Emergências médicas em voos comerciais

Dado o envelhecimento da população mundial e um número crescente de passageiros com doenças crónicas, é previsível que a frequência de emergências médicas a bordo aumente, especialmente em viagens de longo curso.

Carina Freitas (*)


Hoje vou partilhar uma situação ocorrida durante uma das minhas viagens transatlânticas, num voo noturno de 7 horas de duração, na companhia aérea SATA – Azores Airlines, entre Toronto e Lisboa. Após 4 horas de viagem, enfrentando turbulência mínima, noto uma assistente de bordo aflita, junto a uma passageira, e logo se ouviu o chefe de cabine perguntar se havia algum médico ou profissional de saúde a bordo. Levantei-me, identifiquei-me e ofereci-me para prestar assistência. A passageira estava inconsciente, estendida na parte traseira do avião, acompanhada pelo marido e por membros da tripulação.

Na avaliação inicial, a senhora sexagenária apresentava pulso e respirava. Não estava em paragem cardiorrespiratória. Tinha sofrido uma síncope (desmaio). Nisto, a hospedeira, a pedido do comandante, pergunta-me: “Doutora, estamos a 30 minutos de Ponta Delgada. Acha que devíamos divergir ou prosseguimos para Lisboa?” Bem, felizmente a senhora recuperou os sentidos, melhorou e cumprimos o plano de voo original.

O breve relato desta experiência serve de introdução ao tema sobre emergências médicas em voos comerciais. Segundo um estudo publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA), em dezembro de 2018, a prevalência de emergências médicas é de 1 por cada 604 voos. Outras estimativas referem 24 a 130 ocorrências por 1 milhão de passageiros. As situações mais frequentes são as síncopes (32 %), seguidas dos sintomas gastrointestinais (náuseas e vómitos – 14,8 %) e em terceiro lugar os problemas respiratórios (10,1 %). Menos frequentes são os sintomas cardíacos e as crises epiléticas. A taxa de mortalidade é de 0,1 a 1 por 1 milhão de passageiros.

Apesar das limitações do ambiente de voo, as aeronaves estão apetrechadas com uma mala de primeiros socorros, a “mala do médico” (kit de emergência médica avançado – EMK) e o desfibrilhador automático externo (DAE). Os elementos da tripulação são obrigatoriamente treinados (anualmente) e estão preparados para reconhecer emergências e prestar socorro. Sabem realizar o suporte básico de vida (SBV) e manusear o DAE.

Entre 1998-1999 a British Airways contabilizou 92 emergências por 1 milhão de passageiros. Destas, 70% foram resolvidas pela tripulação, sem requisitar ajuda médica. Nos casos mais graves e na presença de um médico, este pode abrir o EMK (após autorização do comandante), que contém equipamentos e medicação. Já foi estimado que há um médico a bordo em 40% das emergências, proporção que varia consoante a companhia aérea.

A título de curiosidade, no início do desenvolvimento da indústria da aviação comercial americana, por volta de 1930, as assistentes de bordo da Boeing eram, obrigatoriamente, enfermeiras. Num negócio em expansão, elas foram os “anjos da guarda’, cruciais para acalmar os passageiros inexperientes. Atualmente, as companhias aéreas americanas têm contratos com médicos especialistas em terra (ground-based medical support – GBMS), que orientam nos casos graves. Se necessário, os serviços paramédicos auxiliam à chegada ao aeroporto e encaminham para o hospital.

Dado o envelhecimento da população mundial e um número crescente de passageiros com doenças crónicas, é previsível que a frequência de intercorrências médicas a bordo aumente, especialmente em viagens de longo curso. O piloto do avião é quem tem, sempre, a responsabilidade de decidir se diverge ou não da rota prevista, consoante a gravidade do caso.

Se vai viajar, tenha uma boa viagem! Como li algures, “no avião, o medo é passageiro. Voar é bom, mas pousar é bem melhor”!

(*) Carina Freitas – Médica, especialista em Psiquiatra infanto-juvenil, mestre em neurociências, doutoranda em ciências médicas e neurociências na Universidade de Toronto (Canadá). Escreve regularmente para publicações portuguesas e internacionais. Texto reproduzido do JM O Jornal que, em Opinião, no dia 12/5/2019.


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