Cutucando a onça…

Deveria ser a coisa mais simples. Só que não foi.

A turma da PUC que havia participado comigo na experiência de 1968 estudando pequenos grupos e novas técnicas de dinâmica havia assumido o compromisso de aplicar aquele trabalho junto aos operários da Cimento Perus, que se encontravam em greve há algum tempo. Era nosso intento reforçar o ânimo dos trabalhadores na sustentação do movimento.

Waldir Bíscaro *

 

Chegamos em Perus no comecinho da noite. O Dr. Mario, advogado do sindicato dos trabalhadores da Cimento Perus, havia providenciado alguns sanduíches de salame e de mortadela pra tapear nossa fome. Fomos direto para o local da reunião.

O Padre Bianchi, vigário de Perus se posicionara ao lado dos trabalhadores, desde o início do movimento operário no embate com o JJ Abdala e, quando o sindicato sofreu intervenção, cedeu o salão da paróquia para as reuniões sindicais. Foi nesse salão que encontramos a turma reunida.

Cabia a mim, como coordenador do grupo, abrir os trabalhos com alguma fala sobre a importância da equipe, as decisões grupais, as soluções de problemas em conjunto, o valor da cooperação e por aí afora.

Só que começo a falar como se falasse para estudantes. Após duas ou três frases, percebo que a platéia não estava captando nada. Tentei melhorar a comunicação, mas nada. Então me dei conta de que nunca havia me dirigido a um grupo como aquele. O jeito foi deixar de lado explicações teóricas e improvisar uma fala mais adequada aos ouvintes e assim foi:

Façam de conta que vocês nunca se viram. Ninguém aqui se conhece. Cada um recebeu um aviso em sua casa para comparecer hoje nesta sala. Tratava-se de um assunto muito importante pra vocês.

Então cada um foi chegando e foi se sentando por aí, até a sala se encher de gente. Ninguém se conhecia, ninguém se falava. Até esse momento, não havia nenhuma pessoa na frente da sala para explicar o que ia acontecer.

O problema é que começou a fazer um frio de rachar e ninguém estava prevenido. A turma tremia de frio, até que, de repente, um cara lá no meio gritou: ô gente não estou agüentando mais esse puta frio! E então um, depois outro, mais outro, e no fim quase todos começaram a falar do frio.

A porta continuava aberta e as janelas também, mas, em seguida, um dos presentes se levanta e fecha a porta. Outros também se levantam e fecham as janelas. Lá no fundo, o Zequinha se lembra que havia trazido uma cachacinha e oferece pra quem quisesse esquentar a goela. O Rubão, que era treinador de futebol de várzea, pede pro pessoal se levantar e se movimentar batendo os pés pra espantar o frio e assim foi até todo mundo se aquecer e conversar mais animadamente.

Dei uma parada. Olhei pra turma e logo percebi que haviam captado o sentido. Daí pra frente, me fiz de Sócrates e fui jogando as perguntas:

Se o grupo continuasse ali sem se falar o que aconteceria?

Quem foi o “responsável” pela união do grupo?

Qual era a necessidade comum?

Alguém comandou as decisões que foram tomadas?

O que falou primeiro era um cara muito especial ou apenas o mais friorento?

Só sei que, de pergunta em pergunta, a turma foi entrando no jogo e, ao final, estavam todos participando.

Nosso trabalho continuou por cerca de dois meses, em um tempo nada favorável a atividades desse tipo. Afinal, o que poderia estar fazendo um grupo de universitários da PUC se reunindo com operários em greve? Muitos devem se lembrar que aquele primeiro semestre de 1969 foi marcado pela sequência de prisões de professores e de alunos na PUC, pela repressão.

Nas duas últimas atividades, já em Cajamar, alguém desconfiou da presença de alguns elementos estranhos participando dos grupos. Podia não ser paranoia, por isso tomamos uma série de cuidados em nossas falas, pra não botar tudo a perder.

Como já falei, bons tempos aqueles… pra se esquecer!

*Filósofo e psicólogo e ex-professor de Psicologia do Trabalho na PUC/SP. E-mail: awbiscaro@uol.com.br

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