Em nome do Amor

Tempo de Leitura: 6 minutos

Um homem e uma mulher que bem já passaram dos 60 e muitos, um certo dia eles se encontram e se apaixonam, simples assim, vivem a história de amor até que o inevitável acontece.


Se eu tivesse que escolher uma lembrança para eternizá-la por toda a vida, essa seria aquela, do dia em que meus olhos encontraram os seus. Deus esteve lá…. (MUSSI, L.H.)


12 de Junho, 2022, mais conhecido como o Dia dos Namorados. E aqui estou eu, novamente, falando de amor, creio que nenhuma novidade. Falo não desse amor melado, mas daquele que venho escrevendo para o Portal do Envelhecimento, desde 2010. Digo, o amor rasgado, apaixonado, o amor da saudade, o amor sofrido, o amor que vem e vai e que nunca sabemos quando voltará e se voltará.

Acho que desde então, aprendi a lidar com as ausências, como também extrair até a última gota do momento em que realmente o tenho e isso… caro leitor, representa um percurso de anos, realizado a dois e que fazemos, eu e ele, com maestria, dedicação, respeito e generosidade mútua, e, claro, além dos “outros elementos”, de gostosos “cha cha cha”.

Foram muitos filmes analisados em textos, como se dizia nos áureos tempos: tantas declarações de amor, pedidos sutis de atenção, lembrança – “olha, eu estou aqui, quero conversar, tem gente dentro de mim que quer toque, contato, pele, nada de amor cerebral, é desejo de realização, estou viva, estamos vivos”.

Quando veio a pandemia, pensei: é, agora talvez tenha terminado o longo caminho de esperança, fé, mandingas de amor, leituras de tarô, búzios, runas, oferendas aos santos, promessas… Eu pensava: quem sabe na minha privação de comer doce, como último recurso, Deus dê uma olhadinha aqui pra baixo e conceda a minha graça suplicada.

Sim, a nuvem negra veio e junto dela, acompanhada da mão de Deus, a benção, a realização do que tanto desejei. Quando achei que já era “o não mais”, foi a concretização de “um tudo”, a cortina se abriu e um rasgo de sol entrou, embebido de doses monumentais de amor. Hoje, como pessoa de fé que sou, vivo o calor das palavras, dos gestos, da atenção, das delícias.

Lembro que os santos me diziam: “calma, tudo dará certo, será tão bom como nunca sequer imaginou”. E eu, assim como uma criança, repetidas vezes, perguntava: “quanto tempo isso vai levar?” Eles, implacáveis, respondiam: “ah… o tempo Dele não é contato pelos ponteiros do relógio, esse é o tempo do divino, esse é o tempo do sagrado”.

Enfim, como Ele e “ele” me fizeram e me fazem feliz.

Para brindar o dia, o tempo do Amor, escolhi o episódio “A corrida fica mais gostosa na volta final” da série Modern Love, disponível no app Amazon Prime Vídeo.

Confesso que essa não costuma ser uma das minhas preferências cinematográficas, mas a história, a princípio triste, é de esperança e é essa a palavra que eu gostaria que permanecesse com você, leitor.

A série, em suas duas temporadas, apresenta de forma delicada, extremamente sensível e não caricata os encontros e relações de amor dos dias… porque não dizer, de ontem e de hoje, quiçá do amanhã.

São histórias de amor adaptadas livremente de contos publicados na coluna de mesmo nome do The New York Times. Que fique bem claro: nada de amor romântico, perfeito com final feliz. É o que é… e ponto. Os episódios são gotas de perseverança, de fé, de que “toda forma de amor, vale a pena”, não importa de onde venha.

Primeira temporada, episódio 8:
A corrida fica mais gostosa na volta final

Aqui temos Margot (Jane Alexander) e Ken (James Saito), um homem e uma mulher que bem já passaram dos sessenta e muitos. Um certo dia, na corrida matinal de todos os dias, entre brincadeiras e gracejos, eles se encontram e se apaixonam, simples assim, vivem a história de amor a ser vivida com todo direito e merecimento, até que o inevitável acontece.

O sentimento de Margot:

– Lamento não ter dado uma festa de casamento maior, mas é que pensei que teríamos muitas outras oportunidades. O Ken não tinha tanta certeza. Lembro que um dia ele disse: “Nessa idade, ‘até que a morte nos separe’ não parece um compromisso tão longo”.

Ken tem razão, mas nessa vida vive-se um dia por vez e eles podem ser imensos, plenos, infinitos enquanto durem, independente da extensa quantidade de anos que ainda temos pela frente.

– O amor maduro é diferente. Mais realista, talvez. Quando nos conhecemos, já tínhamos vivido muitos altos e baixos, aprendido a nos comprometer, superado perdas e equívocos. Então nós achávamos que se esse relacionamento falhasse, sobreviveríamos a isso também. Já não tenho tanta certeza.

Compartilhar a vida com um certo outro é tarefa árdua, desafiadora, de longo aprendizado. Escutar, olhar e se comprometer verdadeiramente guardam relação direta com o amor. Quando já temos um volume considerável de anos, os dias se transformam em luta contra a corrida dos “centímetros da régua”, mas como é gostoso ter o privilégio de viver essas sensações: é a certeza de que essa pessoa é tudo que buscamos nessa longa ou breve vida.

– O amor maduro é diferente, mas ao mesmo tempo é igual. Porque o Ken e eu fizemos tudo que os jovens fazem. Nós nos apaixonamos, viajamos, reformamos uma casa juntos, plantamos um jardim. Eu terminei um livro de memórias, ele me chamava de “querida”. E quando saíamos juntos, bastava um olhar lá do outro lado da sala para ele saber que era hora de me levar para casa, onde nos sentaríamos na borda da banheira passando fio dental e fofocando sobre a noite.

Não é porque ficamos velhos que coisas simples da vida de um casal deixam de ser possíveis. É exatamente nessa fase que sabemos valorizar o “querida” ou o “meu amor”, a compreensão de um mero olhar. Quantas palavram são ditas no silêncio dos não ditos. Eu digo para mim, todos os dias: “eu nunca tive isso e sou grata por tê-lo hoje”.

Margot e Ken sabiam reconhecer o “como somos sortudos” e, de fato, eles eram. Eu sou…

– Um amor novo, até para gente velha, pode ser incrivelmente rico. Muitos aqui sabem que eu e Ken nos conhecemos correndo, “Olimpíadas Geriátricas”, dizia ele. No começo, eu o perseguia e ele a mim até que encontramos uma forma de correr no mesmo passo. Assim os momentos de subidas árduas, de doenças e de contratempos ficaram mais fáceis e as bem-vindas descidas foram muito mais prazerosas.

Viver no mesmo ritmo, mesmo tendo histórias tão diferentes, representa a preciosidade do acaso, é a arte do encontro das almas, das “gentes” de bom coração que sabem beber de qualquer forma de amor.

Assim como Ken, todos chegaremos lá, ao final da “prova”.

Enquanto isso, Margot, eu e espero que você também, que me lê agora, diga ao lá de cima: ainda não, mais um pouco, só mais um pouquinho e, já que estamos em pleno mês das festas juninas… me dê a mão e vamos brincar de roda.

Meu amor, prepare-se: ainda quero fazer você “pular feito pipoca…”

Desejo a todos e a todas, em nome do meu outro amor, o Portal do Envelhecimento, que sempre acolheu minhas palavras, muitas vezes tristes e outras tantas alegres, dias de paz e de bons sentimentos… sempre esperançosos porque no saudoso “E o ventou levou”: “amanhã será outro dia.

Referências
Modern Love – David Bowie: https://www.youtube.com/watch?v=HivQqTtiHVw
Modern Love – Primeira temporada, episódio 8:  A corrida fica mais gostosa na volta final https://www.youtube.com/watch?v=47YnpDpXYH8   

Fotos: reprodução


https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/curso-interdicao/

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: [email protected]

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