Dona Di: encontros agendados há mais de 60 anos

Dona Di cursou Ondotologia na rua Três Rios, no bairro do Bom Retiro (SP), pois nessa ocasião ainda não existia a Cidade Universitária. A sua turma era composta por 14 moças e 32 rapazes. Lembra que elas não eram bem-vindas no mundo acadêmico. Durante a despedida da sua turma de ginásio, o seu professor de Sociologia desejou que os rapazes entrassem rapidamente em alguma faculdade e disse que o lugar mais apropriado para uma moça era dentro de casa. Mas a família de Dona Di valorizava crescimento intelectual e a estimulou a continuar estudando. Sua mãe chegou a cursar até o primeiro ano de farmácia. Seu pai formou-se contador e foi perito-contador do Instituto do Café, era um profissional brilhante.

Áurea Barroso

 

Turma de odontologia da USP, 1945

Visitei Dona Di na semana que antecedeu ao Natal. A sua casa estava repleta de enfeites. Havia vários “papais noéis”, alguns cantavam, outros dançavam, luzes espalhadas pelas paredes, um quadro de Jesus Cristo pintado por seu esposo falecido recentemente na parede da sala. A casa parecia uma lojinha. Uma criança que adentrasse naquele local, provavelmente acreditaria que os seus pedidos de Natal seriam concretizados. Di coloca emoção e amor em cada um de seus gestos. Talvez porque pense como a poeta Adélia Prado que diz que ”a consciência do amor é uma vocação humana, é uma guerra de todos os momentos”.

A mulher e a família

A família de Dona Di era muito católica e por esse motivo combinaram que os primeiros netos receberiam o nome de Aparecida(o) e os segundos Benedito(a). E, assim, ela foi registrada com o nome de Benedita.

Conta com alegria que inicialmente se casou no civil e que por isso o seu pai lhe trancou em casa, até que o casamento religioso se concretizasse. Ele queria assegurar que sua filha se casasse virgem. Casou-se com um comerciante, filho de espanhóis. E para evitar desentendimentos com o marido e também poder cuidar de suas duas filhas, montou o consultório dentro de sua casa.

Depois de alguns anos, afastou-se do consultório para acompanhar os seus netos: os atores Danilo e Rodrigo Faro, durante desfiles e apresentações na TV. Diz que foi muito feliz nessa época: “Eu descobri um outro mundo, cheio de pessoas alegres. Eu que vivia confinada dentro de um consultório, de repente vi o mundo se abrir”. Ambos são filhos da educadora infantil Vera Lúcia Alcazar. Dona Di e sua filha, mais conhecida como profa. Vera Lúcia, atualmente dividem o mesmo apartamento.
Dona Di fazendo ginástica

Cuida do seu corpo. Começou a fazer ginástica aos 40 anos de idade, hoje está com 80 anos, e não parou mais. Durante seis anos fez Yoga e acredita que isso lhe ajudou a viver de forma mais harmoniosa. Atualmente faz ginástica duas vezes por semana numa unidade da Prefeitura do Município de SP, “ginástica própria para terceira idade, com alongamento e relaxamento”. A cada seis meses faz um “check-up” e diz ser uma pessoa vaidosa: “acho que não é porque a pessoa está envelhecida que ela deixa de ser mulher. Os meus netos têm prazer de me apresentar para os seus amigos”. Quando fui entrevistá-la, fiquei aguardando alguns instantes até que ela terminasse de se maquiar.

Vive cercada de familiares que a tratam com carinho. Recentemente, um de seus netos trabalhou na organização de um show de Roberto Carlos, e sabendo que ela é fã do cantor, lhe pediu que a telefonasse. Dona Di disse que Roberto Carlos lhe falou de forma bastante afetiva. E que conversar com o “rei ao telefone foi uma emoção ímpar”.

Dona Di é uma mulher que se delicia com cada detalhe que a vida lhe oferece. Gosta de ler, de fazer palavras cruzadas, de sair sozinha para passear no centro da cidade ora para fazer alguma compra ou simplesmente olhar as vitrines. Às vezes passa horas ouvindo música.

No dia da entrevista, já era tarde da noite, mesmo assim ela fez questão que ouvíssemos juntas o CD do seu neto, o ator Rodrigo Faro, cantando em espanhol. Naqueles instantes ela se desligou do mundo, inclinou-se no sofá e do brilho dos seus olhos brotavam alegria.

A religiosidade

Dona Di é uma pessoa muito religiosa. Disse que sua fé lhe ajuda a viver com otimismo, pois acredita que tem Alguém lá em cima que cuida dela. Sente saudades de seus pais e de sua única irmã, que faleceu recentemente. Mas acredita que eles estão bem. E guarda as fotos deles em um antigo oratório, no seu quarto.

Todo o dia agradece a Deus por ter uma boa saúde e pede proteção para todos os seus familiares, inclusive para namoradas e esposas de seus netos, pois as considera como suas “novas netas”. Enquanto ela falava, fiquei pensando: que sorte tem essas moças. Vão em busca de um amor e encontram logo dois pela frente! Amores diferentes, mas igualmente importantes!

Às terças-feiras reserva um espaço maior para suas orações. Isto porque prometeu a Santo Antônio que se Ele a ajudasse a entrar na Faculdade, rezaria a “Trezena de Santo Antônio” todas as terças-feiras. Acredita que realmente recebeu uma ajuda do Santo, porque no exame apenas caiu questões que ela sabia responder. Naquela época as provas eram orais, na USP. E no momento que o argüidor lhe fez uma pergunta muito difícil, ele foi chamado com urgência ao telefone. Portanto, sente-se na obrigação de cumprir a promessa, pela graça alcançada.

Dona Di ainda nos contou um outro acontecimento que considera milagre, com o seu pai. Aos 66 anos de idade ele teve um câncer que comprometeu quase quatro partes do seu estômago. Os médicos que o operaram disseram que ele não viveria mais do que dois anos. Ele se curou e morreu aos 87, depois de um resfriado muito forte. Sorri ao lembrar que um dia o médico que operou o seu pai encontrou na rua a sua mãe, que estava vestida de preto, e lhe perguntou por que ela não havia lhe comunicado o falecimento do seu marido. Ela lhe disse que ele estava muito bem, inclusive se alimentava de tudo. Esse médico ganhou uma medalha de ouro quando apresentou em um Congresso, na Suíça, o caso de seu pai: cura após o implante com tecidos de animais.

Encontros agendados há mais de 60 anos
Foto da turma do Ginásio

Estudou no tradicional Colégio Ipiranga, da rede particular de ensino, que ficava próximo da antiga Igreja de Santa Generosa, no bairro do Paraíso. Sorri ao afirmar que “naquele tempo, os costumes eram outros”, pois nenhum aluno uniformizado podia entrar para comprar doce numa grande confeitaria que ficava próxima ao Colégio, porque isso significava um desprestígio para a escola.

Diplomados do Ginásio, 1940


Após a formatura, em 1940, os seus colegas de ginásio combinaram que todos os anos eles iriam se encontrar porque não queriam que uns não se esquecessem dos outros. E assim tem sido: eles se reúnem anualmente, desde 1941.

Em 1945, Dona Di formou-se em Odontologia. E os seus colegas também combinaram que iriam se reunir uma vez por ano. E assim também tem sido.

Os almoços da turma de ginásio são realizados em alguma churrascaria e todos da turma de Odontologia foram realizados no Hotel Hilton, da região central.

Durante alguns anos o grupo da Odontologia também participava de uma sessão ecumênica na Igreja Nossa Senhora da Consolação, para contemplar as crenças religiosas existentes no grupo. Mas algumas pessoas ficaram receosas com a violência da região central de São Paulo e essas cerimônias foram suspensas.

Ela nos contou que os encontros são muito agradáveis, “o pessoal brinca e ri muito. Na hora do almoço é proibido falar sobre doenças ou acontecimentos tristes, queremos mesmo é voltar no tempo, até parece que somos universitários nos primeiros anos. Na hora da despedida é muito engraçado porque falamos assim: Até o ano que vem se Deus permitir, porque se Ele não permitir estaremos fazendo Odontologia no céu”. Esses encontros são muito fraternos, eles se encorajam a se cuidar mais de si.

Os ex-alunos sempre comparecem nos almoços, mesmo quando estão fora de São Paulo. Em um dos anos uma colega veio de Los Angeles e outra de Macau. Os professores também participavam. Até pouco tempo o professor Ciro Silva, clínico e radiologista, comparecia acompanhado por uma enfermeira, pois ele estava bastante doente e envelhecido.

O grupo da Odontologia já perdeu vinte colegas. Quando um falece, a esposa, o esposo ou algum de seus familiares continua freqüentando as reuniões. No último encontro, antes do almoço, foi realizada a chamada, conforme a lista da turma, e cada vez que alguém era chamado e não estava presente todos olhavam para o céu e respondiam: presente.

Um repórter está coletando dados sobre o grupo para colocá-lo no livro de “records”, torcemos para que eles consigam!!

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