinham um significado especial na sua vida.

– Gente, venho para cá cansado, estressado, aí acontece isso, percebem? Esse contato humano é maravilhoso. Na hora, no calor do momento, recebo, absorvo, sinto a pancada mas me mantenho de pé. O resultado vem no dia seguinte, levanto energizado, uma energia que vem de vocês e alimenta meu espírito, minha alma até a próxima aula. Já não sei viver sem isso, sem essa energia que vocês transmitem. Já não sei viver sem vocês. Aqui não tenho alunos, tenho amigos…

Os homens reagiam com gracinhas para não sucumbir às lágrimas. As mulheres simplesmente choravam.

– Quer um lenço – disse tateando os bolsos. – Desculpe, esqueci.

A oriental abriu a bolsa e pegou um pacotinho de lenços de papel e passou um para mim. Mesmo sem entender tudo aquilo, minha garganta fechou e meus olhos marejaram.

Com muito custo o professor conseguiu dar início a aula. Pediu que todos exibissem o programa do curso.

– Eu não recebi… – disse a aluna nova e aproveitou para dar os parabéns ao professor.

– Vocês sabem o trabalho que dá preparar um curso como este? Fazer mil pesquisas e depois ter o cuidado de enviar o programa, um por um, para cada aluno matriculado? A obrigação de vocês é trazer o programa na aula e, em casa, antes da cada aula, acessar todos os links para evitar perguntas desnecessárias sobre diretor, atores, locais de locação, figurinos e curiosidades que não fazem parte do objetivo do curso. Por favor leiam o que diz o objetivo. Eu mesmo vou ler: Propor ao grupo da terceira idade reflexões e debates sobre a própria vida assistindo a filmes de cinema que tratem de sonhos, contos, lendas e fantasias. Neste semestre, pessoal, qual é o tema do curso? Contos, Lendas, Fantasias… e a Realidade. Por favor, vejam o programa e não me venha com essa história que não recebeu…

A aluna tentou falar, mas o professor cortou sua fala e disse que qualquer manifestação, dúvidas, perguntas, comentários só poderiam ser feitas depois do intervalo, na hora do debate, e continuou:

– Como fazemos sempre, vamos começar vendo dois trailers antes do filme programado para a aula de hoje, The Fall, lamentavelmente batizado em português de Dublê de Anjo. Um horror, concordam?

Ao dirigir inadvertidamente a pergunta para a sala teve que ouvir todos se manifestarem ao mesmo tempo. Cada aluno concordava mais que o outro. Críticas desconcertantes aos responsáveis por nomear filmes no Brasil e exemplos terríveis de adaptações foram mencionados. Novamente o professor teve que lutar com unhas e dentes para obter silêncio. Uma aluna aproveitou o silêncio para se manifestar.

– Professor, será que alguém sentado perto da porta poderia trocar de lugar comigo porque vou precisar sair voando no intervalo pois tenho médico…

– Se vai sair voando, está no lugar certo, é só sair pela janela – disse um aluno engraçadinho.

– Trouxe a vassoura? – perguntou um aluno maldoso.

– Que grosseria – o professor recriminou os dois. – Gente, silêncio, mais alguém marcou médico e vai precisar sair voando no intervalo?

Mais quatro pessoas levantaram a mão.

– Não temos como trocar de lugar agora. Aviso aos novatos, hoje é o único dia que vocês não podem dar a desculpa que marcaram médico. Normalmente metade da sala não volta do intervalo por esse motivo. Portanto, quem for ao médico depois do intervalo não precisa avisar e tampouco trazer atestado. Vamos começar – fez sinal para uma aluna apagar a luz. – Este primeiro trailer é do filme do próximo ano. O seguinte é do filme da próxima semana. Não quero ouvir nenhum comentário. Travem a porta. A partir de agora ninguém entra ou sai.

O filme era projetado em uma tela que pendia do teto no espaço entre a lousa e a porta, por isso a necessidade de mantê-la fechada. A tela não era reta. Descia formando ondas e da metade para baixo, onde normalmente surgem as legendas, as ondas davam lugar a verdadeiras dunas, distorcendo letras e palavras e dificultava bastante a leitura.

Durante os trailers, ouviu-se muitos comentários, muitas conversas paralelas. No intervalo entre um trailer e outro, o volume da conversa subiu, mas baixou automaticamente durante o segundo trailer. Voltou a aumentar no final e novamente o professor teve que lutar para dar início a exibição do filme da semana, Dublê de Anjo.

Chamou a atenção para a importância de se observar as imagens e a música durante a exibição dos letreiros e enfatizou:

– É importante para a compreensão do filme – blefou.

Enfim, silêncio. Silêncio pesado, tenso, recheado por tosses, pigarros e o assoar de nariz. Ilustrado por uma sinfonia de ruídos estranhos. Velhos, como todo ser vivo, não conseguem se manter quieto por muito tempo. Quando o filme finalmente começou e a sala se encontrava concentrada, toc-toc-toc. Houve uma explosão de riso. Riam da reação do professor que pausou o filme e respirou fundo.

– Ainda bem que o filme estava só no começo – comentou uma aluna distraída.

– Gente, quando vocês vão entender que o filme começa com os caracteres, o letreiro, e só termina quando os caracteres finais param, a música para, quando cessam todos os movimentos na tela… quando?

– Quando o quê, professor?

– Quando um filme começa e quando acaba para o senhor?

– Começa no começo e acaba no fim… uns até colocam The End.

– Está errado. O filme só acaba…

– Professor, posso abrir a porta? – disse uma aluna preocupada com as tentativas de invasão que sacudiam sua cadeira cada vez que a porta era forçada.

– Para um cinéfilo, o filme começa no momento em que se apagam as luzes – disse uma senhora. – Aqui deveria ser assim.

– O filme começa quando você compra a pipoca – disse outro.

– Quando você se programa, escolhe a roupa…

– Quando você convida a gata…

– Chega!

A pessoa do lado de fora só não entrava porque vários alunos bloqueavam a porta com suas cadeiras e seus corpos. A aluna que chacoalhava com os empurrões, com a autorização do professor se levantou e afastou a cadeira para permitir a entrada da pessoa atrasada. Silêncio completo. Surgiu uma cabeça ovalada, despossuída de cabelos no topo, óculos pendentes na ponta do nariz e cara de fuinha. Sua silhueta se projetou na tela. Olhava para o interior da sala escura sem enxergar, mas buscando desesperadamente uma luz.

– Encontros Culturais é aqui? – perguntou o óbvio e se desculpou caso estivesse atrapalhando alguma coisa. Novamente os risos transbordaram. Alguns juravam que ele não estava atrapalhando nada.

– É meu amigo, Saboia – disse para o professor ao meu lado. – Saboia, é aqui, sim, mas você está atrasado… muito atrasado…

– Manuel? – Saboia se orientou pela minha voz. – Eu me perdi…

Acenei, sentindo-me culpado. A classe ria como se assistissem a uma comédia pastelão do Gordo e o Magro.

– O senhor convidou um amigo? – questionou-me o professor.

– Ele veio para o curso, vai participar, mas se perdeu porque o programa mandava ir para outro lugar, a Politécnica…

– Não senhor. Estava escrito claramente que o curso se dá no Conjunto das Químicas, na avenida Professor Lineu Prestes, 580 – rebateu o professor.

– A primeira informação que aparece é Escola Politécnica… – insisti.

– Gente, vocês precisam aprender a ler – disse o professor como um cobrador de ônibus. O maior problema da academia são os enunciados. As pessoas leem mas não entendem nada porque…

Muita gente se solidarizou com Saboia, principalmente quem passou pela mesma experiência de descobrir que a Química está alocada em um conjunto de prédios totalmente dissociados da Politécnica.

– Seu amigo está matriculado nesta turma? Porque se não estiver, não poderá permanecer na sala.

– Fizemos a matrícula juntos. Pela internet. Meu filho fez… e recebemos a confirmação. Estamos matriculados, sim.

Cada palavra era pontuada por muitas risadas.

– Liguem a luz – ordenou o professor e uma aluna acionou o interruptor.

Os holofotes revelaram um Saboia devastado. O pobre queria colo. Indefeso como um bebê e cercado por lobos sedentos como um Mogli.

– Encontre um lugar e sente, depois vamos conversar – disse o professor.

Alguns alunos se apertaram para Saboia acomodar sua magreza. Não foi difícil. Difícil foi recuperar o silêncio. Com muito custo e entre tosses, pigarros, risos, cochilos e comentários desnecessários retornamos ao filme.

No meio, o professor abandonou a sala. Parecia uma saída combinada. Ninguém estranhou. O filme continuou no mesmo embalo. Pouco antes de terminar, o professor retornou. Tudo cronometrado.

Com os letreiros ainda em andamento, as pessoas começaram a se espreguiçar. Uns acordavam de verdade. Alguém disse que não aguentava esperar mais e deu início a corrida ao banheiro. Fui atrás. Saboia me viu passar, mas estava cercado por velhinhas interessados na sua história.

– Na USP é fácil se perder – disse uma para levantar o moral do meu amigo.

Minha bexiga estourava, mas mesmo assim o xixi deu trabalho para sair. É mais fácil subir e descer de um tablado alto com uma cadeira na cabeça do que o fluxo de urina contornar a próstata. Lutava para secar e guardar meu brinquedo quando Saboia entrou no banheiro. Olhou para mim de cara amarrada.

– Vai me culpar pelo seu atraso?

– Você me deixou sem o endereço – reclamou.

– Era só perguntar pela Química… foi o que fiz.

– Pensaram que eu estava de carro e me mandaram subir a Rua do Lago… Andei embaixo do sol feito um cão sem dono. Tem ideia do que é andar nesse lugar…

– Se tivesse pego o ônibus junto comigo…

– O ônibus que peguei era o certo.

– Certo pra quê?

– Não sei como suporto você. Viu a vergonha que me fez passar?

– Eu?

– Vou fingir que não te conheço. Um amigo assim ninguém merece.

Saboia foi embora. Encontrei Joyce no corredor. Também deixava o banheiro.

– Gostou do filme?

– Muito bom… mas não entendi nada.

– A porta está fechada – disse tentando abrir. – Esqueci minha garrafinha, queria encher no bebedouro com água gelada.

– O professor sempre fecha a porta no intervalo – disse uma aluna veterana. – Mas tem copo e água na cozinha.

Seguimos a colega.

– Por que ele fecha a porta?

– Para evitar roubos. Está cheio de ladrãozinho à solta pelo campus.

– É perigoso andar sozinho por aí – disse outra. – Assaltam à luz do dia. Outro dia mataram um estudante…

A cozinha do bloco 22 é ampla e bem equipada. Os alunos circulavam em torno de uma mesa maior do que a mesa do professor que ocupava um terço da sala. Havia muita comida. Um verdadeiro banquete por dez reais o semestre.

– O café é lá! – disse um colega.

Não dava para ver a mesa do café, pois estava cercada por velhos viciados em cafeína. Havia café, chá e leite quente. Esperei o tumulto passar. Peguei meio copo de café e me afastei para olhar aquela gente atacar a comida como aves de rapina. Muita gente pegava com a mão.

Entre doces e salgados, bolos de vários sabores, bolachas e pipocas, destacava-se o bolo de aniversario, o item mais desejado. O professor não deu as caras e coube a quem fez o bolo cortar o primeiro pedaço.

Pensei no ridículo lanchinho que Saboia deixou para trás. Ali não havia lugar para lanchinho, eram pacotes, caixas, comida no atacado para ser atacada.

Se os alunos falavam durante a aula, quando supostamente deviam manter silêncio, na cozinha, território livre, falavam pelos cotovelos. Todos interagiam como velhos amigos. Ambiente acolhedor e festivo.

– Agora entendo porque quem entra aqui não sai mais – comentei com a oriental quando a vi passar.

– Chamamos de café socializante. É mais importante do que qualquer curso, não acha?

– Sem dúvida.

Um aluno se aproximou com dois pedaços de bolo e ofereceu um para a oriental e me cumprimentou em seguida. Lembrei-me dele. O átomo de ligação.

– Seja bem-vindo – disse estendendo a mão. – João do ABC. E desculpe a brincadeira…

– Manuel de Barro – disse respondendo ao aperto. – Não me importo com brincadeiras…

– Você tem um irmão chamado João, não é verdade?

– Tenho – estranhei, visto que minha família reside no litoral.

– Eu sabia. Apostei com meus amigos e ganhei. Gente, o Manuel de Barro confirmou. É irmão do João de Barro, o cantor – disse na direção dos amigos que riam sem parar.

– Meu irmão é engenheiro – contestei.

– Claro. Cantor e engenheiro. Mais engenheiro do que cantor. Vocês já viram as casas que o irmão dele constrói?

Todos disseram que sim e riram mais ainda.

– Como vocês sabem do meu irmão?

– Todo mundo conhece o João de Barro – disse o João do ABC e se afastou para rir com os amigos.

– Manuel, isso é bullying. Vou falar com o professor. Ele não conhece seu irmão coisa nenhuma. Está se referindo ao passarinho, João de Barro – explicou-me a oriental.

– Quer dizer que é tudo chiste? – comecei a rir sem parar. – Mas eu realmente tenho um irmão chamado João, por isso não me dei conta que era chiste…

– Ele é português – disse Saboia atrás de mim e quem estava com ele riu.

Saboia, talvez por ser o caçula da turma, era entrevistado por várias mulheres interessadas na sua Odisseia. Não sei o que contava para despertar tanto interesse, para merecer tanta atenção. Desconfiei que falava de mim, pois me olhavam como se eu fosse uma piada pronta.

– Vi que correu para o banheiro, estava apertado?

– Ah! – exclamei depois de alguns segundos. – Apertado como a sala.

– Eu também estava apertada… – disse a oriental. – Hoje, por causa dos parabéns e do seu amigo, demorou… por isso estava todo mundo estourando.

Há anos não travava uma conversa tão íntima com uma mulher.

– Será que vai sobrar um pedacinho de bolo?

– Vou lá pegar pra nós.

A oriental se enfiou no meio do tumulto. Aproveitei para atacar tudo o que havia sobre a mesa. Peguei mais café e já estava empanturrado quando a oriental saiu do tumulto com duas fatias de bolo.

– Se sobrar vou repetir – comentei.

– A maioria frequenta o curso só por causa disso, sabia?

– Você já havia falado… quem são suas amigas?

– Entrei no semestre passado… ainda não fiz amizades…

Fiquei surpreso, pois tinha entendido que ela frequentava o curso há anos. Desconfiado, olhei em volta e me dei conta que conversava com a oriental errada. Detesto descobrir meus erros. Detesto mais ainda encará-los. Minha vizinha oriental estava do outro lado da mesa. Sentia-se traída com certeza. Acenei e ela ignorou meu aceno. Olhando com mais atenção me dei conta que eram completamente diferentes. Roupa, cabelo, tudo. Para completar, uma era japonesa e a outra coreana.

– Gente, estamos atrasados, vamos para o debate – gritou o professor.

Mais da metade da turma foi ao médico como estava previsto. A sala ficou tão vazia que o professor se deu ao luxo de formar um círculo.

– Antes de começarmos o debate, pedirei aos novatos que se apresentem.

– O Manuel é irmão do João – disse um colega e o professor caiu na besteira de perguntar quem era o João.

– O João de Barro, o engenheiro-cantor – respondeu outro, mas o professor não entendeu a piada. De qualquer maneira a sala fez festa. Nessas horas, ri mais quem não entende o chiste.

– É bobagem, professor – disse uma aluna séria. – É bullying que estão fazendo…

– Quem começa? – disse o professor com uma carranca imensa.

– Meu nome é Joyce com y…

A mulher se apresentou. Tinha tantos títulos acadêmicos que não sei como coube na sala. Quando terminou, o professor perguntou se ela havia se inscrito por e-mail e se havia recebido a confirmação por e-mail.

– Sim… sim… tudo por e-mail.

– Pois então não diga que não recebeu o programa, pois encaminhei para este mesmo e-mail junto com a confirmação. Aprenda a ver os anexos.

– Desculpe, professor, mas eu não vi…

– Veja antes de dizer que não recebeu… agora o senhor, seu Manuel.

– Meu nome é Manuel com u. Manuel de Barro. Não se trata de um barro qualquer, minha família é detentora de um país. Um pequeno país… ainda não reconhecido pela ONU…

As pessoas riam sem parar e o professor pedia silêncio.

– Seu Manuel, fale de sua formação acadêmica, por favor.

– Fiz Economia na Madeira, mestrado em Coimbra e doutorado em Aveiro…

– Economizou na madeira para construir um barco e vir para o Brasil – disse o João do ABC e todos riram.

– Estão me confundindo com José Vasconcelos? – protestei.

– Sua família tem mesmo um país? – perguntou uma aluna.

– Principado da Pontinha do Forte de São José, quando os senhores estiverem com tempo, pesquisem na internet, entrem no álbum de fotos e vejam. Estou lá com Dom Renato I, o príncipe herdeiro. E por favor parem de rir.

– Podemos ver, professor? – disse uma aluna.

O professor entrou no Google e digitou Forte São José, Principado da Pontinha. Entrou no site e abriu o álbum de fotos. Lá estava a minha cara gorda ao lado do belo príncipe Renato Barro.

– O que o príncipe é do senhor?

– Sobrinho. Renato é filho do meu irmão mais velho, José de Barro.

– O senhor tem um título – perguntou a aluna.

– Marquês.

– Marquês de Sabugosa – disse o João para animar sua turma.

– Marquês de São Vicente, uma localidade da Ilha da Madeira onde se faz o melhor bolo de mel.

– Professor, e o filme, vamos debater? – perguntou uma aluna carente de atenção.

– Vamos, sim. Agora só falta se apresentar o aluno atrasadinho – disse o professor encarando Saboia.

– Meu nome é Saboia com s…

Foram tantas gargalhadas que até o professor entrou na gandaia. O debate ficou prejudicado. As pessoas começaram a levantar, dizer que estava tarde e com muito custo o professor garantiu algumas falas, mas sem réplicas e muito menos tréplicas.

Saboia estava inconformado com a reação das pessoas que praticamente não permitiram que fizesse sua apresentação.

– Manuel, o que eu falei de errado? Joyce com y e Manuel com u ninguém riu…

– Saboia com s é mais engraçado…

– Não entendi…

– Depois eu é que sou o português.

 

Foto de destaque: Giro Cultural Usp – divulgação

Mário Lucena

Mário Lucena

Jornalista, bacharel em Psicologia e editor da Portal Edições, editora do Portal do Envelhecimento. Conheça os livros editados por Mário Lucena.

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