“Decidimos quem vive e quem deve ser mandado para casa para morrer”

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No início, chegaram alguns, depois dezenas e depois centenas e agora não somos mais médicos, mas nos tornamos classificadores da fita métrica e decidimos quem vive e quem deve ser mandado para casa para morrer, embora todas essas pessoas tenham pago impostos italianos a vida toda.


O artigo de hoje é composto de narrativas que nos revelam a dor em torno do coronavírus. Tanto a dor das pessoas que perdem entes queridos pelo vírus e que acabam ficando sozinhos no hospital e partindo em completa solidão, sem ao menos se despedirem; quanto a dor de um médico que se vê forçado ante inúmeros casos graves de pessoas com o Covid-19 a ter que classificar aqueles que vivem e aqueles que morrem por falta de equipamentos que garantam a vida de todos.

O primeiro relato foi extraído da linha do tempo de meu amigo jesuíta, Jorge Julio Mejia, 80+, mais conhecido por Jota, no dia 25 de março. Trabalhei com Jota em Bogotá, Colômbia, no final da década de 80, um ser espiritual muito especial pelo qual tenho grande respeito intelectual e carinho enorme. A narrativa é de um médico de Lombardia, Itália, país europeu com o maior número de vítimas fatais causadas pelo novo coronavírus, quase 8 mil mortos.

“Nem nos pesadelos mais sombrios eu imaginei que eu pudesse ver e viver o que vem acontecendo aqui em nosso hospital por três semanas. O pesadelo está fluindo, o rio está ficando cada vez maior. No início, chegaram alguns, depois dezenas e depois centenas e agora não somos mais médicos, mas nos tornamos classificadores da fita métrica e decidimos quem vive e quem deve ser mandado para casa para morrer, embora todas essas pessoas tenham pago impostos italianos a vida toda. Até duas semanas atrás, eu e meus colegas éramos ateus; era normal porque somos médicos e aprendemos ciência, onde é ensinado a excluir a presença de Deus; Eu sempre ria dos meus pais indo à igreja. Nove dias atrás, um pastor de 75 anos veio até nós; Homem gentil, ele tinha graves  problemas respiratórios, mas tinha uma Bíblia com ele e ficamos impressionados porque ele lia para os moribundos que seguravam sua mão; Como todos os médicos estavam cansados, desanimados, psicologicamente e fisicamente acabados, quando tínhamos tempo, o ouvíamos; Agora temos que admitir: nós humanos atingimos nossos limites; não podemos fazer mais e todos os dias mais pessoas morrem; E estamos exaustos, já temos dois colegas que morreram e outros estão desempregados; Percebemos que onde termina o que o homem pode fazer, precisamos de Deus e começamos a nos perguntar quando tínhamos alguns minutos livres; Conversamos entre nós mesmos e não podemos acreditar que, dos ateus ferozes, diariamente buscamos encontrar nossa paz, pedindo ao Senhor que nos ajude a resistir para que possamos cuidar dos enfermos. Ontem o pastor de 75 anos morreu; que até hoje, embora tivéssemos mais de 120 mortos em três semanas aqui, todos nós fomos destruídos porque o velho pastor conseguiu nos trazer uma paz durante sua estadia aqui, que não esperamos mais encontrar. O pastor foi ter com o Senhor e em breve o seguiremos. Não estou em casa há 6 dias, não sei quando comi pela última vez e percebo minha inutilidade nesta terra e quero dedicar meu último suspiro em ajudar os outros. Estou feliz por ter conhecido a Deus enquanto estou cercado pelo sofrimento e morte de meus semelhantes”. (tradução livre)

Não sou médica, mas tenho muitos amigos que são e pela empatia com eles fico imaginando o drama que será se forem forçados a escolher quem vive e quem morre, como na Itália e Espanha, pessoas que pagaram impostos a vida toda. Só me resta ficar aqui na torcida e pedir a todos que respeitem a quarentena, quem puder, é claro, para que isso não chegue a ocorrer.

“O direito de dizer adeus”

Os médicos me pediram, em lágrimas, permissão para deixar morrer o meu pai por falta de ventiladores, revelou em suas redes sociais o espanhol Oscar Haro, responsável da formação satélite da Honda no Mundial de MotoGP. Seu pai foi uma das vítimas do Covid-19. Após a morte de seu pai, ele decidiu compartilhar sua história.

“Ninguém devia morrer sozinho. O meu pai começou a trabalhar aos 15 e só parou aos 65. Nunca pediu nada. Na quarta-feira, ele precisava de um ventilador para não morrer e eles negaram-no. O médico chamou-me, em lágrimas, para me pedir permissão para o deixar morrer. Esta é a Espanha que temos. Estamos a deixar morrer estas pessoas. A minha mãe está fechada em casa, sem que possa abraçá-la, beijá-la, consolá-la. Também acusou positivo e não quer ir ao hospital, porque tem medo que a deixem morrer… Na segunda-feira, o meu pai e a minha mãe deram positivo ao coronavírus. Levei-os às urgências. Não voltei a ver o meu pai. A minha mãe pediu para receber alta porque queria cuidar do meu pai. Isolaram-no até morrer, na sexta-feira. Não entendo por que razão morreu. Não entendo como uma pessoa que trabalha desde os 15 anos, sempre a descontar para pagar impostos, morre porque não há ventiladores, porque não o podem continuar a tratar, pois há uma lei que diz que com mais de 75 anos já não interessa cuidar das pessoas e deixam-nas morrer…  Não entendo como o meu pai, que está desde os 15 anos com a sua mulher, não se pôde despedir dela. Só sei que vejo dinheiro por todos os lados, como sempre, e que estamos a deixar morrer uma geração que fez este país sair da guerra, que trabalhava 16 horas por dia para alimentar os seus filhos e criar uma família. Famílias com quatro ou cinco filhos, como a minha que vivia num apartamento com 60 m2 e uma casa de banho, mas onde nunca faltou amor. Não como agora, que temos um ou dois filhos porque somos egoístas. Vejo o meu pai morto, a minha mãe fechada em casa e não posso pegar na minha filha porque tenho medo, pois ela só tem três semanas. Não entendo por que o meu pai não vai poder levar a neta a ver a sua horta…”

Estar só e totalmente isolada num momento como esse é uma experiência que uma amiga, grande parceira de nossa jornada na gerontologia social está vivendo. Ela foi internada com suspeita do Covid-19 e seu marido, médico, automaticamente ficou em quarentena no apartamento. Ela no hospital há mais de uma semana e ele em casa. Em suas velhices se viram isolados e separados, justamente quando um mais precisa do outro. Caso aconteça algo com ela – torcemos para que ela saia dessa bem e oramos por isso ardentemente -, nem despedida haverá. Quer morte mais triste?

Mas a dor das pessoas que entram no hospital sozinhas e que vão embora em total solidão se repete diariamente na Itália, Espanha, Portugal… e agora Brasil. As pessoas partem sem ao menos se despedirem dos seus entes queridos. Na Itália, depois do vereador de Milão Lorenzo Musotto ter escutado a entrevista da médica Francesca Cortellaro, chefe do hospital San Carlo, ele resolveu lançar uma campanha intitulada “O direito de dizer adeus” que usa a tecnologia para oferecer algum conforto a pacientes terminais para que estes possam se despedir de suas famílias. A campanha está arrecadando dinheiro para a compra de tablets, que serão doados a hospitais e clínicas que estão cuidando de quem está morrendo.

É triste se despedir da vida por um tablet? Com certeza, mas ao menos acolhe a dor da despedida de quem vai e de quem fica. Em declaração à imprensa italiana, o vereador disse que “A ideia de não ser capaz de dizer adeus me machuca mais do que a própria morte e existem outros locais com idosos, hospitais e asilos, onde não há mais a possibilidade de se despedir”.

No Brasil esses depoimentos começam a aparecer nas manchetes de nossos jornais. “Nem pude ver meu filho e me despedir”, lamenta Maria Aparecida Martinez, 54 anos, que acabou de perder seu filho, Gabriel Martinez, de 26 anos, morto com suspeita de Covid-19 no dia 21 de março, na Tijuca (RJ). Em declaração à imprensa, ela relata:

“Nem o corpo do meu filho pude ver, o vi durante dois minutos, não pude tocar, nem pude me despedir. Só tenho forças para conversar com a imprensa porque quero alertar para que as pessoas saibam que o vírus não mata só os idosos ou as pessoas com doenças. Meu filho era saudável, nunca entrou em um centro cirúrgico, fez um check-up há um mês e meio e não deu nada”.

O maestro Martinho Lutero, 66 anos, e a maestrina Naomi Munakata, 64, dois velhos super produtivos e ativos, também partiram sem a oportunidade de se despedirem de suas famílias por estarem isolados no hospital. Assim como eles, outros tantos que já se foram e outros mais que, infelizmente, virão.

Foto destaque: Kat Jayne


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Beltrina Côrte

Beltrina Côrte

Jornalista, Especialização e Mestrado em Planejamento e Administração do Desenvolvimento Regional, Doutorado e Pós.doc em Ciências da Comunicação pela USP. É docente da PUC-SP. Coordena o grupo de pesquisa Longevidade, Envelhecimento e Comunicação. CEO do Portal do Envelhecimento, Portal Edições e Espaço Longeviver. Integrou o banco de avaliadores do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – Basis/Inep/MEC até 2018. Integra a Rede Iberoamericana de Psicogerontologia (Redip) e a Red Iberoamericana Interdisciplinar de Investigación en Envejecimiento y Sociedad (RIIIES). E-mail: beltrinac@gmail.com

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