E eu… quem sou eu exatamente?

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Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana. (Marguerite Yourcenar)


É inevitável não pensar em como os filmes nos levam a caminhos tão diferentes, em análises tão particulares, a depender das experiências que travamos e enfrentamos ao longo da vida. Assim como muitos, ao assistir “Meu pai”, filme protagonizado com extrema intensidade por Anthony Hopkins, projetei a minha história e perguntei-me: como teria sido se meu próprio pai não tivesse partido ainda de cabelos pretos, jovem, lindo e pleno? Como seria ele lá pelos seus noventa e poucos? Ou melhor, quem seria ele hoje?

Na verdade, essa resposta nunca terei, mas aqui reflito sobre essas questões pelo olhar de minha mãe, no auge de seus muitos anos, consciente do passado, presente e ainda ansiosa pela perspectiva de um futuro saudável e com autonomia.

Como sempre foi, e ainda permanece, ela é a minha mais fiel companheira na viagem pela ficção, seja aquela inventada ou a muito real, como a do nosso protagonista Antony e sua filha Anne que, como eu com minha mãe, acompanha-o nesse vai e vem da memória que escapa e escorre lentamente a cada dia.

Costumo dizer: perde-se um centímetro da presença do outro a cada hora, minuto, segundos claramente perceptíveis. E que saudades que dá dos tempos outrora vividos juntos! Quando os anos se acumulam em quantidades imensas, sente-se que em um momento a pessoa está lá com você, como antes, e no outro, convive-se com a ausência, o processamento lento da informação recebida, algumas vezes quase incompreensível.

Mas a força, a vida e, ao mesmo tempo, o sofrimento, a angústia empreendida por Hopkins ao personagem Anthony, fez com que as palavras, reflexões e depoimentos que se seguem, fossem uma mescla das minhas mais profundas inquietações somadas às de minha mãe, a ponto de eu não conseguir dizer, daqui para a frente, quem é ela, quem sou eu, ou quem é ele, o personagem.

E assim, ela começou, já nas cenas iniciais: não preciso de ninguém. Essa é minha casa e detesto quando me tratam no diminutivo, referindo-se a fala da cuidadora – “comprimido azulzinho”.

Tenho autonomia e condições de me vestir, tomar banho. Quando eu não souber mais quem sou, aí você pode fazer o que quiser porque não estarei “de fato” mais presente.

A memória por vezes não ajuda, não entendo bem o porquê. Assim como ele, Anthony, a minha vem e vai. Têm momentos em que as lembranças são tão vivas, coloridas, eventos como se ainda estivessem acontecendo, quase posso tocá-los ou cheirá-los. Então, subitamente, sou chamada para alguma coisa de ontem ou de um minuto atrás e nada, já se foi o acontecido.

Olha, não é como ele, não tenho Alzheimer. O que você acha, será que ainda posso ter? Minha mãe não teve e, pelo que sei, não tem nenhum caso da família. Graças a Deus!

Ocasionalmente, acho que tem algo acontecendo comigo, não sei bem o que é, será que é meu corpo, minha pernas que falham? Não, é minha cabeça mesmo.

Imagina… ele, o Anthony, é engenheiro e nem lembra mais. Ou será brincadeira dele para zombar da cuidadora se dizendo um expert no sapateado? Deve ser isso mesmo. Enquanto eu estiver bem, assim como estou, não preciso de nenhuma estranha aqui em casa. Nem pense em colocar alguém, pode cuidar da sua vida que eu cuido da minha.

A cada confusão na memória de Anthony, minha mãe me olha.

Noto que o protagonismo do relógio, da marca do tempo, simboliza o aviso de quem somos, em que tempo estamos, o momento exato que vivemos. Qualquer ameaça a esse Cronos, ao tique taque dos ponteiros, torna a finitude implacável.

“Estou perdendo as minha coisas”, diz Anthony, estou me perdendo de mim. Sei que “Ela” virá, mas que não seja agora, não por enquanto.

Uma janela se abre, e lá está sua meninice, a infância, o menino que brinca, a vida que não retorna, um leve sorriso de um tempo que passou.

E o que fazer com esse sentimento, real ou não, de que minha simples existência incomoda: “Por quanto tempo pretende ficar aqui arruinando nossas vidas?” Seria essa, de fato, a fala do genro?

E a filha Anne? Paris, é isso mesmo? “Você vai me deixar?”

Minha mãe, assustada diz, ao mesmo tempo que Anthony: “E ele?”

Na verdade, ela queria gritar: “E eu?”

O tempo seguiu seu curso, Anne seguiu sua vida, e Anthony ficou com suas poucas lembranças guardadas num local representado por uma escultura de um rosto apenas, sem memória, vazio, perdido em Cronos.

“E eu… quem sou eu exatamente?”

– Catherine, a enfermeira, responde: Você é Anthony.

“É um nome bonito, foi minha mãe que escolheu. Ela tinha os olhos grandes. Espero que minha mãe venha me ver um dia. Quero que minha mãe venha me buscar. Sinto que estou perdendo minhas folhas, galhos, vento e chuva.

Não sei o que está acontecendo, não tenho mais um lugar para encostar a cabeça, mas meu relógio está no meu pulso para a passagem… senão, eu não saberia se estaria pronto para…”

Eu diria, se comigo Anthony estivesse: “Fique tranquilo, vamos passear, eu e você, tem sol lá fora, tem verde molhado, tem cheiro de mato, tudo voltará a ser como antes.”

E certa vez minha mãe, já toda prateada pelo correr dos anos, sonhou com seu querido de cabelos pretos que, sentado no banco da praça, acenava para ela, chamava: “vem, estou esperando”.

Ela respondeu: “Ah, eu queria tanto, mas não… ainda não, me deixa ficar um pouco mais, só um pouquinho, a vida é tão boa.”

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=yJW4szoZX1U


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Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: [email protected]

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