É possível outra velhice?

Experiências reais comprovam o que os estudos demográficos vêm mostrando a partir de meados da primeira década deste século. Os velhos de hoje não se comportam nem são exatamente o que se espera de um vovô. É a geração que fez uma grande revolução de comportamento, e que agora está chegando aos 60 até 70 anos. A atual geração de idosos tem a seu favor a experiência, uma vez que é pioneira pela segunda vez, pois são herdeiros da contracultura dos anos 60, da geração que fez a revolução sexual, e agora da velhice.

Lilian Primi * Foto: Sidnei Martins

 

e-possivel-outra-velhice– Então, você continua usando drogas? – Hã, como? O que você está pensando? – Sem saber se ficava bravo ou se ria, o velho chacoalhava as mãos ao lado das orelhas, como se pudesse desfazer a pergunta no ar. O velho é o poeta Claudio Willer, hoje com 74 anos, precursor do movimento beat no Brasil, o terror da São Paulo dos anos 60, amigo e parceiro intelectual de Roberto Piva – outro poeta ainda mais maldito. E na cabeça da repórter, interessada em vasculhar sua velhice, passavam as histórias que tinha lido e ouvido sobre aquela turma desde muito tempo.

O pretexto da entrevista era buscar experiências reais do que os estudos demográficos vêm mostrando a partir de meados da primeira década deste século. Os velhos de hoje, que em parte são os hippies de ontem, não se comportam nem são exatamente o que se espera de um vovô. “É a geração que fez uma grande revolução de comportamento, principalmente entre as mulheres, e que agora está chegando aos 60 até 70 anos”, diz a economista Ana Amélia Camarano, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e vice-presidente do Conselho Nacional dos Direitos do Idoso.

Ana é autora do livro Os Novos Idosos Brasileiros – Muito Além dos 60?, em que detalha esse novo perfil, e também coordenadora do estudo Novo Regime Demográfico, e afirma que vivemos um momento de contração da população, associada a um superenvelhecimento. Movimentos em certa medida provocados pela vitória de parte dos ideais da geração Paz e Amor. “Tivemos a pílula, na questão reprodutiva, que desvinculou o sexo da maternidade; e a legalização do divórcio. Hoje ninguém mais casa virgem e há uma tolerância muito maior com a homossexualidade”, explica. A pesquisadora diz que ainda resta muito do antigo conservadorismo, mas liberdades que estavam na pauta da militância dos anos 60 hoje estão disseminadas por toda a sociedade, incluindo a classe média, sempre preocupada em preservar os costumes. “Porque depende de aceitação social”, explica Ana.

O superenvelhecimento da população se dá porque essas mudanças nos arranjos sociais acontecem ao mesmo tempo em que cresce a expectativa de vida, graças aos avanços da medicina. “Hoje há uma supervalorização da carreira profissional da mulher associada à desvalorização da maternidade. Isso veio depois, com forte ajuda da mídia, e está nos levando a um grande desequilíbrio. Somos uma sociedade que não se reproduz. Está difícil nascer e (por conta dos avanços da medicina) está difícil morrer também”, avalia Ana Amélia. “Se você for ver as novelas, revistas femininas, tudo mudou”, continua. “A mídia valorizou demais certos aspectos da revolução social”.

Por exemplo, se antes a família feliz das novelas era aquela em que havia um casal com muitos filhos, em que a mãe sempre aparece de avental; depois da revolução de costumes, essa mesma família feliz da ficção tem poucos ou nenhum filho e a mulher é uma profissional invariavelmente bem colocada e independente. “Também não há mais um padrão como antes, em que havia um casal com filhos onde o homem é o provedor e a mulher, a cuidadora doméstica. Hoje se aceita todo tipo de arranjo, incluindo famílias de casais homossexuais, mesmo idosos, como nesta última novela da Globo”, aponta Ana. As projeções, não apenas no Brasil, indicam que a população irá começar a diminuir em, no máximo, 20 anos.

Velhos Pioneiros

Neste novo cenário, as pessoas com mais de 60 anos estão inovando também na forma como encaram os problemas e limites da velhice. “Costumamos ver a adolescência como a idade que inventa novas formas de vida, mas quero crer que desta vez teremos uma geração de velhinhos pioneiros. A clínica vem mostrando isso de forma radical e inquestionável”, diz o psicólogo Christian Dunker, professor do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, graças aos recursos virtuais, hoje só permanece viúvo ou viúva quem quer. “Ou quem resiste às novidades. Só fica limitado sexualmente na terceira idade quem tem preconceito contra Viagras e Cialis, por exemplo”, argumenta. Sentado na mesa do café, com um copo de soda italiana nas mãos, Willer parece como tantos outros da mesma idade. A transgressão está nas escolhas que fez, expressas na sua poesia. Nos anos de 1960 morava sozinho numa quitinete vizinha ao apartamento de seus pais, na esquina da Nove de Julho com a Major Quedinho, no centro da cidade; transformado em sede da contracultura paulistana.

Apesar das farras e bebedeiras, fazia duas faculdades (psicologia e sociologia e política), lia e escrevia freneticamente e era um agitador cultural conhecido pelos saraus de poesia marginal, eventos que frequentemente provocavam escândalos, mas sempre de alta qualidade literária.

Sua rotina hoje não é muito diferente, com exceção dos escândalos. Mantém o mesmo roteiro de estudo-arte-balada. “As ações mais diretas, não me arrependo delas, mas numa certa altura ficaria redundante. Saio para dançar ou alguma programação”, diz. Vive de dar aulas, oficinas e workshops e continua escrevendo. O poeta mantém um blog na rede, com um público médio de 900 pessoas por dia, que considera muito bom, já que não é exatamente um artista de massa. É verdade também que hoje é bem mais difícil provocar escândalos, graças justamente à ação de pessoas como ele. Ainda mora sozinho, embora não mais na quitinete do centro, pois não se casou nem teve filhos por opção ideológica. “Nem me passa pela cabeça ter família. Sou um anarco-individualista. Afinal, ou se é contra a instituição ou não!”, afirma.

Questionado a respeito do medo da solidão, um temor característico da idade, reage surpreso. “Que solidão? Não tem solidão. Apenas não me casei. Tive companheiras, mas nunca tive vontade de ter filhos. Sei lá por que. Gosto de ser eternamente freelancer”, justifica. Ele reafirma as escolhas que fez no passado. “Aprontar, insultar literatos, fazer manifesto, agitar, fazer farras, eu absolutamente não me arrependo e faria muito mais se pudesse”. Limitações? Apenas financeiras. “Hoje, se fosse manter o mesmo ritmo e padrão de consumo da minha juventude, ia à falência. E naquela época eu vivia de mesada”, diz. Tem ótima saúde.

Sobre o que seriam “ações mais diretas”, ele sugere a leitura de Dentes da Memória, um relato franco sobre os tempos da quitinete, feito por ele, Roberto Piva, Antonio Fernando de Franceschi e Roberto Bicelli, companheiros mais próximos, com participação de Massao Ohno, o editor que revelou todos eles, e também Jorge Mautner, Sergio Cohn, Antonio Bivar, entre outros nomes de peso da cultura de vanguarda. Parte dos escândalos vinha das opções pessoais de Piva, que além de poeta genial e absolutamente anárquico, era um homossexual assumido numa sociedade que achava normal espancar gays, prostitutas e hippies. No relato de Dentes da Memória, há o caso de dois rapazes que foram internados em um manicômio simplesmente por andarem com o Piva. A turma decidiu, uma noite, invadir o hospital e sequestrar os dois.

Coerência ou falta de noção?

Christian Dunker ressalta que a atual geração de idosos tem a seu favor a experiência, uma vez que é pioneira pela segunda vez. “São os herdeiros da contracultura dos anos 60, da geração que fez a revolução sexual criando, ao mesmo tempo, outro modelo do que viria ser uma vida bem realizada”, explica. Não foram atingidos pela imagem de vida feliz que Ana cita dos roteiros das novelas, que iria prosperar depois, nos anos de 1980. “Não são dominados pela narrativa do trabalho-consumo que marcou os babies boomers do pós-guerra. Os nossos velhinhos flowers-power são também, por aqui, os que fizeram e sofreram a ditadura. Quem tinha 20 anos em 1964 e hoje está com 70 anos, está desprovido de uma referência para o que vem a ser envelhecer”, explica o psicólogo.

A atriz Maria Alice Vergueiro tornou-se um ícone desse grupo de velhinhos por manter profunda coerência com as escolhas que fez ao longo da vida. Aos 71 anos, virou um fenômeno da comunicação virtual com um bem humorado vídeo, batizado de Tapa na Pantera, termo que designa “fumar um baseado”, sobre sua relação de 30 anos com a maconha. Lançado em agosto de 2006, foi visto até o momento por mais de 6 milhões de pessoas e levantou um grande debate: Maria Alice seria ou não usuária real de maconha? Afinal, ela fuma ou não fuma todos os dias há 30 anos, como diz no vídeo, formalmente classificado como uma peça de ficção? “Sim, fumo, meu neurologista diz que é ótimo para controlar o Parkinson e é mesmo”, garante hoje, oito anos e várias reedições de Tapas na Pantera depois, incluindo uma versão mais completa em livro.

A atriz recebeu a reportagem no apartamento que herdou do pai, no bairro de Higienópolis, com Luciano Chirolli, também ator, 50 anos, com quem vive há 23 anos. “Tivemos um encontro de alma, de arte, de tudo”, diz ele, que conta o tempo ao lado da amada pelo número de peças que montaram juntos. “Estamos juntos há oito espetáculos”, informa. No último, a peça Why the horse? (foto), Maria Alice encena sua morte. Era para ser uma comédia, na linha do Tapa na Pantera, mas as pessoas se emocionam. “Existe uma turma que chora na plateia. Levei um susto! A pessoa chorar e me esperar lá embaixo chorando. Juro que eu não entendi….”, diz a atriz.

“É um público fiel dela, que fica muito tocado ao vê-la entrar sem a cadeira de rodas. Encaram como uma superação”, explica Luciano, que além de ajudar no dia a dia e na arte, é o seu cuidador. Ultimamente também ajuda “dando” (dizendo, no jargão do ator) o texto quando o Parkinson a faz tropeçar nas palavras. Foi assim na entrevista e é assim em cena. Hoje com 80 anos, os cabelos já todos brancos e dificuldade de movimento por causa de complicações ocorridas depois de uma queda – uma bactéria se alojou na prótese que tem no joelho –, a atriz se prepara para uma cirurgia. “Até lá, estamos controlando com antibióticos, para evitar que essa bactéria se espalhe pelo corpo”, explica o parceiro.

A rainha do underground, a tetaraneta do Conde Vergueiro, professora da USP que deu as costas para sua classe e fugiu com o circo – ela tinha então 16 anos de magistério; a atriz famosa e mãe que foi na TV dizer que gosta de namorar com meninos e meninas, que viveu uma relação afetiva com 20 pessoas ao mesmo tempo, não ia ficar sentada esperando a hora chegar. Enquanto espera a cirurgia, Maria Alice segue com apresentações de Why the Horse? e negocia a venda de uma turnê para o Sesc. E faz planos. “A gente não poderia… pensei nisso agora, vender o meu velório? Hoje em dia tem funerárias que compram. Pode até ter música”.

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* Lilian Primi, na Caros Amigos

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