Demência frontotemporal é a 2ª causa de demência, após a Doença de Alzheimer

Tempo de Leitura: 5 minutos

O tratamento reabilitatório multidisciplinar para a demência torna-se o recurso essencial na busca do “controle” dos deficits funcionais, cognitivos ou sociais.

Maria Amelia Ximenes (*)


O termo demência origina-se do latim de (privação) e mens (inteligência). Por apresentar sintomas cognitivos e comportamentais, as chamadas síndromes demenciais são caracterizadas pela presença de declínio progressivo na função cognitiva, com maior ênfase na perda de memória e interferência nas atividades sociais e ocupacionais. Entre as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) relacionadas ao envelhecimento, as demências merecem destaque como desafio de saúde pública; pelo comprometimento funcional, afetando tanto os hábitos de vida como o bem-estar do indivíduo, com perda da qualidade de vida, gerando ônus social e econômico.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de pessoas que vivem com demência irá triplicar de 50 milhões para 152 milhões até 2050 e, a cada ano, de 10 milhões de pessoas que desenvolvem a demência, seis milhões delas vivem em países de baixa e média renda. O custo anual estimado para a demência é de US$ 818 bilhões, o equivalente a mais de 1% do produto interno bruto global. Esse valor inclui custos médicos diretos, assistência social e cuidados informais. Até 2030, estima-se que esse valor chegue a US$ 2 trilhões, soma essa que pode prejudicar o desenvolvimento social e econômico sobrecarregando os serviços sociais e de saúde, principalmente os sistemas de cuidados de longo prazo.

Dentre os diversos tipos de demências, a Demência frontotemporal (DFT) é a segunda causa mais comum de demência degenerativa, após a Doença de Alzheimer (DA), em adultos com menos de 65 anos, por isso tem um impacto significativo nas pessoas em idade produtiva. Embora os avanços na neuroimagem e o desenvolvimento de biomarcadores, sejam evidentes, a grande dificuldade, para um diagnóstico preciso, especificar o tipo de demência é diferenciar queixas de memória ou de disfunção cognitiva com os estágios pré-clínicos de algumas síndromes demenciais degenerativas.

Não existe tratamento específico para a demência, somente indicação de medicamentos para controle dos sintomas. O tratamento reabilitatório multidisciplinar torna-se o recurso essencial na busca do “controle” dos déficits, sejam funcionais, cognitivos ou sociais.

Epidemiologia

Devido aos desafios diagnósticos associados à DFT, a verdadeira prevalência dessa doença é subestimada. O número de distúrbios psiquiátricos e neurológicos que podem se assemelhar ao espectro da sintomatologia da DFT podem contribuir para esses erros de classificação e subestimação. Trabalhos epidemiológicos mais recentes estimam uma prevalência da DFT de cerca de 15-22 casos por 100.000 pessoas, entre os 45 e os 65 anos, sendo a vertente comportamental (DFTvc) o subtipo mais prevalente.

O início da DFT é em média 10 anos mais cedo do que a idade de início da demência em geral, por predominar em pessoas mais jovens do que em outras demências. Além disso, apresenta um percentual mais elevado de incidência familiar: cerca de 20% dos casos mostram um padrão de herança autossômico dominante e 40-50% dos casos são reconhecidos pode ter uma história familiar mal definida ou com o histórico familiar intimamente relacionado à doença. Tem igual incidência em homens e mulheres, embora certas variantes mostrem maior frequência no sexo masculino, principalmente demência semântica (DS) e DFTvc. A sobrevida após o diagnóstico varia entre os 6 e os 11 anos, reflexo das diferentes patologias subjacentes. Estudos recentes sustentam uma variação de 5 a 7 anos dos primeiros sintomas até a morte do paciente.

Performance de pessoas com DFTvc

Sua característica evidente é a mudança na personalidade e no comportamento do indivíduo, em relação ao seu comportamento habitual. De início insidioso e curso progressivo e gradual, onde os déficits cognitivos são mais reconhecidos em relação às funções executivas, personalidade e decoro social, com uma manutenção relativa das habilidades visuo-perceptivas, pelo menos até os estágios posteriores.

Em seus estágios iniciais da DFTvc as alterações de personalidade somam-se a apatia ou desinibição, quadro mais acentuado que em outros tipos de demência. A desinibição comportamental é caracterizada por impulsividade ou erro de julgamento, levando a comentários interpessoais inapropriados, excessivos e inúmeras atitudes embaraçosas ou antissociais, como a invasão do espaço interpessoal, toque inadequado ou excesso de familiaridade com estranhos, violar regras legais ou se envolver em ameaças físicas, além de ações impulsivas ou descuidadas, como jogos de azar novos, roubo, tomada de decisão ruim sem considerar as consequências; incongruentes com a personalidade e o comportamento anterior a doença.

Vários estudos entendem que a apatia pode se apresentar de três maneiras: a apatia afetiva quando há indiferença ou não se importa; a apatia motora manifesta-se na diminuição do movimento para mover-se e ao menor movimento geral; enquanto apatia cognitiva é uma perda de desejo de se envolver em atividades orientadas a objetivos. Ela se manifesta pela motivação reduzida em relação ao trabalho ou passatempos anteriores e isolamento social gradual, falta de iniciativa para tomar decisões ou tomar ações, com achatamento emocional diante de situações pessoais ou familiares estressantes. Os indivíduos geralmente precisam ser solicitados a permanecer envolvidos em conversas, tarefas ou mudança de evento. Esse quadro pode ser diagnosticado como depressão patológica ou confundido com um distúrbio psiquiátrico, ou mesmo a depressão.

Uma característica comum na DFTvc é a perda da função denominada “teoria da mente”, comprometida de forma marcante, que possibilita grande parte da integração entre a cognição e o comportamento social. As pessoas com DFTvc raramente têm consciência da sua condição e são trazidos à consulta por familiares que notam mudanças gradativas na sua personalidade e comportamento, apresentando alterações na cognição social, na empatia, nas regulações emocionais, na motivação, na tomada de decisões e algumas apresentam um aumento na criatividade.

A perda de empatia e comprometimento da percepção social são sintomas precoces combinados com a desinibição, apatia, achatamento emocional e indiferença afetiva. Outras respostas que se enquadram nessa categoria incluem insensibilidade e falta de interesse em relação a outras pessoas ou fazer comentários cruéis em relação a outras pessoas. Incluído nessa categoria de sintomas é a indiferença dos pacientes em relação ao próprio diagnóstico de DFTvc e o impacto que isso pode ter sobre os outros, que foi chamado de “anosodiaforia frontal”.

Falta autocrítica e discernimento, além de diminuição da linguagem espontânea e até mutismo. A hiperoralidade e as principais mudanças nos hábitos alimentares também podem se manifestar no DFTvc. Alterações na preferência de alimentos, particularmente uma inclinação para doces ou carboidratos, são comuns e levam ao ganho de peso. A hiperoralidade, com exploração oral ou ingestão de objetos não comestíveis.

Ao longo da doença os indivíduos com DFTvc mostram uma diminuição variável de sua percepção, comportamentos perseverativos, estereotipados ou compulsivos, muitas vezes de qualidade ritualística, podem ocorrer. Comportamentos motores repetitivos simples, incluindo bater, bater palmas, esfregar, pegar e bater nos lábios. Comportamentos mais complexos incluídos nesta categoria são coletar bitucas de cigarro, contar rituais, percorrer rotas fixas ou voltar repetidamente ao banheiro, e podem desconsiderar sua higiene pessoal e até perder o controle do esfíncter. A fala também pode se tornar estereotipada com padrões repetitivos específicos.

As emoções sociais são afetadas pelo comportamento egocêntrico e apático em relação aos outros, incluindo parentes próximos que demonstram preocupações notáveis ​​sobre seu estado de saúde. Além disso, tornam-se inflexíveis quando se adaptam às circunstâncias e rotinas diárias ou perspectivas distintas. Alguns podem demonstrar distração, atitudes perseverantes, pensamento concreto, fala lenta ou ecolalia. Também podem exibir afasia não fluente, caracterizada pela falta de produção de palavras e conteúdo de pobreza de fala. O declínio cognitivo geral desses pacientes pode ser menos grave em comparação com as mudanças comportamentais, por isso a avaliação cognitiva geralmente falha em reconhecer déficits de memória episódicos significativos.

Leia o artigo na íntegra na edição edição 14 da Revista Longeviver.

(*) Maria Amelia Ximenes – Graduação em Terapia Ocupacional pela UNIFOR,Doutorado em Ciências Sociais (Antropologia)emestrado em Gerontologia SocialpelaPUC/SP; Especialização em Psicologia da Saúde pela UNESP/Bauru, Especialização em Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana pela ENAP; Especialização em Neurociências e Comportamento pela PUC/RS. É Servidora Pública Federal do INSS. E-mail: [email protected]

Serviço
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Foto destaque de Kindel Media/Pexels


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Redação Portal do Envelhecimento

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