Daqui a 4 anos tem mais!

Daqui a quatro anos teremos mais peles enrugadas, mais cabelos brancos, mais velhices. Na próxima copa, terei 57 anos e serei quase uma idosa.

 

Acabou a festa e os feriados fora de hora! A Copa do Mundo finalmente chegou ao fim e confesso que, pela primeira vez, não consegui estar ligada a nossa seleção.

Vivemos tempos de “vacas magras”, como diz o ditado popular e foi difícil, neste mês de copa, esquecer o tanto que estamos sofrendo. Não está sendo fácil constatar a total falta de oportunidades que nossos dirigentes oferecem a essa nossa brava gente brasileira.

Mas o fato é que aproveitei alguns jogos da copa para usufruir da companhia do meu filho do meio que é louco por futebol enquanto eu sou louca por ele.

Pude me divertir ao seu lado naquele fim-de-semana de bons jogos. O resto é resto.

O Fato é que após assistir ao jogo final, me deparei com o tempo de uma maneira nunca antes pensada. Senti-me ameaçada.

O locutor gritava na TV: “daqui a 4 anos tem mais!”. Calei-me! Meus pensamentos somavam e somavam e eu fui ficando sem fala e sem argumentos contra este tempo, Senhor Todo Poderoso que enruga nossa pele e embranquece nossos cabelos. Próxima copa, terei 57 anos e serei quase uma idosa.

Tempo rei, ó tempo rei, ó tempo rei.

Olhava para meu pai ao meu lado e pensava que ele, daqui a 4 anos, estará com 85 anos, até que minha mãe que aos 78 anos resolveu se tornar irônica e espirituosa diz: Se na próxima copa eu não estiver mais aqui…

Minha cabeça fervia ao olhar para minha grande companheira de torcida de tantas e tantas copas: minha inseparável cachorra de 17 anos. Senti-me desesperada ao imaginar uma próxima copa, muito provavelmente sem ela.

Tempo rei, ó tempo rei, ó tempo rei.

Depois deste turbilhão de emoções, meu coração gritava descompassado, mais do que o Galvão Bueno: Daqui a 4 anos tem mais!

Sim! Mais cabelos brancos e mais e mais velhices.

Considero-me uma otimista apesar das preocupações que herdei da minha nona Aurora. A genética é forte e com a idade tenho estado constantemente “Aurorando”. E assim sigo me preocupando com tudo e com todos. O tempo deixará suas marcas e sei que em meio às conquistas também existirão perdas.

A arte, mais uma vez, veio acalantar meu coração agitado perante todas essas possibilidades desconhecidas e incertas. Ao pensar na obra do escultor concretista mineiro Amílcar de Castro (1920–2002) constatei a possível beleza entregue pelo tempo.

Nas suas esculturas, Amílcar deixava o tempo agir e fazer parte da obra modificando os materiais que ele escolhia para representar suas formas concretas. Aços dobrados, cortados, vazados, sofriam a ação do tempo que enferrujava dando, curiosamente, mais beleza à estética pensada por ele.

Amílcar soube explorar como ninguém o tempo que nos ameaça.

Com o coração mais calmo olhei para minha cachorra que tropeçava nas patinhas fracas enquanto esperava um carinho.

O amor se fortalece a cada instante e as velhices são como as esculturas deste grande artista. Precisam ser bem construídas para tornarem-se mais belas.

Deixo a comemoração para os franceses e aviso o meu pai que o almoço está servido.

A vida segue neste jogo constante. Bola na rede adversária, falta injusta, pênalti não visto, mão na bola e gritos da torcida. De tempos em tempos é nossa rede que vibra. A vida segue abraçada com o tempo enquanto nós seguimos em frente torcendo e lutando por velhices dignas num país mais justo. Trabalhamos por melhores resultados, afinal, somos brasileiros e não desistimos fácil. A bola segue rolando e daqui a 4 anos tem mais!

 

 

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: crispomeranz@gmail.com.

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