Design para Velhices

Alunos da Faculdade de Belas Artes de São Paulo apresentam trabalhos voltados ao público 60+ em seus TCCs de Design de Produto e Design Gráfico. É a Arte e suas derivas como solução eficiente para as mais diversas velhices.

 

A Faculdade de Belas Artes de São Paulo, nos dias 18 e 19 de dezembro, foi palco do evento BA CREATIVE COLLECTIBLES onde tive o prazer de visitar alguns interessantes trabalhos voltados ao público 60+. Conheci alguns TCCs de Design de Produto e Design Gráfico e ao conhecer algumas soluções encontradas por eles para um viver longevo mais potente, questionava a dificuldade que algumas pessoas ainda têm em compreender a Arte e suas derivas como solução eficiente para as mais diversas velhices. A sala 116 concentrava trabalhos para este público.

O designer de produto Rodrigo Costa apresentou sob a orientação do Professor Sandro Ferraz, uma proposta da criação de um ambiente para as ILPIs (Instituições de Longa Permanência) capaz de auxiliar o idoso a fazer exercícios físicos por meio de um painel fixo na parede com diversos encaixes e materiais que facilitam as diversas atividades oferecidas. Sua proposta inicial era ajudar os idosos a manterem a autonomia pelo maior tempo possível. Ao desenvolver sua pesquisa constatou que o exercício seria o meio mais eficiente para tal. Seu painel se desdobra em diversas possibilidades de atividades físicas e além de oferecer um espaço específico para compartilhar momentos de lazer entre os residentes. Para as ILPIs que fazem uso da mesma mesa para refeições e para as atividades de artesanato, a proposta do Rodrigo é uma opção para um ambiente funcional capaz de oferecer, além das atividades físicas importantes para o dia a dia do idoso, um ambiente de integridade social.

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Em uma linha de pesquisa similar a de Rodrigo, mas desta vez pensando em oferecer aos idosos a oportunidade de se exercitar nas suas casas, as designers de produto Giovanna Carvalho Nicolau e Barbara Mucedola Longo sob a orientação do Professor Marcelo Kammer, criaram um totem de exercícios para ser fixado na parede dos próprios lares onde moram idosos. Para garantir um certo charme, as designers se basearam num movimento de Design Italiano chamado Menphis que propunha através de muitas cores e formas geométricas, peças lúdicas e vibrantes. Um totem, batizado de ETTORE GYM, bem estiloso e moderno, foi pensado por elas que por meio da sua pesquisa propuseram a beleza de uma peça criada para enfeitar a sala e ser uma mini academia particular ao mesmo tempo.

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Ainda na mesma sala o SWZ DESIGN, de Sammy Waissmann, apresentou sob a orientação do Professor Sandro Ferraz a CADEIRA ADAPT que une a ideia do leito hospitalar, da cadeira de rodas convencional, da cadeira sanitária e a de banho em um único produto. A preocupação de Sammy era poder poupar os enfermeiros dos esforços físicos necessários para cuidar de um paciente acamado. Através de trilhos, uma coisa se transforma em outra e em outra. Em sua pesquisa o designer constatou que o custo da sua Cadeira Adapt seria inferior ao custo de um leito hospitalar. Materiais específicos foram pensados para servirem para todas as funções que o produto oferece. Sammy precisou entender as reais necessidades dos idosos fragilizados para buscar a solução em um único produto inteligente e funcional.

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Pensando na avó que mora sozinha e preza a individualidade apesar do avanço da idade, a design de produto Bruna Paiva, sensibilizada com uma queda da sua avó durante o banho, sob a orientação do Professor Marcelo Kammer, resolveu pensar em um secador corporal cuja tecnologia AIR MULTI PLIER, já existente, precisava ser apenas direcionada para o uso proposto. O secador foi pensado para favorecer desde cadeirantes até pessoas altas como sua mãe que, apesar de jovem, por alguma doença específica, viu-se impedida de exercer sua autonomia funcional na hora do banho. São os afetos e o olhar criativo propondo soluções para o dia a dia.

Para a cozinha, utensílios domésticos foram desenvolvidos pelos designers Nathalia Cordeiro e Vitor Casaes, sob orientação do professor Sandro Ferraz para devolver a dignidade e auto-suficiência aos idosos com deficiências motoras. Os produtos por eles desenvolvidos são moldados em um material chamado Santo Preme, um tipo de borracha que se ajusta adequadamente às mãos facilitando, assim, o ato de se alimentar e usar os utensílios de cozinha de maneira autônoma. Desta forma o café muito bem aquecido não precisará ser esfriado antes de ser servido ao idoso. As panelas e talheres poderão ser facilmente manuseadas por idosos com Doença de Parkinson, artrose e outras deformidades e dificuldades motoras comuns aos efeitos do avanço da idade.

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O Design Gráfico também esteve bem representado na sala pela designer Natalia Tieme Ota que introduziu uma discussão sobre o design gráfico para o público 60+. A profissional e autora do artigo de iniciação científica “A influência das cores no projeto de design gráfico para o idoso”, pesquisa pioneira no mercado, traz considerações reflexivas sobre o assunto, abordando os tópicos essenciais para o tema, como cor e design, e os relacionando com informações médicas para idosos sobre as perdas visuais geradas pela degeneração ocular causada pelos efeitos do processo do envelhecimento.

Natalia foi selecionada para participar da CONIC-SEMESP (Congresso Nacional de Iniciação Científica) por dois anos consecutivos. Em 2017 com seu artigo na categoria “em andamento” e em 2018 na categoria “concluído”. Seu projeto é criar uma linguagem dentro do design gráfico com embasamento em seu artigo e com isso aplicar no Estatuto do Idoso e uma revista de própria autoria (VS – Vida Senior). Sendo o Estatuto um material com distribuição gratuita pelo governo, que apresenta as leis, direitos e deveres das pessoas acima de 60 anos. E a VS, uma revista com conteúdo selecionado (incluindo reportagens de grandes veículos de notícia e outras exclusivas), que tem como o objetivo mostrar que para viver e envelhecer bem precisamos ir além de apenas cuidar da saúde.

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Ambos os materiais foram estruturados visando os problemas visuais da população idosa, mantendo um design que é ao mesmo tempo simples e moderno.

Foi uma manhã de trocas de saberes, aprendizado e muita esperança nesta juventude capaz de lançar seu olhar criativo para o próprio futuro. Jovens que enxergam o presente como o caminho para a velhice. Caminho que deve ser construído por todos nós. Jovens e seus orientadores focados em um envelhecer com mais autonomia e beleza. A Arte é o caminho. O Design é a Arte desenhada em forma de produto, linguagem gráfica e pensamento.

Saio da Belas Artes tocada e pensativa. Fé na velhice como potência de vida e na Arte como possibilidade de um viver mais significativo e longevo. Aos jovens ali presentes, os mais sinceros desejos de que estas pesquisas sejam apenas o início deste bonito caminho que começaram a caminhar. Vida longa e interessante, para vocês e para os mais diversos velhos e velhas deste Brasil que começa a se ater para as velhices ainda tão carentes de olhares. Aproveitem a jornada! O caminho é longo mas possível de ser percorrido.

Primeiros passos dados! Avante! A velhice é de todos nós!

 

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: crispomeranz@gmail.com.

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