Duas mulheres velhas e um velho em Round 6: breves reflexões (Atenção, contém spoiler)

Tempo de Leitura: 5 minutos

Round 6 nos convida à reflexão de como a construção das personagens delineiam e propagam valores em relação ao envelhecimento, em que é apresentado, principalmente, na fragilidade, numa abordagem que reforça preconceitos.


Round 6, série de sucesso da Netflix (1), tornou-se centro de discussões e considero que seu sucesso de público possa estimular reflexões e olhar crítico para as relações humanas. Nos episódios podemos reconhecer o machismo, a desigualdade social, os preconceitos, a violência de gênero, o desemprego, consequências da falta de acesso à saúde pública, gerontofobia e, além disso, o governo do homem endividado, nos obriga a questionar: como viver sem condições mínimas de dignidade?

“Round 6” acompanha um grupo de 456 pessoas extremamente endividadas que se arriscam em provas mortais em busca de uma farta premiação em dinheiro. Os participantes que não conseguem cumprir as etapas são mortos. No fim do jogo, o sobrevivente recebe o prêmio. A premissa da série não é exatamente original, ela faz parte de um gênero narrativo que vem ganhando cada vez mais popularidade: os chamados “Death Games”, ou jogos da morte em bom português.

Apresentada em episódios, acompanhamos a disputa, literalmente mortal, de um grupo de pessoas que participam de jogos infantis – estátua, bola de gude, cabo de guerra, jogo de amarelinha -, tudo acontece em um cenário colorido que nos remete a espaços de brincadeiras para crianças.

No decorrer dos episódios tomamos conhecimento das histórias de vida de jogadoras e jogadores que têm em comum dívidas e a falta de perspectivas de futuro. Jogadoras e jogadores são levados a esse complexo localizado em um lugar isolado, revelado, em certo momento, como uma ilha. O prêmio para a vitória? A vida e muito, muito dinheiro, que apenas um vencedor – regra do jogo – deve receber.

Todos são identificados apenas por números (2), colados em suas roupas esportivas – calças, camisetas, jaquetas e tênis – prontos para disputas. No intervalo entre os jogos, o ambiente em que todos convivem lembra um dormitório coletivo que é, também, local onde recebem orientações sobre as disputas. Estão aprisionados e vigiados. Esse espaço de convivência coletiva, transforma-se em local para criação de alianças, para eliminação traiçoeira de outros “jogadores” que possam representar ameaça para vitória e, também, de vinganças. Todos jogadores e jogadoras têm em comum dívidas acumuladas e “impagáveis” – resultado de vício em jogos, roubos, investimentos financeiros arrojados – e, como promessa de redenção, no teto do dormitório, em local visível e central, presente, um grande balão transparente expõe a fortuna-prêmio.

Os jogadores são adultos, jovens, homens e mulheres como apenas uma excessão – e devidamente identificado com seus movimentos lentos, aparência frágil -, um velho, o jogador 01. Do enredo da série fazem parte outras duas pessoas idosas: a mãe do jogador 456 e a mãe do jogador 218, além de uma aparição rápida de uma vendedora de flores, e aqui chegamos à questão dos modelos de velhice apresentadas.

Onde estão os velhos?

Conhecemos o jogador 456, protagonista da série, em seu ambiente doméstico. Separado da esposa e com uma filha, vive com a mãe idosa e podemos reconhecer episódios de violência financeira que pratica contra ela, além de sua atitude negligente no cuidado com a velha. Viciado em jogos, 456 rouba dinheiro de sua mãe para apostas e aproveita-se da relação dela com a neta para manipulá-la. A mãe idosa é quem mantém a casa e o único momento em que emite uma queixa é para que 456 lembre-se do aniversário da neta.

O jogador 218, co-protagonista, é o orgulho da mãe idosa que fala sobre o filho sempre que pode e faz questão de contar a todos sobre seu sucesso e sua importante carreira. Sua ausência está sempre justificada pelas viagens de negócios ou por ser muito ocupado. Trabalhando arduamente em uma barraca de venda de alimentos na rua, tem como sonho possuir uma loja “de verdade”.

O jogador 01, único velho entre os jogadores e assim identificado, muitas vezes, vítima de preconceitos e menosprezado, por vezes apresenta-se frágil e, por outras esperto e com ideias que levam a vitórias nos jogos devido à sua experiência. Durante os jogos tem toda simpatia do jogador 456 que o protege e acolhe em seu grupo.

Ao final, sabemos que 01 era o grande articulador e fundador daqueles jogos mortais, criou a disputa e participava anonimamente por prazer, por diversão e para recordar de suas brincadeiras de criança quando “era feliz”. Um único velho “está no jogo” e, na verdade, não está jogando!

As velhas mães dos jogadores 456 e 218 são desprezadas, esquecidas pelos filhos, mas apresentam-se abnegadas, protegem-nos e se sacrificam por eles. Ambas sofrem silenciosamente, a mãe de 456 com ferimentos nos pés pelo esforço e longas caminhadas; a mãe de 218 sozinha, trabalhando arduamente, gentil, cuida de todos a sua volta, inclusive de 456.

É a velha mãe do jogador 218 que, sem saber que o filho estava morto, recebe ao final da temporada a incumbência de criar uma criança órfã, irmão de uma das participantes mortas no jogo.

O velho 01, manipulou, organizou e construiu toda disputa para seu prazer e para relembrar suas diversões infantis de “quando era feliz”. Mesmo em seu leito de morte quer ter o controle sobre a vida do outro, em uma última aposta com 456.

Segundo seu criador, a trama de Round 6 é uma alegoria (3) da sociedade capitalista e aponta para a centralidade do dinheiro, a competição sem limites, a desumanização, a meritocracia do “vence o melhor”, porém, aqui quero lançar olhares sobre a velhice que se apresenta, por meio de algumas questões:

– Onde estão os velhos? Apenas os jovens vivem e batalham por sua sobrevivência no cotidiano?

– Os velhos estão fora do jogo no sistema capitalista?

– A velhice deve sempre estar associada com a fragilidade e debilidades físicas?

– As mulheres velhas devem sempre estar associadas ao sacrifício pelos filhos e netos?

Trago aqui um convite à reflexão de como a construção das personagens em Round 6 delineiam e propagam valores. O envelhecimento é apresentado, principalmente, na fragilidade, numa abordagem que reforça preconceitos. Sempre importante lembrar que o cinema pode ser instrumento para processo educativo e na construção de novos imaginários, neste caso, dos velhos.

Notas
(1) Round 6 é uma produção sul coreana, dirigida por Hwang Dong–hyuk, com nove episódios e que já foi assistida por mais de 132 milhões de pessoas em mais de 90 países e em apenas 23 dias. É a série mais bem sucedida da história da Netflix e que questiona o sistema capitalista. Segue o mesmo gênero de “Jogos Vorazes” e “Jogos Mortais”.
(2) Interessante notar que ao criarem alianças para os jogos e para sua proteção, os jogadores e jogadoras procuram saber os nomes uns dos outros.
(3) Figura de linguagem. A alegoria consiste na criação de “um conjunto de metáforas a respeito de um mesmo objeto, criando uma espécie de noção referencial para tratá-lo ou defini-lo.” Disponível em https://figurasdelinguagem.com.br/ alegoria/. Acesso em 12.out.2021

Fotos: reprodução


Celina Dias Azevedo

Amante da literatura. Doutora em ciências sociais e Mestra em Gerontologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Especialista em Gestão de Programas Intergeracionais pela Universidade de Granada/Espanha, e em Gerontologia Social pelo Instituto Sedes Sapientiae (SP). Colaboradora do Portal do Envelhecimento. E-mail: [email protected] 

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