Duas vezes pai

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Feliz Dia dos Pais aos pais e avós capazes de cravar na memória o mais verdadeiro sentimento de amor que protege e nos guia pelos caminhos da vida.


Sei que não sou um garoto de oito anos comum. Se eu encontrasse uma lâmpada mágica e pudesse fazer um desejo, pediria coisas que certamente meus amigos não pediriam.

Nada de bola de futebol, nada de querer ser astronauta ou querer um patinete elétrico.

Pediria para ter meu avô para sempre comigo, assim a vida seria uma eterna brincadeira e eu gosto é de brincar. Tem coisa melhor do que meu avô?

– Vô? Onde você está? Vamos jogar bola?

– Espera eu tomar um cafezinho.

– Não demore que queremos brincar.

Essa coisa do meu vô tirar uma soneca depois do almoço é perda de tempo. Ficamos nós dois, eu e meu irmão esperando por ele com a bola já na mão. Ele diz que parecemos sua sombra, também pudera, ele faz todas as nossas vontades e sei que somos grandes amigos dele.

Nossa irmã, tadinha, fica fora das nossas brincadeiras e quando ela não está com a vovó, está com o cachorro salsicha que adora ela. Por vezes ele interrompe nosso jogo quando resolve atravessar o campo de futebol com seus passinhos de cachorro velhinho. Meu vô bem que gosta pois somos obrigados a fazer um intervalo e respirar um pouco, como ele diz.

Até parece que não respiramos ao jogar. Esse vô tem cada uma.

Minha mãe tem mesmo muita sorte, imagine só que ele é o pai dela. Também tenho sorte pois adoro o meu pai que brinca muito com a gente, mas ele não é um avô. Avô é avô e é diferente de tudo. Quando eu era bem pequeno também quis chamá-lo de pai.

– Por que meu pai está demorando? Dizia olhando pela janela no colo de minha mãe.

– Filho ele não é o seu pai. Ele é o meu.

– Mas você me empresta?

Claro que ela emprestou. Vai ver por isso que dizem que o avô é o segundo pai já que o tomamos emprestado.

foto: arquivo pessoal

No aniversário dele minha mãe nos reuniu para perguntar o que poderíamos dar de presente. A resposta estava na ponta da língua. Meu irmão e eu decidimos que nosso avô deveria ganhar um troféu. Claro que minha irmã também gostou da ideia, então lá fomos nós à loja de esportes escolher o que ele merecia ganhar.

Escolhemos a maior taça que tinha na vitrine e seu parabéns foi digno de campeão do mundo. Batemos palmas de tanta alegria e nossos olhos brilhavam daquele jeito que só olho de criança brilha.

Sei que eu e meu irmão seremos para sempre seus melhores amigos e ele sempre será o nosso.

– E aí vô? Terminou o café?

– Vô, vamos brincar?

Dá para desocupar o vovô que ele tem mais o que fazer? Implorávamos para que nossa irmã saísse do colo dele. Que coisa.

Sei que o tempo vai passar e nós iremos crescer assim como o vovô que também vai continuar crescendo.

Um dia pedi para meu avô prometer que ele nunca iria morrer, mas ele disse que um dia todo mundo morre.

Resolvi não pensar mais nisso e continuar brincando já que meu irmão mais velho falou que pessoas que se amam nunca se separam. Ele é maior do que eu e sabe das coisas.

Sempre falamos que ele é o melhor vô do mundo. Agora que ele tem o troféu, o título foi formalizado. Nada mais justo.

– Vô, cadê você? Estamos te esperando para colar as figurinhas. Vem logo Vô!

– Meninos, deixem seu avô em paz um pouquinho. Vão brincar vocês três, vejam só o tanto de brinquedos aí na cesta.

– Mas mãe, o vovô é melhor que qualquer brinquedo, disse o mais velho.

– Ele deixa eu fazer cavalinho na barriga dele, disse a menina.

– Mãe você não está entendendo. Ele precisa ficar com a gente.

– Vô, diz para ela que você é nosso melhor amigo.

Claro que não foi preciso dizer nada, minha mãe é uma boa filha e sabe que o melhor a fazer é deixar meu vô brincar.

Feliz Dia dos Pais aos pais e avós capazes de cravar na memória o mais verdadeiro sentimento de amor que protege e nos guia pelos caminhos da vida. Ao meu pai, o melhor do mundo, todo carinho que jamais caberá em um texto, por mais que eu me esforce. Amo você.

Imagem destaque de StockSnap/Pixabay


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Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: [email protected]

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