COVID 19: Aos que ficam, vida que segue?

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Precisamos olhar para a saúde mental dos que ficam. A vida segue? Segue sim, porém não da mesma forma que já foi um dia. Cada um precisará passar pelo processo de luto e encontrar mecanismos internos de enfrentamento.


O novo coronavírus segue ceifando vidas, e neste momento mais do que em qualquer outro período acompanhamos as centenas de mortes diárias no país. A dor que assola os que perderam seus entes queridos pode ser devastadora. Embora todos os holofotes, neste momento, estejam mirando para os óbitos é necessário um olhar para os que ficam. Entendo que neste momento o grande foco é salvar vidas, mas penso que já seja a hora de pensarmos em políticas públicas para o futuro, levando em conta que todo este luto coletivo precisará ser acolhido.

Precisamos olhar para a saúde mental dos que ficam. A vida segue? Segue sim, porém não da mesma forma que já foi um dia. Cada um precisará passar pelo processo de luto e encontrar mecanismos internos de enfrentamento. Esse é um processo individual, de encontro com a dor, cada um irá reagir e lidar de uma forma diferente, de acordo com seus próprios recursos. Muitas vezes poderá ser necessária uma ajuda profissional, e é fundamental que reconheçamos quando necessitarmos de auxílio, para que este luto não se torne patológico.

Mas que processo é este, o do luto? Ele é um processo necessário para a elaboração de perdas, que normalmente está relacionado a rompimentos de vínculos afetivos. O processo de luto é complexo, pois transita por aspectos físicos, emocional, social e espiritual. O luto é o preço do amor!

O luto é inevitável e esperado, precisamos viver o luto para que não vivamos em luto por toda a vida. Deve ser vivenciado para que a pessoa consiga se restabelecer, se reorganizar novamente, buscando encontrar novos sentidos para sua vida. Este é um momento de intenso sofrimento e ressignificação, que deve ser respeitado. Podemos pensar metaforicamente em um grande quebra cabeça, onde uma peça foi retirada e não poderá mais retornar. Não terá mais nenhuma peça que preencherá aquele espaço, exatamente daquela mesma forma, o que teremos que fazer é aprender a conviver com esta falta.

Me identifico com uma analogia que fala que o processo de luto é como entrarmos em uma caverna, onde precisamos cavar a saída com as próprias mãos. Essa saída jamais será a mesma a qual entramos. Não será um processo fácil, mas sairemos em um outro espaço, com um novo horizonte, outra paisagem e este será o local que nos instalaremos. Este é o momento em que aquela dor sofrida já vai abrindo espaço para a saudade. E, é com ela que iremos seguir…

O papel das pessoas que convivem com uma pessoa enlutada é respeitar, desenvolver a empatia e se colocar à disposição nesse momento. Em alguns casos, que chamamos de luto complicado, recomenda-se o acompanhamento de um profissional habilitado para auxiliar no restabelecimento da pessoa, para que aos poucos ela possa aprender a viver além da perda, aprender a viver com a ausência da pessoa que partiu.

Foto de Kirill Palii/Pexels

Atualmente as diretrizes dos velórios (paciente covid) mudou, e isso terá sim impacto no processo de elaboração do luto. Sob risco de contaminações, algumas etapas que seriam fundamentais no processo de construção de sentido e aceitação da perda foram suprimidas: não se acompanha o familiar nos últimos dias no hospital, velórios e sepultamentos são mais rápidos, caixão lacrado, com poucas pessoas e à distância.

Despedir-se sempre foi uma etapa essencial no processo de luto, na medida que promove o contato com a realidade da perda e favorece a assimilação. Ao mesmo tempo, permite que o sofrimento e desamparo diante da perda possam ser compartilhados e acolhidos entre aqueles que o sentem. Ainda devemos levar em consideração que a forma de morrer interfere no enfrentamento ao luto. Uma morte em meio a restrições de recursos terapêuticos, com sofrimento é mais complicada de digerir.

Se você está vivenciando um momento e luto ou conhece alguém que esteja neste estado e precisa de ajuda, procure falar mais sobre o assunto e quem sabe até procurar o acompanhamento de um psicólogo. 

O mais importante é respeitarmos quem está vivenciando essa fase difícil e desenvolvermos a empatia, sempre!

Usualmente aqueles que necessitam ajuda psicológica apresentam dificuldade em:
– Expressar a dor; 
– Lidar com a ambivalência de sentimentos;
– Aceitar a nova realidade;
– Assumir novos papéis;
– Lidar com o luto familiar e com a sociedade.

Além disso, há casos nos quais a psicoterapia é indicada, como em situações de:
– Perda traumática;
– Vulnerabilidade pessoal;
– Falta de apoio social;
– Adoecimento físico relacionado à perda;
– Presença de Transtornos Psiquiátricos.

Como a psicoterapia pode me ajudar?

A psicoterapia visa a prevenção de complicações associadas ao luto, melhorar a qualidade de vida e oferecer suporte ao enlutado para seguir vivendo diante da nova situação imposta pela perda.

A psicoterapia também visa tratar a pessoa que se vê moderada ou severamente afetada pela perda, cujo funcionamento habitual está comprometido do ponto de vista psicológico, físico, social e/ou espiritual. Durante o tratamento, a psicoterapia ajuda o enlutado no processo de construção de sentido e significado da perda e do novo momento de vida, fortalecendo e desenvolvendo seus recursos de enfrentamento.

Foto destaque de C Technical/Pexels


Lidiane Andreza Klein

Psicóloga, Especialização em Neuropsicologia (UFRGS), Mestre em Psicologia e Saúde (UFCSPA) e Doutoranda em Ciências da Reabilitação (UFCSPA). Blog: https://www.lidianekleinpsicologa.com/blog. E-mail: [email protected]

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