Deus? A fé em tempos de pandemia

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Embora saibamos ser a morte um processo natural da vida, ainda assim, ela nos causa comoção, tristeza, sofrimento e dor. Mas, a força para superar esse momento está na proteção de Deus.

Waldenyr Caldas (*)


Nesse interregno pandêmico em nosso cotidiano, onde boa parte da população foi compelida pela necessidade e o bom senso a ficar reclusa, confesso que, por motivos pessoais, como tantas outras pessoas, fiquei também um pouco recôndito e reflexivo. As experiências vividas por todos nós, permite-nos saber que quase sempre o isolamento nos leva a reflexões das mais pueris, até pensarmos seriamente em nossa própria existência. É bastante provável que muitas cabeças no mundo, nesse momento, tenham passado por esse processo de reflexão e muitas outras ainda estejam a refletir sobre o que estamos vivendo. Aqui em nosso País, é mais fácil poder afirmar isso. Afinal, estamos acossados por uma pandemia agônica e devastadora que parece não cessar mais.

De acordo com a OMS, cientistas e especialistas em infectologia, este vírus não desaparecerá propriamente. Poderá, isto sim, diminuir sua agressividade e incidência, mas permanecerá entre nós. Seja como for, é algo muito assustador termos que conviver com um sinistro mensageiro da morte, ainda que debilitado.

Como tantas outras pessoas no mundo, vejo nossa liberdade de aproveitar a vida reprimida por um vírus extremamente virulento, oportunista e com fome de morte, que vem desafiando todo o conhecimento científico acumulado pelo homem até nossos dias. A ciência sabe muito pouco sobre ele. Mas, não é uma “gripezinha” como disse nosso presidente que, logo depois de seu pronunciamento, também foi contaminado e constatou na prática, por experiência própria, seu erro de avaliação desse terrível inimigo público.

As autoridades mundiais das organizações de saúde não se entendem, se contradizem, e a ressonância disso nos países é a desinformação acerca de um procedimento mais eficiente. Todos devem lembrar que, no início da pandemia, as instruções das autoridades era para que não usássemos máscaras. Depois de poucas semanas o aconselhamento era usar máscaras.

Atualmente, o uso delas é obrigatório e em alguns estados e cidades brasileiras ganhou até “status” de lei, sob pena de pesada multa para quem não o fizer. Ora, é claro que essas instruções desencontradas e desconectadas umas das outras, no caso do nosso país, criam uma situação de insegurança reforçada ainda em grande escala pelo poder Executivo do Estado, seguramente o maior aliado dessa pandemia. Diante desse quadro nebuloso, surge a esperança de uma vacina ainda em fase de testes, mas com boas chances de tornar-se realidade em futuro próximo. Até lá, meu caro leitor, ficaremos na expectativa de dias melhores para sairmos do caos que nos foi imposto pelo imponderável (…).

Pois bem, mas diante da real e iminente ameaça de morte, em um misto de desespero, sofrimento e agonia por verem seus parentes e amigos sendo ceifados por um inimigo invisível que pode surgir a qualquer momento, de qualquer lado, em qualquer lugar durante as vinte e quatro horas do dia, as pessoas invocam a proteção de Deus. É o que resta a muitos milhões de seres humanos aflitos.

Com pouquíssimas exceções, as autoridades públicas já não merecem o crédito necessário nem mesmo para aliviar a angústia de quem espera a morte, ou a notícia sobre ela de um parente arquejante e asfixiado no leito do Hospital à espera de um respirador artificial para tentar postergar o dia fatal para sua vida ou, enfim, seu renascimento. É possível que o trabalho incessante dos cientistas em todo o mundo possa vir aliviar esse medo e essa angústia coletiva, com a criação da vacina capaz de extirpar este grande mal (…).

A crueldade deste cenário reaviva e torna mais presente a força das religiões, da crença, da onipotência e da onipresença de Deus. É a forma que as pessoas encontram para ter esperança, mas também a guarida contra o possível sofrimento e dor pela morte do seu ente querido. É a procura do consolo e até de um certo alívio, porque afinal, “Deus quis assim…”. É necessário entender e respeitar essa crença. Immanuel Kant já nos alertava da necessidade moral de acreditarmos em Deus, e logo abaixo discutiremos essa questão.

Embora reze a Constituição que o Estado brasileiro é laico, ou seja, oficialmente imparcial no tocante às questões religiosas, garantindo plena liberdade a todos os credos, a predominância em nosso país se faz pelo catolicismo. Para nós, não é mais só uma questão de religiosidade, ela é também cultural. Desde a mais tenra idade, já somos dirigidos no âmbito familiar a conhecer o credo católico e a reconhecer na figura de Deus, a autoridade suprema sobre todas as coisas.

É compreensível, portanto, que em momentos de dor e agonia, procuremos o consolo na figura deste ser supremo, entendendo que “Deus quis assim”. Esta é uma frase bastante recorrente entre pessoas quando perdem seus entes queridos. Algumas, às vezes até não verbalizam, mas se resignam pensando dessa forma. A decisão de Deus, nesse caso, serve de consolo para que a filha assimile a morte de seu pai, de sua mãe ou de qualquer um ente querido. Deus, por ser onipotente e onipresente é, portanto, a única e legítima autoridade suprema que pode decidir, por exemplo, pela morte ou não, de qualquer pessoa se assim entender.

Não por acaso, um provérbio da sabedoria popular, “o futuro a Deus pertence”, se tornou tão popular não apenas no Brasil, mas também em outros países. Ele é nada mais que um produto da Fé. Embora saibamos ser a morte um processo natural da vida, ainda assim, ela nos causa comoção, tristeza, sofrimento e dor. Mas, a força para superar esse momento está na proteção de Deus.

Esta crença plena e convicta na figura de Deus está presente em todas as religiões, desde os tempos mais remotos da civilização.

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(*)Waldenyr Caldas – professor titular da Escola de Comunicações e Artes da USP. Matéria publicada no Jornal da USP em 04/09/20.

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