“Ele” está de volta?

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O cinema tem, seguramente, um papel político a cumprir, questionando, desafiando e provocando reações e gerando reflexões, principalmente quando o que está no centro da questão são homens, como os que vemos hoje no nosso país,  que tanto se assemelham a genocidas muito conhecidos ao longo da história.


Sim, esse momento é mais do que oportuno. “Ele”, acompanhado de todo seu séquito de loucos, desvairados e ensandecidos, trazem na alma o ódio, a  intolerância e o desejo de sangue nas mãos. O que mais assombra é ver pessoas muito próximas a nós cedendo a discursos extremistas, racistas e preconceituosos e, pior, carregando com extrema perversidade o nosso verde e amarelo, manchando a nossa bandeira, outrora um símbolo de alegria e orgulho de muitos que hoje têm mais de 60 anos e que lutaram por um país melhor para as gerações futuras e um envelhecer mais digno. O cinema, que nos ensina a longeviver, é uma prova viva desse período.

Trazendo apenas um trecho do pensamento da filósofa Hannah Arendt para a tragédia que estamos vivendo no país: “Ele” nem de longo é uma criatura aterrorizante, “Ele” não é um Mephisto? Ou será?

E, sobre a banalidade do mal, ela explica: “O mal não pode ser igualmente banal e radical. O mal é sempre extremo. Nunca radical. Profundo e radical é somente o bem”.

Não, não armemos a população com violência. Tome o caminho contrário, aquele que oferece generosidade, provoca reflexões, brinda momentos com palavras de amor aos que sofrem e clamam por compreensão e igualdade.

Não esqueça nunca do que vivemos em tempos sombrios. Não permita que o lado obscuro ganhe protagonismo.

Motivada pela indignação deste descalabro que vemos todos os dias nos atos e palavras de um governante e sua trupe de arrogantes, selecionei neste texto, para sua atenção e preocupação, 21 filmes sobre o período da ditadura militar brasileira – regime instaurado em 1 de abril de 1964 e que durou até 15 de março de 1985, sob comando de sucessivos governos militares.

É fundamental ressaltar que o cinema tem, seguramente, um papel político a cumprir, questionando, desafiando e provocando reações e gerando reflexões, principalmente quando o que está no centro da questão são homens, como os que vemos hoje no nosso país,  que tanto se assemelham a genocidas muito conhecidos ao longo da história.

Portanto, atenção, o mal se aproxima e, pode sim morar ao lado. “Ele” está de volta? Bem, chegue a sua própria conclusão na viagem árdua, mas esclarecedora nos filmes que apresento a seguir.

"ele" está de volta. O cinema mostra

Ação entre amigos 
Sinopse: Em 1971, quatro amigos foram presos ao tentar assaltar um banco e foram violentamente torturados. Anos mais tarde, descobrem que seu torturador ainda está vivo e vão numa pescaria encontrá-lo na intenção de matá-lo. É quando descobrem que só foram pegos porque um deles traiu o grupo.
Ano: 1998; Direção: Beto Brant

Anos rebeldes  – Seriado
Sinopse: O cenário é o Rio de Janeiro da classe média e a trama segue o romance entre os jovens Maria Lúcia e João Alfredo, e a trajetória de um grupo de colegas do tradicional Colégio Pedro II, desde 1964, quando se formam e se instala no Brasil o violento regime de ditadura, até 1979, altura em que a política governamental terá já influenciado definitivamente os seus destinos. Minissérie foi inspirada nos livros: 1968 – O Ano que Não Terminou, de Zuenir Ventura, e Os Carbonários, de Alfredo Sirkis.
Ano: 1992; Direção: Dennis Carvalho, Ivan Zettel e Silvio Tendler

Batismo de sangue
Sinopse: No final dos anos 1960, um convento de frades torna-se um local de resistência à ditadura. Cinco freis passam apoiar um grupo guerrilheiro e ficam na mira das autoridades policiais.
Ano: 2007; Direção: Helvécio Ratton

Cabra cega
Sinopse: Um jovem militante da luta armada – Leonardo Medeiros – é ferido numa emboscada da polícia e precisa se esconder na casa de um arquiteto, simpatizante da causa.
Ano: 2004; Direção: Toni Venturi

Cara ou coroa
Sinopse: São Paulo, inverno de 1971. João Pedro (Emílio de Mello) é um diretor de teatro que está bastante atarefado com os ensaios para uma nova peça. Nas folgas do trabalho ele recebe ocasionalmente a visita de um integrante do Partido Comunista, que não compreende as opções estéticas e políticas da peça, parcialmente financiada pelo partido. Paralelamente, Getúlio (Geraldo Rodrigues) e a namorada Lilian (Júlia Ianina), ambos idealistas, decidem colaborar com a resistência à ditadura militar, abrigando dois fugitivos. Eles decidem escondê-los na casa do avô (Walmor Chagas) de Lilian, um militar da reserva.
Ano: 2012; Direção: Ugo Giorgetti

Diário de uma busca
Sinopse: O jornalista Celso Afonso Gay de Castro morreu aos 41 anos, na cidade de Porto Alegre, em circunstâncias suspeitas. O militante político de esquerda foi exilado durante a ditadura militar brasileira. Durante esse período, ele percorreu diversos países, como Argentina, Venezuela, Chile e França, sempre carregando consigo sua família. Uma vida marcada pela história da luta armada, exílio e ausência. Sua repentina morte deixou seus familiares com um vazio e um mistério, que a filha Flavia tenta desvendar.
Ano: 2010; Direção: Flávia Castro

Dois córregos – verdades submersas no tempo
Sinopse: Em meio à repressão imposta pela ditadura militar vivem Ana Paula e Lydia, duas adolescentes burguesas e inexperientes que passam uma temporada em uma fazenda. Lá elas conhecem Tereza (Ingra Liberato) e convivem por um fim de semana prolongado com o tio de uma delas, Hermes, um homem misterioso que está clandestino no país.
Ano: 1999; Direção: Carlos Reichenbach

Eles não usam black-tie
Sinopse: Em São Paulo, em 1980, o jovem operário Tião (Carlos Alberto Riccelli) e sua namorada Maria (Bete Mendes) decidem casar-se ao saber que a moça está grávida. Ao mesmo tempo, eclode um movimento grevista que divide a categoria metalúrgica. Preocupado com o casamento e temendo perder o emprego, Tião fura a greve, entrando em conflito com o pai, Otávio (Gianfrancesco Guarnieri), um velho militante sindical que passou três anos na cadeia durante o regime militar.
Ano: 1981; Direção: Leon Hirszman

Em busca de Iara
Sinopse: Este documentário relata a trajetória excepcional de Iara Iavelberg. Apesar de ter uma situação financeira confortável, ela decidiu abandonar a família e investir na luta armada durante a ditadura militar. Iara teve uma relação amorosa com o capitão Carlos Lamarca, e morreu em 1971, aos 27 anos de idade.
Ano: 2014; Direção: Flavio Frederico

Hércules 56
Sinopse: Um documentário contando, através de entrevistas, a história dos 15 presos políticos que foram trocados pelo embaixador americano em 1969. Banidos do território nacional são levados ao México num avião da FAB, o Hércules 56.
Ano: 2006; Direção: Silvio Da-Rin

Lamarca
Sinopse: O lendário capitão Carlos Lamarca (Paulo Betti) abandona sua família e a carreira militar para tornar-se um guerrilheiro na luta contra a ditadura, comandando grandes ações terroristas e liderando conflitos contra as forças militares.
Ano: 1994; Direção: Sérgio Resende

Nunca fomos tão felizes
Sinopse: Rodado no último ano do regime militar, um rapaz é retirado de um colégio interno por seu pai, de quem pouco sabe e está afastado há 8 anos. É acomodado num grande apartamento temporariamente, quando começa a investigar o mistério que o cerca, em busca de sua identidade e descobre que o pai é um perseguido político.
Ano: 1984; Direção: Murilo Salles

O ano em que meus pais saíram de férias
Sinopse: Casal de militantes deixa o filho com o avô, para esconder-se da repressão, prometendo voltar até o fim da Copa do Mundo de 1970, mas o avô morre e o garoto terá de se integrar à comunidade judaica do Bom Retiro, além de ter contato com alguns militantes.
Ano: 2006; Direção: Cao Hamburger

O que é isso, companheiro?
Sinopse: Em 1969, o grupo terrorista MR-8 elabora um plano para sequestrar o embaixador americano – Alan Arkin -, para trocá-lo por presos políticos, que eram torturados nos porões da ditadura.
Ano: 1997; Direção: Bruno Barreto

Pra frente Brasil
Sinopse: Em 1970, enquanto o povo vibra com a seleção de futebol, a repressão corria solta. Um homem pacato de classe média – Reginaldo Farias – é confundido com um ativista político, preso e torturado. Enquanto isso, sua família procura por notícias. O filme foi lançado em 1983, ainda com Figueiredo na presidência.
Ano: 1983; Direção: Roberto Farias

Quase dois irmãos
Sinopse: Miguel é um Senador da República que visita seu amigo de infância Jorge, que se tornou um poderoso traficante de drogas do Rio de Janeiro, para lhe propor um projeto social nas favelas. Apesar de suas origens diferentes eles se tornaram amigos nos anos 50, pois o pai de Miguel tinha paixão pela cultura negra e o pai de Jorge era compositor de sambas. Nos anos 70 eles se encontram novamente, na prisão de Ilha Grande. Ali as diferenças raciais eram mais evidentes: enquanto a maior parte dos prisioneiros brancos estava lá por motivos políticos, a maioria dos prisioneiros negros era de criminosos comuns.
Ano: 2004; Direção: Lúcia Murat

Tempo de resistência
Sinopse: A luta guerrilheira contra a ditadura militar nos anos 60 e início dos anos 70, a partir do ponto de vista de seus integrantes na época. Uma avaliação real do que foi a resistência armada no Brasil em seu período mais crítico, com todos seus erros e acertos.
Ano: 2003; Direção: André Ristum

Topografia de um desnudo
Sinopse: Início da década de 60. O Rio de Janeiro se prepara para receber a visita da Rainha da Inglaterra, Elizabeth II. O clima político da cidade é tenso e uma jornalista corre perigo após investigar o crescimento do número de óbitos entre moradores de rua.
Ano: 2009; Direção: Teresa Aguiar

Uma longa viagem
Sinopse: O documentário revela a história de três irmãos, tendo como fio condutor a trajetória do mais novo, que viaja para Londres em 1969, enviado pela família para que não participasse da luta armada contra a ditadura no Brasil, seguindo os passos da irmã, que acabou tornando-se presa política. Misturando depoimentos e memórias dos irmãos com nove anos passados no exterior pelo caçula, o filme detalha cartas e também entrevistas com ele, que chegou a ser internado em instituições psiquiátricas. Um relato triste e ao mesmo tempo bem humorado de um núcleo familiar e suas convicções.
Ano: 2011; Direção: Lúcia Murat

Zuzu Angel
Sinopse: A história real de uma estilista, Zuzu Angel, que ganhou projeção internacional e travou uma batalha contra as autoridades militares em busca de seu filho, Stuart Angel Jones, que participava de movimentos estudantis e foi torturado e morto.
Ano: 2006; Direção: Sérgio Resende

O dia que durou 21 anos
Sinopse: O golpe militar de 1964 no Brasil contou com a ativa participação do governo dos EUA. Numa trama de ação e suspense, o filme revela documentos Top Secret da CIA e áudios originais da Casa Branca, mostrando como os presidentes John F. Kennedy e Lyndon Johnson articularam o plano civil e militar para derrubar o presidente João Goulart, eleito pelo voto popular. Durante 21 anos – de 1964 até 1985 – o governo militar brasileiro impôs um regime autoritário que violou os direitos civis e instalou a ditadura em nome da ‘Liberdade’ e da defesa da ‘Democracia’, com graves consequências para toda a América Latina.
Ano: 2012; Direção: Camilo Tavares


curso Psicologia do envelhecimento

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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