Empatia: um adjetivo que não consta no currículo do cuidador

Empatia aqui pode ser entendida como a capacidade de se colocar no lugar do outro, compreendendo suas emoções e reações, imaginando-se nas mesmas circunstâncias que o outro. Logo, quando esse adjetivo extracurricular se faz presente, o cuidador experimenta dos sentimentos do outro, colocando-se em seu lugar, fazendo aquilo que gostaria que fosse feito consigo, isso também pode ser chamado de respeito.

Simone de Cássia Freitas Manzaro *

 

empatia-um-adjetivo-que-nao-consta-no-curriculo-do-cuidadorFiquei observando-a o tempo todo. Aquela cuidadora era muito atenciosa e carinhosa, sempre estava com um caderninho em mãos para fazer suas anotações. Possuía muito carinho e um cuidado singular com aquela idosa. Em alguns momentos, voltava-se para o caderninho e fazia suas anotações. Um dia, por curiosidade, perguntei o que tanto ela escrevia, ela me entregou o caderno para que eu mesma pudesse ver. Ali estava escrito à sua maneira, todas as recomendações que eu havia dado, algumas tarefas importantes, nomes de medicamentos, horários e para que serviam, dentre outras coisas. Minha curiosidade aumenta e pergunto se ela havia realizado algum curso de cuidador de idosos e, para minha surpresa, a resposta foi: “não, não preciso de curso para cuidar de quem amo.”

Este episódio é importante para pensar sobre o longeviver frágil, especialmente quando as estatísticas nos apontam que a população mundial está envelhecendo, e, com isso, cada vez mais a presença de cuidadores de idosos nos lares se faz necessário principalmente, pelos inúmeros casos de demências e outras doenças crônicas, que tornam muitas pessoas idosas dependentes em seus cuidados diários.

Certa vez Madre Teresa de Calcutá disse que “Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota”. Ora, o cuidador é essa gota. O cuidador é um profissional contratado para dar assistência ao idoso que necessita de cuidados especializados, em alguns casos o cuidador acaba sendo alguém da própria família, que é escolhido ou que escolhe cuidar do próprio ente querido.

Muitas vezes o cuidador contratado acaba sendo uma extensão da família que não pode estar presente naquele momento ou até mesmo um mediador entre o idoso e o mundo lá fora. Ele é responsável por garantir a saúde mental e física para que o idoso esteja sempre ativo, alimentado e bem cuidado. É ele quem garante a qualidade de vida do idoso.

empatia-um-adjetivo-que-nao-consta-no-curriculo-do-cuidadorO cuidador deve ser alguém paciente, ser bom ouvinte, deve estimular atividades e independência, planejar e fazer passeios dentre outras atividades rotineiras.

Ao pensar nessas habilidades que um cuidador deve possuir para trabalhar com idosos, logo nos vem em mente se ele possui formação específica e possíveis referências de trabalhos anteriores, o que torna esse suposto cuidador em alguém confiável além de um bom profissional.

Porém, quando o cuidador está no trabalho prático junto ao idoso percebemos determinados comportamentos e atitudes que fazem muita diferença no cuidado.

Voz baixa e delicada, toque suave, carinho e empatia, podem aproximar ainda mais o idoso do cuidador, facilitando a relação entre ambos.

Empatia aqui pode ser entendida como a capacidade de se colocar no lugar do outro, compreendendo suas emoções e reações, imaginando-se nas mesmas circunstâncias que o outro.

Logo, quando esse adjetivo extracurricular se faz presente, o cuidador experimenta dos sentimentos do outro, colocando-se em seu lugar, fazendo aquilo que gostaria que fosse feito consigo, isso também pode ser chamado de respeito.

Podemos fazer um paralelo com o filme “Os intocáveis”, filme francês baseado em fatos reais que mostra como alguém pode ajudar e auxiliar o outro, com condições às vezes mínimas, mas com muita força de vontade. Afinal, não estamos falando apenas de cuidador e idoso, estamos falando de seres humanos. No filme, um cuidador sem formação e sem nenhuma habilidade é escolhido dentre muitos (com muita formação e experiência) para cuidar de um homem que sofreu um acidente e que está na cadeira de rodas, sem movimentos do pescoço para baixo. Aos poucos aprende bem o trabalho e executa com perfeição, e sua relação com o paciente acaba sendo de uma grande amizade, o que facilita no cuidado.

Obviamente que a intenção não é tomar o filme como um exemplo a ser seguido, mas sim, como uma reflexão das habilidades pessoais que o cuidador que será contratado pela família pode ter e que ajudará na relação não só com o idoso, mas também com toda a família.

Capacitação específica ou força de vontade em aprender, cuidar e respeitar?

Qual será o principal adjetivo quando nos referimos ao cuidado com o idoso?

Podemos começar a refletir sobre isso…

* Simone de Cássia Freitas Manzaro – Psicóloga formada pela Universidade Nove de Julho, realiza atendimento psicológico de adultos e idosos. É voluntária na Associação Brasileira de Alzheimer-ABRAz. Possui experiência em estimulação cognitiva para pacientes com demências, principalmente Demência de Alzheimer; atua também com estimulação cognitiva preventiva; Realiza consultoria gerontológica, orientando familiares e cuidadores, criando estratégias e atividades para lidar com o paciente no dia a dia, supervisionando treinamento prático. É membro colaborador do site Portal do Envelhecimento. Email: simonemanzaro@gmail.com

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