A democracia das oportunidades

Nossos pais e avós se agarravam àquela, e talvez única, oportunidade que aparecesse. Opções, essas dificilmente existiam nos seus vocabulários. Era aquilo ou aquilo, afinal nunca mais poderia aparecer uma porta a ser aberta, uma alternativa a ser concreta. Atualmente, as oportunidades que muitos da nossa geração possuem, aparecem em letras garrafais.

Pedro Sampaio Minassa (*)

 

Nos últimos anos, com o crescimento da classe média no país, a tendência das novas gerações tem sido cada vez mais contrária àquela tomada pela geração de seus pais, avós e antepassados, salvo algumas exceções. Falo da maioria, porque é com a maioria com quem falo, já que a minoria não está ligando para isso. Muitos de nossos antecedentes passaram por situações de superação para chegarem onde estão e poderem oferecer a seus filhos, o que não tiveram.

Certamente, no Brasil, são inúmeras as situações de pais que não tinham nada, vindos de famílias muito humildes, e que conseguiram fazer o que costumam dizer: “vencer na vida”. Romperam interditos enormes, alguns como a distância, a falta de ensino, de dinheiro e das tão sonhadas oportunidades. Sim, oportunidades no plural, paradoxalmente o bem e mal do século XXI.

Há um trecho brilhante de uma canção, que resume o sentimento coletivo daquela geração inteira e que diz assim: “meus pais não tinham, nem escola, nem dinheiro, todo dia, o ano inteiro, trabalhavam sem parar, faltava tudo, mas a gente nem ligava, o importante não faltava, seu sorriso, seu olhar”.

Atualmente, as oportunidades que muitos da nossa geração possuem, aparecem em letras garrafais. Entretanto, estamos tão vidrados na parede do tempo, ou na tela do celular, que não as percebemos. Não falo de emprego nem nada do tipo, refiro-me ao termo genérico “oportunidades”. Nossos pais e avós se agarravam àquela primeira, e talvez única, oportunidade que aparecesse. Opções, essas dificilmente existiam nos seus vocabulários. Era aquilo ou aquilo, afinal nunca mais poderia aparecer uma porta a ser aberta, uma alternativa a ser concreta.

Entravam de cabeça, pois não tinham muito tempo para sonhar. A democracia das escolhas era coisa do sonho da minoria, enquanto a ditadura da necessidade era a realidade da maioria, fazendo-os arregaçar as mangas e correr para que a situação posta pudesse ser transposta. E venceram, senão todos, quase todos. Como saber se venceram?

Basta buscar um espelho. Somos filhos e filhas desses heróis, podemos nos orgulhar quando falarem, olhando para suas histórias: “quando não tinha nada eu quis, quando tudo era ausência esperei, quando tive frio tremi, quando criei asas voei”. Não esperaram eles o tempo, fizeram a hora, sem esperar que ela acontecesse. Podemos dizer que tiveram sorte? Não diria isso, foi mais, tiveram visão.

Visão de que tudo se pode, inclusive ser aquilo que ainda não se é. A vocação importa, mas infelizmente não foi ela a protagonista quando a fome, a pobreza e a miséria bateram à porta. Hoje, diferentemente deles, podemos ter escolha, podemos sonhar. Vivemos, de fato, uma democracia deliberativa sobre nossas vidas. Temos oportunidades, mas também apatia, ou seja, ainda que o leque seja grande, a vontade de se abanar parece ser maior.

O que tem a ver apatia com falta de sofrimento? O mesmo que permitiu nossos antepassados chegarem onde chegaram? É preciso a ditadura do sofrimento para fazer acontecer a democracia da vontade à nossa geração? Novamente, creio que não, a ditadura nunca é boa, nem mesmo aqui, mas e o que temos feito da democracia das oportunidades?

É hora de agarrar as oportunidades, se não por nossas exclusivas vontades, ao menos a fim de honrar as antecedentes dificuldades.

(*) Pedro Sampaio Minassa, 21 anos, graduando em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo e aluno em mobilidade pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. E-mail:  pedrosampaiominassa@gmail.com

Imagens: Plantadores de Batatas de Jean François Millet

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