Crónica paulistana

Fazia muito tempo que não ia para o centro velho de Sampa. Foi lá que passei mais da metade de minha vida profissional, por isso o centrão sempre me foi muito familiar. Naquele dia, depois de conversar com minha gerente de banco, na rua Boa Vista, saí para uma caminhada pelas ruas centrais só pra matar a saudade.

Waldir Bíscaro *

 

Comecei pela João Brícola, atravessei a praça Antonio Prado e me dirigi para a São Bento. Primeiro, pensei que não ia valer a pena andar por aquela rua sempre tão movimentada e com isso não poderia me deter para melhor examinar as possíveis mudanças que, com certeza, teriam ocorrido. Melhor seria pela Álvares Penteado, mas, na Álvares, quase certo toparia com algum velho colega de trabalho que me pararia para um papo.

Não estava a fim de papo, só queria curtir o velho centro e o melhor seria andar pela São Bento mesmo, ainda que trombando com paulistanos apressados.

Que tristeza! Cadê os paulistanos apressados? A única coisa mais familiar que notei por lá foi a quantidade de anunciantes em frente das lojas gritando: ótica-ótica-ótica! Só se fosse anúncio de óculos para moscas míopes. Gente mesmo, quase nada.

Na esquina, onde era a Ducal, me voltei em direção ao Largo São Bento. Procurei pela Leiteria Pereira, mas não a vi por lá. A leiteria, durante muito tempo, fora meu restaurante preferido, com suas cadeiras de palhinha e que o Otávio, o Berje, o Bolívar e eu apelidamos de “Bar dos Velhinhos”. Velhinhos, por conta da presença majoritária desses cidadãos provectos de mais de quarenta anos – eu tinha só vinte e oito. Foi lá também que vi pela ultima vez o Adoniran Barbosa com seu indefectível cachecol. Perguntei por sua saúde. Ele disse que estava muito gripado.

Dei meia volta e rumei em direção ao Largo São Francisco, mas ao chegar no Largo do Café , resolvi descer a Miguel Couto e entrei na Líbero Badaró, com surpresa, me deparei com a Casa Godinho, uma das raras relíquias da São Paulo dos anos cinquenta. Era sempre lá que me abastecia com as deliciosas lingüiças (naquele tempo havia trema) de Blumenau.

Retornei para a São Bento, pensando encontrar outra relíquia paulistana. Cadê a Botica Ao Veado de Ouro? Sumiu. Poxa, a farmácia de maior credibilidade em São Paulo! Bastou um escorregão nunca plenamente comprovado, para perder todo o crédito que acumulara em mais de cento e cinquenta anos de bons serviços? A quem interessava toda aquela campanha de difamação contra a velha Botica?

Continuei pela São Bento e não encontrei a Casa José Silva, onde comprava meus ternos de bancário.

Mais à frente, na José Bonifácio, fui até a Loja Priba, onde sempre encontrava minhas camisas com dois bolsos. A loja ainda estava lá, minhas camisas com dois bolsos, não. Como é que esse pessoal deixa de fabricar camisas com dois bolsos, sem me consultar?

Continuei meu caminho rumo ao metrô da Sé, dei uma olhada à direita pra ver se ainda estaria por lá o famoso “Restaurante do Papai” onde também fui freguês por muito tempo. Havia partido.

Já na praça, vi uma banca de engraxate, olhei meus sapatos e notei que eles me pediam uma lustrada. Tranquilamente sentado, pude contemplar a velha paisagem que quando conheci, nos anos cinquenta, não passava de um enorme estacionamento e a Catedral era desprovida de suas torres. Mais ao longe vi um pregador vociferando e brandindo a Bíblia para meia dúzia de fieis. Quem sabe, um dia, ele chegaria a Edir Macedo.

A melhor lembrança que guardo da Sé é a dos grandes comícios, não perdia um. O maior foi o das Diretas Já, de onde saí rouco, ensopado e tingido de vermelho, culpa da minha bandeira…

* Filósofo e psicólogo e ex-professor de Psicologia do Trabalho na PUC/SP. E-mail: awbiscaro@uol.com.br

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