Elogio à lentidão

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Para nosso deleite o poeta faz, a sua maneira, elogios à lentidão “Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis” enquanto outro pergunta “Por que o prazer da lentidão desapareceu?


Entre as diversas características, usualmente, atribuídas à velhice está a lentidão. O filósofo Gilles Deleuze em seu Abecedário, reforça e faz coro ao afirmar que na velhice “tudo fica mais lento, nos tornamos lentos” apontando, porém, em seguida, justamente, para as potências da velhice. Na contemporaneidade não temos tempo para contemplação ou para observações tranquilas e suas possíveis descobertas. Temos sim, pressa! pressa para chegar, pressa para sair. A pessoa que anda lentamente a nossa frente? Certamente quer que a ultrapassemos! Nas escadas rolantes dos espaços públicos – metrô, centro de compras, aeroportos – é quase uma provocação parar em um degrau e deixar que o equipamento faça o que está programado para fazer… rolar vagarosamente e levar as pessoas de cima para baixo e de baixo para cima.

A lentidão não está, em nossos dias, entre as caraterísticas mais admiradas em quaisquer circunstâncias. Ser lento – pessoas ou coisas – é ser defeituoso, estar com problemas, precisar de ajustes.

Quer-se o computador mais rápido, o carro mais veloz, o transporte mais eficiente, o atendente de serviços ligeiro, a entrega do produto pra ontem. Não é incomum empresas de fast foods ou delivery apostarem corrida com o consumidor, prometendo seu lanche pronto em 3 minutos ou sua entrega em 30 minutos, caso contrário, você não paga por isso.

Pois bem, a forma como isso repercute no trabalhador envolvido na tal disputa – e que não lucra se a empresa “ganhar a corrida” -, permanece invisibilizado e tampouco discutido com a seriedade necessária. Todos acabamos envolvidos, de uma forma ou outra nessa “corrida maluca” e nem chegamos a perceber a gravidade dessa sanha de velocidade.

Da mesma forma nossa comunicação deve ser ligeira. Pois é, sabe aquela mensagem de áudio em sua rede social? Agora para ouvi-la você pode acelerar 1,5x ou 2x para não perder tempo, ouvindo, veja só, um áudio de 10 segundos, não importa que a aceleração dificulte o entendimento do recado e, também, dispense o prazer de ouvir a voz de seu amigo, da amiga, do familiar, de outro ser humano, enfim! Ah e aquela msgm que vc escreve abreviando as palavras mas, mesmo assim, considera que toma mt de seu tempo? Pode ser ditada enquanto vc realiza outra tarefa. É só acionar o mic.

Foto de Burst/Pexels

Vale ainda perguntar se na contemporaneidade há lugar para o “flanêur” de Baudelaire? Aquela ou aquele que observa, vivencia tranquilamente a cidade, sem pressa para chegar de um lugar ao outro, observando o que há para ser observado? Me arrisco a dizer que não.

Para nosso deleite – talvez salvação? – o poeta faz, a sua maneira, elogios à lentidão “Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis” enquanto outro pergunta “Por que o prazer da lentidão desapareceu?”.

O que vivemos parece ser o cumprimento do presságio que trazia o livro “Momo e o senhor do tempo” de Michael Ende. Nesta obra, o autor narra a história de um povoado que vivia tranquilamente, vagarosamente seu dia a dia, usufruindo de seu tempo, desfrutando a presença de uma amiga, um amigo, dando atenção aos doentes, às crianças, aos velhos, em sintonia com o ritmo do dia.

Ali o velho barbeiro ocupava seu tempo cortando vagarosamente os cabelos de seus clientes mas, principalmente, ouvindo-os, trocando ideias, conhecendo cada um deles. Eis que chegam à cidade os Homens Cinzentos. Sofisticados, autoritários, inteligentes chegam com novas ideias revolucionárias para economizar o tempo de todos e, principalmente, poupá-lo. Por meio de um cálculo complexo e difícil de entender, que incluíam porcentagens, tempo de poupança, tempo de vida, tempo ocupado a ser computado, os moradores foram aos poucos induzidos a pensar que “desperdiçavam” em demasia seu valioso tempo, sendo aconselhados a economizá-lo e a poupá-lo.

Devidamente orientados e ansiosos por poupar, mudam a forma de vivenciar cada dia. Passam a realizar suas tarefas o mais rápido possível. Não mais se detinham a observar o transcorrer do dia, as mudanças na luz do sol. Não mais reparavam na ausência de amigos. Deixaram de lado as conversas na calçada, as risadas. “[…] tempo é vida, e a vida mora nos corações […] Quanto mais as pessoas poupam tempo, mais pobre, superficial e fria se torna a existência e mais alheias elas se tornam de si mesmas.” Mesmo sentindo-se tristes e solitários, distantes da leveza que reinava anteriormente na cidade, estavam convencidos que o sacrifício valeria a pena pela poupança que faziam para o futuro. Será? Relembro esta fábula por considerar que representa de maneira admirável o que vivemos já há décadas e, sem trocadilhos, se acelera cada vez mais. Somos todos encorajados a contatos superficiais e frios.

Devo admitir, porém, que minha reflexão tem mais a intenção prosaica de “flanar” sobre o tema e examinar como contamina o olhar sobre o envelhecer do que propriamente responder a algo tão complexo quanto a questão de Kundera ou tão intrigante quanto a leitura de Michael Ende.

Quando vamos perceber que há potência na lentidão? Vejam bem, aqui não me refiro às modas de “slow isso” ou “slow aquilo” que navegam, justamente, na percepção de muitos que já sentiram que há algo muito errado nessa correria toda a que nos submetemos voluntariamente e a que estamos submetidos por outros.

Pois então, despreza-se a lentidão e, como mencionado na primeira linha deste texto, trata-se de uma característica usualmente atribuída ao ser que envelhece. Minha questão é: ao re-significarmos e construir outros sentidos para a lentidão, entre outras questões, isso não deveria repercutir na forma de olharmos para velhas e velhos?

A ideia é que cada um sinta seu próprio ritmo e, simplesmente, respeite o do outro. Nietzsche afirmou que “Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar” para nos lembrar da relevância de trazer a leveza para a vida. Uma vida que possui ritmo e cadência próprias, uma vida em que vale aprender a dançar para dançar com ela e, de preferência, longe do duro tic-tac do relógio que nos oprime e nos obriga a correr.

Qual seria esse ritmo e essa cadência? Bem, ouso dizer que a lentidão pode nos ensinar!

Foto de David Dibert/Pexels

Referências

BARROS, Manoel de. O apanhador de desperdícios. Disponível em https://www.tudoepoema.com.br/manoel-de-barros-o-apanhador-de-desperdicios/. Acesso em 15.out.201

DELLEUZE, Gilles. Abecedário. Disponível em http://www.bibliotecanomade.com/2008/03/arquivo-para-download-o-abecedrio-de.html. Acesso em 15.out.2021

ENDE, Michael. Momo e o senhor do tempo. São Paulo: VMF Martins Fontes, 2012.

KUNDERA, Milan. A lentidão. Tradução Maria Luiza Newlands da Silveira, Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo:Companhia das Letras, 2011. p. 8

Foto de destaque de Italo Melo/Pexels

Atualizado às 19h28


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Celina Dias Azevedo

Amante da literatura. Doutora em ciências sociais e Mestra em Gerontologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Especialista em Gestão de Programas Intergeracionais pela Universidade de Granada/Espanha, e em Gerontologia Social pelo Instituto Sedes Sapientiae (SP). Colaboradora do Portal do Envelhecimento. E-mail: [email protected] 

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