Direito a se ter saudades – um texto ao meu pai e aos filhos que sentem saudades dos seus

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Quisera eu também que além de ser um direito previsto em legislação, a saudade tivesse uma fórmula para que pudesse ser diminuída, já que ela, incontrolável que é, só faz aumentar na medida em que o tempo passa.


Este não será mais um texto sobre direitos previstos em legislação. É um texto no qual falarei um pouco sobre um direito que não tem previsão legal alguma, mas que faz parte da natureza humana de todo aquele que vive: o direito a se ter saudades. Quisera eu que este direito tivesse uma previsão legal e ainda mais que pudesse ser buscado em alguma via judicial para que a solução da situação tivesse um resultado concreto, ainda que demorado (como costuma ser o trâmite de um processo judicial).

De toda forma, não deixa de ser um direito inerente a todo aquele que vive e que faz parte do longeviver de qualquer pessoa que nutre por alguém um número incontável de sentimentos a ponto de ser a saudade a única coisa que lhe resta quando este alguém se vai, independentemente da idade que se tenha.

Há 03 meses meu pai se foi. Pensei em tanta coisa para escrever para ele, mas seria muito egoísta de minha parte escrever só para ele. Tenho absoluta convicção, conhecendo o pai que tive, que ele próprio pensaria a mesma coisa, em especial pelo coração altruísta e generoso que ele carregou no peito ao longo dos seus 84 anos de vida.

Então, num processo de identificação e de empatia por tantos outros filhos que sofrem, neste que sem dúvida é o ano mais emblemático da existência de nossa geração, tomo a liberdade de escrever também a todos os filhos que sentem saudade dos seus pais e que se identificam com este direito à saudade, tendo como base o que sinto há 03 meses pelo meu pai.

Quando alguém se vai, inevitavelmente, ao nutrirmos por este alguém sentimentos que advém de todas as histórias que compartilhamos na vida, não ficamos sós.

A partir da partida desta pessoa por quem nutrimos os mais incontáveis sentimentos, passamos a ficar acompanhados das lembranças, das histórias, dos ensinamentos que este alguém nos deixou. E como eles são grandes, diversos e inumeráveis. E é daí que nasce nosso direito a se ter saudades.

Não raramente, após a partida daquele que nos deixou, esta pessoa é vista e sentida em alguns lugares que fazem parte desse emaranhado complexo de experiências e situações que nada mais são que a própria vida de quem os viveu.

Sentimos o cheiro e o calor, ouvimos as risadas, lembramos dos gestos, das broncas, dos conselhos, abraçamos objetos pessoais deixados, beijamos fotos, buscamos no fundo da memória o acolhimento daquele olhar e daquele abraço que, até o dia de sua partida, esteve ali, bem ao alcance de nossos braços, ao toque de nossas mãos.

E então é lá, no fundo de nossas memórias mais pessoais e intransferíveis, muitas vezes longínquas e que pareciam ter sido esquecidas, que encontraremos o que buscamos. A pessoa está lá e estará lá para sempre (ainda que boa parte de nossa memória se apague por um processo de diminuição cognitiva um dia, quem sabe?).

A busca por estas memórias e o encontro por meio delas daquele que partiu não é um processo fácil, não tem receita e nem aplicativo tecnológico que dê jeito. Cada um vai encontrar uma maneira única e absolutamente particular de amenizar essa coisa toda que se resume à uma única e complexa palavra: saudade.

Quisera eu também que além de ser um direito previsto em legislação, a saudade tivesse uma fórmula (ainda que mágica) para que pudesse ser diminuída, já que ela, incontrolável que é, só faz aumentar na medida em que o tempo passa.

É, eu sei que você deve estar aí pensando que nem todos têm memórias tão boas e que tentar amenizar este sentimento tão singular é ainda mais complexo.

Sobre isso, penso eu (em minha infinita ignorância e apenas como um ponto de vista), que mesmo quando as memórias não são tão boas, elas ficam lá, gritando o nome daquele que se vai, buscando respostas para questões que não foram resolvidas e tentando-se, tantas vezes, se entender os porquês.

Digo isso porque já vi e já ouvi muitas histórias assim. A dor que advém de relacionamentos complexos ao longo da vida não se ameniza quando alguém se vai e não incomumente os questionamentos são constantes.

Este não é o meu caso, já que minhas memórias são ternas e acalentadoras, mas sei que são muitos os que viveram situações diferentes e que não por isso não sentem saudade como eu, ainda que de um modo diferente.

Se eu pudesse pedir algo ao grande criador do Universo, isso seria uma das coisas: que pais e filhos vivessem em harmonia e que somente memórias boas restassem ao final, na despedida (bom, eu sou um pouco “Alice”, às vezes, mas não custa sonhar, não é?).

Aos que vivem esta situação, se me permitem um conselho, prefiro pensar que a vida sempre se encarrega de colocar as coisas em seus devidos lugares e que se aqui estamos e passamos pelo que passamos, alguma razão há de ter, ainda que racionalmente não se tenha resposta para muitas situações.

Acredito ainda que ser feliz é preciso, já que a vida é uma só e que ela termina sem aviso, sem hora e sem endereço, que cada um age (talvez em exercício do livre arbítrio que tem) em busca do que melhor lhe parece ao longo da existência humana e que não nos cabe julgar os atos alheios, ainda que isso nos cause dor tantas vezes.

Assim, concluindo a humilde consideração que faço, que aqueles que não têm boas memórias para relembrar, possam construir caminhos diferentes e histórias que terminarão mais afetuosas junto aos seus, já que todas as histórias sempre terminam. Pelo que considero uma grande benção, os marcos e legados deixados por meu amado pai e que estarão comigo até o final dos meus dias são doces, ternos, fortes e inabaláveis.

Que sorte eu tenho na vida por ele ter sido meu pai. “O cara”, como sempre digo aos mais próximos. Um ser humano como poucos, daqueles que colocam verdade e coração em todas as coisas que fazem.

É, meu pai, não está sendo fácil ficar aqui sem você. Ao menos sem a sua presença física. Sem as frases sempre tão suas, sem a sua participação na rotina da casa e no caminhar dos dias.

Mas sei que, como o Senhor, tantos outros pais agora são lembrados por seus filhos que também ficaram depois que eles partiram e que compartilham comigo desta mesma saudade, tenha ela a forma que for.

Então, é pelo Senhor e por todos eles que deixo registrado meu direito a se ter saudade. O direito a rememorar todas as nossas histórias, sem prazo e sem pressa.

É por tudo isso que escrevo e também para que o Senhor saiba que eu vou te amar para sempre, que tenho por ti apenas amor e gratidão como resumo de nossas memórias mais afetuosas, e para que todos que se identificam com este sentimento tão indefinido que é a saudade que é preciso senti-lo e vivê-lo, da maneira mais intensa e verdadeira que se consiga.

Ainda que os tempos sejam outros, nos quais a sociedade tem buscado ressignificar e reaprender uma infinidade de coisas, não tem nada de normal ou de novo normal quando nossos pais se vão, ao menos não nos títulos de filhos que carregaremos para todo o sempre. Isso é nosso, é imutável. Assim como as memórias que carregaremos deles.

A única coisa nova e que não precisa de ressignificação alguma é que o direito a saudade pode e deve ser exercido todos os dias, já que isso independente de qualquer coisa que não seja de nós mesmos e eu o estou exercendo.

Gratidão, meu pai. Gratidão aos leitores filhos. Até qualquer dia!

Foto destaque de Sharon Snider no Pexels


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Natalia Carolina Verdi

Natalia Carolina Verdi

Advogada, bacharel em direito pela Universidade São Judas Tadeus, cursou Especialização em Direito Médico, Odontológico e Hospitalar pela Escola Paulista de Direito, Especialização em Direito da Medicina na Universidade de Coimbra, e Mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. É professora convidada de cursos de pós-graduação e palestrante nas áreas do Direito e da Gerontologia. OAB/SP 237.141. E-mail: nvadvogada@gmail.com

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