Cuidado paliativo: Paliar, amparar, amar

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O conceito fundamental de cuidado paliativo é de valorização da vida e entendimento da morte como um processo natural. O cuidado paliativo não é o adiantamento da morte, mas uma abordagem que auxilia o paciente a viver com qualidade, conforto e amparo.

Por Érica Godoi (*


O termo paliativo deriva do latim pallium que significa “manto”, que nos remete à amparo e proteção. Jeanne Garnier (França), Mary Aikenhead (Irlanda) e Rose Hawthorne (Estados Unidos) foram as grandes fundadoras do conceito de cuidados paliativos. Todas essas mulheres tiveram uma motivação pessoal devido a perda de entes queridos, o que fez com que elas tivessem um olhar diferenciado para o cuidado e atendimento de pessoas com doenças terminais. Entretanto, isto não significa que o cuidado paliativo esteja vinculado apenas ao momento da morte da pessoa, este é um tipo de abordagem terapêutica e um modo de cuidar humanizado.

Segundo Cicely Saunders (1967), os cuidados paliativos se iniciam a partir do entendimento de que cada paciente tem de sua própria história, o que ele valoriza e deseja, merecendo todo o nosso respeito como um ser único. Portanto, o conceito fundamental é de valorização da vida e entendimento da morte como um processo natural. O cuidado paliativo não é o adiantamento da morte, mas uma abordagem que auxilia o paciente a viver com qualidade, conforto e amparo. Segundo a mesma autora, a dor também deve ser atendida em sua totalidade (física, mental e espiritual), devendo-se estender o cuidado para a família, auxiliando-os a expressar seus sentimentos. 

O mais importante é que cada paciente tem o direito de participar das decisões sobre os seus cuidados de saúde e, na impossibilidade dele, a família decide sobre o planejamento da terapia proposta juntamente com a equipe multidisciplinar. A população em geral não conhece, mas o Ministério da Saúde (2008) sugere o plano terapêutico centrado na pessoa e não mais no profissional, direcionando o cuidado individualizado e humanizado.

O projeto terapêutico surgiu após a reforma psiquiátrica, foi baseado na “discussão de caso clínico”, que nada mais é do que uma reunião de vários profissionais (médicos, enfermeiros, fonoaudiólogas, fisioterapeutas, nutricionistas, etc.) que discutem sobre a melhor proposta terapêutica ao paciente, no entanto, esta articulação entre os profissionais não pode deixar de lado o que o paciente deseja para si mesmo, por isso ele também é chamado de projeto terapêutico singular (PTS), por ser individualizado e tendo a participação do paciente.

No âmbito hospitalar é comum utilizarmos o termo “meta” terapêutica, ou seja, objetivos a serem alcançados em um tempo determinado, geralmente dias, no caso da abordagem paliativa, o objetivo principal é atingir o conforto e o bem-estar, algo que é subjetivo para cada pessoa, para alguns receber uma refeição de casa é o que vale, para outros ficar ao lado de pessoas queridas é o que realmente importa.

O idoso diagnosticado com uma doença crônica ou terminal enfrenta inúmeras emoções e sentimentos, um deles é o medo da finitude. Por isso, é importante esclarecer que o cuidado paliativo é um modo de cuidar comprometido com o bem-estar, seja ele dentro do hospital ou no domicílio. Neste contexto, citamos os cuidados domiciliares, demonstrando que também é possível desospitalizar (dar alta hospitalar) aos pacientes em cuidados paliativos. A desospitalização ocorre com sucesso quando se planeja todas as etapas de transição dos cuidados do hospital para a casa, sendo fundamental a participação da família.

Sabe-se que os cuidados paliativos no Brasil ainda está se estruturando e que o seu entendimento não é uniforme em todas as cidades, instituições de saúde e até entre profissionais. No entanto, o intuito deste artigo é informar que existem outras formas de cuidado e acompanhamento do idoso com doença crônica ou terminal, podendo ser aplicado desde que levado em consideração a opinião e o desejo do paciente.

Para quem cuida, a abordagem paliativa é a oportunidade de promover o cuidado em toda a sua amplitude, não apenas ao paciente, mas para toda a família, promover reconciliações e conforto emocional. E, para quem é cuidado é o momento de libertar-se de ressentimentos que causam dores emocionais, feridas que ninguém vê, mas que existem. Sem falar na oportunidade de qualidade de vida, pensando em viver cada dia em sua plenitude junto com quem se ama.

Referências
SAUNDERS, Cicely MS. The care of the terminal stages of cancer. Annals of the Royal College of Surgeons of England, v. 41, n. Suppl, p. 162, 1967.

(*) Érica Godoi é enfermeira emergencista, gestora do cuidado, mestranda em Psicogerontologia pela Faculdade Educatie Hoog. Endereço para acessar este CV:http://lattes.cnpq.br/9914744703667777. E-mail: [email protected].br

Foto destaque de Asep Syaeful Bahri/Pexels


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