Cuidar do frágil

A Dra. Muriel Gillick é professora de medicina populacional na Universidade de Harvard dos Estados Unidos. Estudou História na Universidade de Swarthmore, medicina na Escola Médica de Harvard e residência em medicina interna no Hospital da Cidade de Boston. Ela também atende pacientes em Associados Médicos da Vanguarda de Harvard, um grupo de diversas especialidades na área de Boston, e também no Hospital das Mulheres e em Brigham. O foco principal do seu trabalho é cuidar de pacientes que já estão no fim de suas vidas, ajudando-os, em particular, a obter cuidados médicos que fazem sentido para eles.

 

 

Pergunta: Populações que estão envelhecendo em países desenvolvidos são comumente mencionadas como um problema, mas essa é uma questão com a qual os países em desenvolvimento deveriam se preocupar?

Resposta: Muito. Hoje, há 50 milhões de pessoas idosas (com 80 anos ou mais) nos países desenvolvidos e quase 50 milhões de pessoas em países em desenvolvimento. Em 40 anos teremos em torno de 120 milhões de pessoas bem idosas nos países desenvolvidos, mas 300 milhões nos países em desenvolvimento. A população de mais idade está crescendo mais rápido que a população como um todo: atualmente, em países de baixo e médio salário tem quase 10 pessoas na idade economicamente ativa (20 a 64 anos) para cada pessoa de 65 anos ou mais. Em 2040, haverá apenas quatro ou cinco.

P: A Organização Mundial de Saúde (OMS) promoveu um modelo de envelhecimento no qual pessoas mais velhas se mantêm ativas e robustas. Isso parece algo que todos achariam uma boa idéia, mas você expressou algumas opiniões contra isso. Por quê?

R: Nós devemos certamente fazer o que podemos para prever a doença e a incapacidade, mas temos que tomar cuidado para que o foco em um envelhecimento robusto não rume para a negligência com os frágeis, os dementes e os moribundos.

P: Quais são as razões para as suas preocupações?

R: A primeira coisa em que acredito é que não é possível prever todas as doenças e deficiências. Os idosos frágeis sofrem com freqüência de doenças crônicas múltiplas que, combinadas, produzem incapacidade e predispõe a vulnerabilidade em face da doença aguda. A proporção daqueles que são limitados na sua habilidade de cuidar deles mesmos tem aumentado. Mesmo se conseguirmos fazer com que os idosos sejam pessoas, em geral, mais saudáveis, nós nunca eliminaremos todos os problemas de doença. Em particular, nós não temos, atualmente, nenhuma perspectiva de aliviar ou prevenir uma das maiores causas da incapacidade nos bem idosos: a demência. É esperado que o número de pessoas vivendo com a demência dobre em países de alto salário nos próximos 40 anos, e que quadruplique nos países de baixo e médio salário. E até se conseguirmos manter a maioria das pessoas saudáveis durante boa parte da vida, mesmo assim todos morreremos. Para a maioria das pessoas isso significa um período de saúde péssima e dependência rumando à morte. Minha segunda preocupação é a conversa sobre envelhecer com sucesso, querendo dizer idade elevada ativa e robusta, implica que a pessoa mais idosa que não é robusta e ativa não é bem sucedida. Enquanto todos gostariam de ser ativos e robustos na idade longeva, tem um risco de que as pessoas que não atinjam isso sejam consideradas falhas e culpadas pela sua incapacidade. Mais cedo ou mais tarde nós todos deixaremos de ser saudáveis, e nós temos que contar com isso para estarmos preparados para quando isso acontecer.

P: O que o cuidado com os longevos deve envolver?

R: Nos EUA, isso significa buscar por meios tecnológicos o prolongamento da vida. Eu acredito que o cuidado deveria focar na ajuda de pessoas e ajudar principalmente a manter o sentido da vida. O tratamento deveria ser focado em controle de sintomas, não no prolongamento da vida, e em ajudar pacientes a manter relacionamentos humanos e dignidade pessoal.

P: Você acha que o cuidado vai diferir nos países em desenvolvimento?

R: Meu medo é que como países em desenvolvimento têm mais recursos para gastar com cuidados de saúde, eles seguirão o modelo americano de medicina tecnológica. Eu acho que isso será inadequado. É impossível providenciar, com recursos limitados, cuidado que é excelente em termos de tecnologia e compaixão e que ajude os idosos e os que estão próximos da morte a manterem sentido nas suas vidas.

P: Algumas comunidades parecem sentir que é importante não desistir do tratamento curativo.

R: Sim, mas tem evidência de que pessoas em todos os lugares do mundo entendem o que significa a fragilidade e a demência como uma experiência de vida, eles têm um ponto de vista comum em termos de o que é apropriado no cuidado e o que ele envolve nessas condições: o tratamento direcionado primordialmente ao controle de sintomas e à manutenção de relacionamentos e de dignidade pessoal. A profissão médica é uma dessas comunidades: a sua meta é preservar e prolongar a vida e é muito difícil para médicos aceitarem que não são todas as medidas de prolongamento da vida que são desejadas do ponto de vista do paciente. Uma questão que me irrita é o uso de tubos para alimentação (tubos inseridos cirurgicamente no estômago) para pacientes que tem dificuldade de comer por conta de demência avançada. A evidência é clara e diz que isso não faz bem ao paciente. Isso não prolonga a vida nem melhora a qualidade da vida prevenindo a pneumonia ou curando úlceras de pressão, por exemplo. Mas é difícil fazer os médicos e as famílias confiarem na evidência, porque vai contra o instinto o fato de não alimentar a pessoa que depende de você. Eu acredito que nós não deveríamos dar tratamentos a não ser que eles de fato proporcionem benefícios reais nos pacientes. A escolha não é entre o tratamento curativo e a negligência. Nós podemos oferecer tratamento que lida com a necessidade das famílias para proporcionar cuidado, mas que não cause sofrimento e que não custe muito.

P: Quão importante é o cuidado fornecido pelas famílias se comparado ao profissional?

R: Nos EUA, 80% do cuidado para idosos incapacitados e pessoas morrendo é dado pela família. Os números podem ser maiores em países mais pobres. Entretanto, por mais que as famílias cuidem, elas não conseguem dar o cuidado sem alguma ajuda profissional com a administração de sintomas.

P: As drogas para controle da dor são um problema?

R: Certamente. Acesso fácil a ópios, morfina e drogas relacionadas, é essencial para o controle da dor. Muito progresso tem sido feito nos EUA mostrando às pessoas que esses medicamentos não matam os pacientes e que, se usados apropriadamente, não causam vício.

P: Como que ensinamos essas coisas às pessoas?

R: Histórias de pacientes reais é a chave. Aqui está uma. Um engenheiro de 66 anos de idade não conseguia mais fazer as contas de matemática em sua cabeça. Ele foi ver um médico e os testes mostraram que ele tinha um tumor cerebral maligno. Ele teria apenas algumas semanas de vida. O doutor sugeriu cirurgia e quimioterapia, apesar de ter pouca prova de que isso prolongaria sua vida fora do hospital. Ele e sua família escolheram não fazer o tratamento curativo. O que importava para ele era controlar os sintomas, conseguir falar com a família e prever as convulsões, para que ele pudesse passar suas últimas semanas em casa com a família e os amigos. Ele conseguiu morrer em paz porque ele teve acesso a um bom tratamento paliativo, que não é complicado nem caro: é apenas um tratamento que foi administrado por profissionais que tinham habilidade com o uso de ópios e que apreciaram o valor que ele pôs na sua autonomia e no seu legado.

*Tradução de Fernanda Marques Granato, da Equipe Portal

Fonte: Entrevista extraída do site da Organização Mundial de Saúde: Acesse Aqui 

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