Cuidadores de idosos e processo de estresse

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O ato de cuidar se relaciona e, por sua vez, inter-relaciona experiências de vida, práticas diárias, relações intergeracionais, políticas econômicas e públicas, aspectos interconectados pela globalização, e que acarreta em estresse.

Bruna de Cássia Ramos, Bruna Lindoso Correa e Maria Elisa Gonzalez Manso (*)


A discussão e os estudos sobre o cuidado perpassam temas que vão desde certa nostalgia até modernidade, capitalismo, inserção no mercado de trabalho, mudanças nas relações familiares, dentre outros. Envolve sempre questões de gênero, pois as mulheres são desproporcionalmente recrutadas, e quase ‘coagidas’, a cuidar dos idosos da família, sejam esposas, filhas, noras ou funcionárias domésticas. Esta construção cultural do cuidado impõe à mulher ônus sociais, de renda e pessoais importantes.

Pesquisas demonstram que o cuidar do corpo idoso incorpora formas de diferenciação social, com impacto sobre o status social dos cuidadores a depender do entendimento cultural da forma como as substâncias corporais podem transmitir pureza e poluição. Em alguns países, o banho e a limpeza de fezes ou urina são designados como “trabalho sujo” e poluente, contribuindo assim para o caráter oculto do trabalho de cuidador, sua associação com as mulheres e seu baixo status.

Cada país organiza as formas de apoio e cuidado aos idosos dependentes, as quais variam desde atribuição total do Estado até a exclusividade de obrigações familiares ou, ainda, modelos mistos. Porém, a tendência mundial é indicar a permanência do idoso em seu domicílio sob os cuidados de sua família.

Quanto ao cuidador de idosos, a questão torna-se ainda mais complexa, pois o grau de dependência tende a se amplificar com o passar do tempo. A própria família se responsabiliza pelos cuidados por sentimentos de gratidão, de afeto, de culpa ou, até mesmo, por uma grande pressão cultural exercida pela sociedade.

Para o exercício dessa nova responsabilidade o cuidador muitas vezes acaba abandonando o emprego a fim de estar inteiramente disponível para prestar assistência. E, em se tratando de um cuidador assalariado, verifica-se lacunas na legislação vigente, más condições de trabalho e as cargas horárias semanais excessivas (iguais ou superiores às 30 horas preconizadas na legislação).

Dessa forma, o cuidador deixa de realizar atividades de lazer, o que gera isolamento social e, até mesmo, da família, perda de perspectiva de vida e distúrbios de sono, desenvolvimento de episódios dolorosos, desordens psicossomáticas, perda de memória e quadros de ansiedade.

A falta de conhecimento na área da saúde pode resultar em esgotamento físico e lesões, durante a tentativa de manipulação do idoso com dificuldade de mobilidade. E não é incomum que o escolhido como cuidador principal não receba auxílio dos outros familiares, gerando ainda mais sobrecarga, estresse e sentimento de impotência.

Processo de estresse

Um dos modelos que se propõe a elucidar o processo de estresse engloba quatro domínios: contextual, estressores, mediadores de estresse e resultados. Em se tratando de cuidadores de idosos, pode-se dizer que o sexo, a idade e o contexto socioeconômico compõem o fator contextual. Ademais, podemos classificar o domínio dos estressores em duas categorias envolvidas no ato de cuidar: o primário relacionado à demanda física; o secundário, à psicológica. Já em relação ao domínio mediador do estresse, considera-se a insuficiência de suporte social a este cuidador.  Por fim, o domínio do resultado engloba a saúde física e mental do cuidador, bem como a capacidade de continuar exercendo seu papel. 

Uma vez deflagrado o processo de estresse, o indivíduo traz um processo de enfrentamento, intitulado coping, cujo intuito é desenvolver formas de lidar com a circunstância estressora através da perspectiva da emoção, do problema ou por meio de um enfrentamento disfuncional.  A primeira perspectiva, inclui aceitação, apoio, religião e reenquadramento positivo. Quanto às estratégias focadas no problema, podemos ter o enfrentamento ativo, suporte instrumental e o planejamento. Em relação ao último, desligamento comportamental, negação, auto distração, sentimento de culpa, uso de substâncias e desabafo emocional.

Dentre as estratégias de coping, atualmente destacam-se aquelas associadas a crenças e práticas religiosas: o coping religioso espiritual. Este objetiva a busca por conforto espiritual, intimidade com Deus e outros membros da sociedade e transformação de vida, além de bem-estar físico, psicológico e emocional.

Há várias formas de avaliação do coping E/R, dentre elas destacamos a Escala de Coping Religioso-Espiritual (Escala CRE), primeiro instrumento de avaliação de CRE do Brasil, com base na escala norte-americana RCOPE. As estratégias de CRE podem ser classificadas em positivas e negativas, conforme as consequências que trazem para quem as utiliza. De maneira geral, as pesquisas demonstram a utilização de estratégias positivas em maior número a fim de enfrentar o estresse. Estas estratégias positivas estão associadas à melhores indicadores de saúde e bem-estar, inclusive acima dos efeitos das estratégias de coping não religioso. Estratégias negativas de CRE tiveram correlação negativa com saúde física, depressão e qualidade de vida.

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(*) Bruna de Cássia Ramos e Bruna Lindoso Correa são graduandas curso de medicina, Centro Universitário São Camilo SP. Maria Elisa Gonzalez Manso é Dra. em Ciências Sociais, pós-doc e Mestrado em Gerontologia Social PUC SP. Médica e bacharel em Direito. Professora titular curso de medicina Centro Universitário São Camilo e orientadora docente Liga de Estudos do Processo de Envelhecimento LEPE São Camilo. E-mail: [email protected].

Leia o artigo completo publicado na revista Longeviver, edição 12.

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Maria Elisa Gonzalez Manso

Médica e bacharel em Direito, pós-graduada em Gestão de Negócios e Serviços de Saúde e em Docência em Saúde, Mestre em Gerontologia Social e Doutora em Ciências Sociais pela PUC SP. Orientadora docente da LEPE- Liga de Estudos do Processo de Envelhecimento e professora titular do Centro Universitários São Camilo. Pesquisadora do grupo CNPq-PUC SP Saúde, Cultura e Envelhecimento. Gestora de serviços de saúde, atua como consultora nas áreas de envelhecimento, promoção da saúde e prevenção de doenças, com várias publicações nestas áreas.

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