Doutor sem primário

Dado a excentricidades, seu Mamede era um milionário que primava pela simplicidade. Como todo milionário, era dado a extravagâncias. Mas suas extravagâncias eram todas ao contrário. Começavam de manhã, na garagem. Para sair de casa, ele dependia do estado de saúde do seu velho automóvel Dodge Dart, que estava com os dias contados. O calhambeque já tivera alguns enfartos e não agüentava subir uma ladeira mais íngreme sem tossir fumaça.

Luciana Barreto *

 

Quando tudo corria bem, aquele homem chegava ao escritório, de paletó e gravata. Logo substituía o sapato social por um par de chinelos velhos – e ai de quem os escondesse. Em seguida, a secretária lhe dava bom-dia, e trazia uma pilha de papéis impressos para ele assinar. Mas ele se recusava. Odiava computador e queria que os textos fossem datilografados à máquina. Mas a secretária era mais esperta: poupava seus dedos de uma jornada dupla, imprimindo outra cópia no computador, com uma letra bem parecida com a da máquina. Mamede não percebia a fraude inofensiva, e assinava os papéis. Sua caligrafia era feia – e não era letra de médico. Pelo contrário, ele sequer havia terminado o curso primário.

Difícil acreditar que esse homem foi o pai da maior rede de supermercados da Bahia. Em seus tempos áureos, teve mais de cem lojas espalhadas pelo Brasil. Sua rede de supermercados chegou a ser a segunda maior em faturamento do país. Na Bahia, ele grafou, em cada bairro, o sobrenome outrora anônimo: “Paes Mendonça”. A força do império era tão grande que, por muito tempo, a expressão “Paes Mendonça” virou metonímia, e passou a substituir “mercado”. Mamede veio de Sergipe como mais um imigrante, e destacou em néon seu próprio nome.

Não foi à toa que ele recebeu, das mãos do então deputado Luís Eduardo Magalhães, em 1983, o título formal de cidadão baiano, conferido pela Assembléia Legislativa, e também o título de cidadão de Salvador, dado pela Câmara Municipal. Já era filho adotivo da terra desde muito antes. E soube retribuir à altura a distinção. Afinal, como ele mesmo dizia, a gratidão era a virtude que não podia faltar num homem. Graças a Mamede Paes Mendonça, os supermercados se espalharam pela cidade. Ocuparam desde os bairros chiques às bocadas de periferia, onde apareceriam não apenas perigosos saqueadores de caixas, mas também aqueles pais de família que escondiam um saco de feijão por entre a blusa, porque lhes faltava comida em casa.

Ele nasceu em 1915. Sempre dizia que, se tivesse nascido nos tempos de hoje, nunca teria conseguido deixar de plantar mandioca em Serra do Machado. Talvez seja mesmo verdade, num mundo em que a genialidade de berço assusta os que já estão contratados, e os setores de recursos humanos insistem em ignorar talentos para premiar inutilidades num currículo. Qual o problema de Mamede só dominar as quatro operações básicas se, como ninguém, ele multiplicava e elevava à potência tudo que tocava? Ele nem completou o primário, e sabia muito bem que a vida ensina mais que as teses das universidades. Talvez fosse por isso que, com seu jeito matuto, ele chamasse a todos de doutor: desde um médico ilustre a um humilde funcionário do seu escritório.

*Luciana Barreto é repórter do “Correio da Bahia” em Salvador (BA).

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Fonte: “Correio Repórter, do jornal “Correio da Bahia”

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