Desordem, mudança e envelhecer em tempos de pandemia

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Nossa sociedade, utilitária, imediatista e volúvel, se afasta das reflexões sobre a vida, o envelhecer e a morte, tanto das pessoas quanto do ambiente no qual vivemos.


Em artigo escrito recentemente, e publicado no jornal La Croix, Danielle Rapoport alerta que a crise sanitária causada pelo Covid-19 incidiu e fortaleceu o foco preconceituoso e ambivalente sobre a população idosa, reforçando a marca/estigma que os qualificam como frágeis, vulneráveis, de risco, entre outros, revelando o imaginário ambivalente e complexo face ao envelhecimento e ao envelhecer, e o fato do qual a sociedade contemporânea se afasta – a nossa mortalidade.  

Nossa sociedade, utilitária, imediatista e volúvel, se afasta das reflexões sobre a vida e a morte, tanto das pessoas como do ambiente no qual vivemos – degradação de espaços, meio ambiente e relações pessoais. Edgar Morin, reconhecido pensador francês, ainda ativo aos 99 anos, nos alerta, em escrito recente, sobre as previsões que já vinham sendo feitas, inclusive por ele, sobre as possíveis catástrofes que se anunciam nesta “cadeia provocada pelo desdobramento incontrolável da mundialização tecno-econômica, incluindo aquelas que resultam da degradação da biosfera e das sociedades”.

Afirma que não tinha pensado em uma catástrofe viral e assinala ainda que, em conferência de abril de 2015, Bill Gates já tinha anunciado que “o perigo imediato para a humanidade não era nuclear, mas sim sanitário”, e ainda apontado que durante a epidemia de Ebola, que por sorte, pode ser rapidamente controlada, ele viu “o prenúncio do perigo mundial de um possível vírus com forte poder de contaminação. Falou sobre as medidas de prevenção necessárias, dentre elas equipamento hospitalar adequado”. Nessa mesma palestra Gattes disse o seguinte:

Quando eu era criança, o desastre que mais temíamos era uma guerra nuclear. Hoje, o maior risco de catástrofe global não se parece com uma bomba, mas sim com um vírus […]. Investimos muito em armas nucleares, mas bem pouco em um sistema para barrar uma epidemia. Não estamos preparados.”

Mas, apesar deste alerta nada foi feito, nem nos EUA ou em outros países, o que, segundo ele, se deve ao fato de que “o conforto intelectual e o hábito odeiam mensagens incômodas”. Afirma Morin (2020):

A crise deveria, sobretudo, abrir nossas mentes há bastante tempo reduzidas ao imediato, ao secundário e ao frívolo, para o essencial: a importância do amor e da amizade para nosso florescimento pessoal, para a comunidade e para a solidariedade de nossos “eus” nos “nossos”, para o destino da Humanidade, dentro da qual cada um de nós é uma mera partícula. Em suma, o confinamento físico deveria favorecer o ‘desconfinamento’ mental.”

Nessa mesma direção, Latour (2020) destaca a importância fundamental de usar este tempo de confinamento imposto para descrevermos, primeiro cada um por si, depois em grupo, aquilo a que somos apegados, aquilo de que estamos dispostos a nos libertar, as cadeias que queremos reconstituir e aquelas que, através do nosso comportamento, estamos decididos a interromper.

Dos estudos na área das Ciências Sociais, por nós realizados, um autor se destacou – o antropólogo George Balandier e a leitura da obra A Desordem. Elogio do movimento (1997, p. 11) que já anunciava a reflexão sobre o saber em tempos de movimento mais incerteza, que caracteriza a sobremodernidade.

Este termo foi utilizado para designar o mundo em mudança, que acreditamos de maior abrangência e significado, do que outros já utilizados, porque transmite a ideia de superposição, acumulação, em que nada é desprezado, mas resignificado, na perspectiva de processo.

A afirmação do autor de que a modernidade é o movimento mais a incerteza   mostra-se adequada para descrever o momento que vivemos hoje, em todos os aspectos da vida privada e social. Diz Balandier:

A época é cada vez menos propícia para uma representação linear do percurso de vida, a uma gestão do tempo que acompanha a duração do tempo sob a única reserva dos cortes atribuídos à má sorte ou à fatalidade. A incerteza prevalece, o presente está para ser conquistado sem prazo determinado e o ciclo da vida individual toma o aspecto de uma corrida de obstáculos. É um tempo onde nada se adquire de forma segura, nem o saber e a competência, nem o emprego ou o período de atividade, nem o apoio social e objetivo que assegura a existência privada.” (1997, p. 172)

Essas palavras, ditas há mais de 20 anos, não parecem descrever o mundo pandêmico atual? Viver em sociedade sempre implicou mudanças, e o autor destaca que a antropologia evidencia, em todas as sociedades, potencialidades alternativas. O germe da mudança está sempre presente e isso move o progresso das culturas, em seus aspectos positivos e negativos. Assim, por que se tem impressão de esgotamento do futuro e não se enxerga como positiva a dinâmica do movimento em sua cotidianidade e complexidade?

Desordem e mudança, inerentes à natureza, são fatores constitutivos das sociedades e dos humanos, dos quais são construtores e constructos, e os desafios estão no cotidiano dos tempos vividos, internos e externos, e a busca de superação dos mesmos é a ação que funda e refunda as culturas.

Referências
BALANDIER, G. A Desordem – Elogio do Movimento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.

Latour, B. (2020). Imaginar gestos que barrem o retorno da produção pré-crise. (Tradução Déborah Danowski).  http://www.bruno-latour.fr/sites/default/files/downloads/P-202-AOC-03-20-PORTUGAIS_2.pdf.

L’aventure au coin de la ride – Erès http://www.editions-eres.com/ sortie le 21 mai 2020 Danielle Rapoport.  Acessível no original em: https://www.la-croix.com/Debats/Forum-et-debats/Vieillir-temps-Covid-2020-05-09/ 01093385.

Um festival de incerteza. Artigo de Edgar Morin – Instituto Morin 2020. Publicado in Humanitas Unisinos – IHU.mht. http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/599773-um-festival-de-incerteza-artigo-de-edgar-morin

Foto destaque de Jan Kroon de Pexels


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Vera Brandão

Vera Brandão

Pedagoga (USP); Mestre e Doutora em Ciências Sociais (PUCSP); com Pós.doc em Gerontologia Social pela PUCSP. Docente. Pesquisadora do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (NEPE-PUC/SP). Editora da Revista Longeviver (https://revistalongeviver.com.br) e Coordenadora Pedagógica do Espaço Longeviver. E-mail: veratordinobrandao@hotmail.com

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