Costa Rica estuda a longevidade da sua “Zona Azul”

A Península de Nicoya, na Costa Rica, é uma das cinco zonas azuis identificadas ao redor do mundo onde as pessoas vivem mais tempo e melhor. Existem poucas análises quantitativas sobre a relação entre longevidade e redes de apoio social nas áreas azuis.


Por que, em um determinado lugar, um grupo de pessoas consegue viver bem mais de 100 anos? Para responder a esta questão, pesquisadores das áreas de bioquímica, microbiologia, antropologia, engenharia, demografia e nutrição da Universidade da Costa Rica (UCR) se juntaram e formaram um grupo de pesquisa interdisciplinar, a fim de estudar uma população bem longeva que vive em Guanacaste, zona azul, uma área geográfica com uma proporção extremamente alta de nonagenários e centenários da Península de Nicoya. Este é um dos quatro projetos vencedores do Espaço Universitário de Estudos Avançados de 2019.

A zona azul da Península de Nicoya é uma das cinco zonas azuis identificadas no mundo, ou seja, bolsões onde as pessoas vivem mais tempo e melhor.  Os outros estão localizados em Okinawa (Japão), Sardenha (Itália), Loma Linda (Califórnia) e Icaria (Grécia). Nas “Zonas Azuis” as pessoas chegam a 100 anos a taxas 10 vezes maiores que nos Estados Unidos.

A Península de Nicoya, localizada na parte noroeste da Costa Rica, ao sul da fronteira com a Nicarágua, com cerca de 80 milhas de comprimento e 30 milhas de largura, é uma terra intocada de praias, resorts de luxo, colinas arborizadas, fazendas de gado e pastagens. É um enclave paradisíaco na Costa Rica. Ali os habitantes comem muitas frutas, e cereais ricos em antioxidantes. Aliás, os costa-riquenhos como um todo têm as menores taxas de mortalidade de meia-idade do mundo e a segunda maior convergência de idade do sexo masculino acima de 100 anos. De uma população total de cerca de 4,5 milhões, foram relatados 417 centenários, muitos deles em Nicoya e daí o estudo nessa região.

Para tentar descobrir os segredos da longevidade dessa população, os especialistas identificaram 90 adultos acima de 90 anos em cinco cantões da província de Guanacaste (Carrillo, Santa Cruz, Nicoya, Hojancha e Nandayure), com os quais investigarão um conjunto de variáveis ​​que poderiam influenciar essa condição etária, em torno de suas redes de apoio social, microbioma e envelhecimento saudável. A hipótese do projeto é que o microbioma intestinal seja muito semelhante entre os que compõem a rede de apoio social dos idosos e que as espécies encontradas no microbioma das redes de apoio da Península de Nicoya possam estar relacionadas à longevidade.

María Trinidad Espinoza Medina, 103 anos (nasceu em 08/06/1916). Ela vive numa pequena comunidade chamada Copal, do distrito de Quebrada Honda, no cantão de Nicoya. Na foto ela está acompanhada por sua filha Marta, 66 anos. Imagem de Jorge Vindas, fundador da Associação da Zona Azul da Península de Nicoya.

O microbioma é o conjunto de genomas de micróbios que habitam um determinado ambiente. Nesse caso, o microbioma intestinal será estudado por ser um dos mais estudados em todo o mundo, e há evidências crescentes sobre sua influência no bem-estar das pessoas, graças a projetos como o Projeto Microbioma Humano.

Adrián Pinto, coordenador principal do estudo e pesquisador do Centro de Pesquisa em Estruturas Microscópicas (CIEMIC), explicou que:

Micróbios são organismos que, na maioria das vezes, são benéficos. Sob o princípio ecológico de que quanto maior a diversidade de um ecossistema, maior a resiliência (capacidade de absorver mudanças sem alterar a dinâmica do ecossistema), acreditamos que o microbioma de idosos na zona azul é mais diversificado e mais compartilhado entre suas redes de apoio social”.

Gilbert Brenes, diretor do Centro de População da América Central (PCC) e um dos pesquisadores responsáveis ​​pela área demográfica do projeto, comentou que quatro características específicas foram definidas para o estudo dessas redes de apoio. São elas: comida, culto religioso, serviços de saúde e conversação.

“De acordo com revisões da literatura científica, o contato interpessoal tem um efeito psicobiológico na mente das pessoas, que lhes permite combater o estresse e, portanto, ser mais saudável. No entanto, existem poucas análises quantitativas sobre a relação entre longevidade e redes de apoio socialnas áreas azuis”, afirmou Brenes.

Durante a primeira turnê de reconhecimento da área em estudo, realizada no final de julho de 2019, os pesquisadores Hennia Cavallini e Juan Carlos Vargas, das escolas de Engenharia Mecânica e Serviço Social, respectivamente, visitaram 50 casas de pessoas de longevas. Para Vargas,

Temos pessoas de até 108 anos, algumas com excelente saúde e humor. Entre as primeiras observações que fizemos, não encontramos uma única pessoa sozinha: todos tinham um membro direto da família que os atendia, permanentemente ou com rotações entre outros parentes. E também observamos um tom de orgulho ao falar sobre parentes ou vizinhos longevos: talvez até essa situação possa estar gerando uma identidade cultural de apoio aos idosos”.

Cavallini acrescentou que eles ficaram impressionados com a baixa luminosidade dos apartamentos, e que em todas as casas havia áreas de descanso frontal, onde era comum encontrar pessoas descansando ou conversando a qualquer momento. “Na área de engenharia, esperamos caracterizar a infraestrutura habitacional e os pontos de encontro comuns, as linhas de comunicação terrestre, a qualidade da água e o meio ambiente em geral”, afirmou.

Juan Gutiérrez Rosales (nasceu em 08/11/1918). Ele vive numa pequena comunidade chamada Moracia, do distrito de San Antonio, em Nicoya. Ele está com uma de suas bisnetas, Pamela, 8 anos. Imagem de Jorge Vindas, fundador da Associação da Zona Azul da Península de Nicoya.

“Os projetos da UCREA são uma referência de pesquisa de alto nível, envolvendo pesquisadores nacionais e redes de apoio internacionais de várias disciplinas. A colaboração científica contemporânea exige trocas contínuas, onde os pontos fortes de cada unidade são disponibilizados com um interesse recíproco e legítimo para contribuir com soluções e propostas relevantes do ponto de vista social, científico e artístico para a sociedade”, afirmou o reitor, Henning Jensen.

O projeto também envolve Catalina Murillo (CIEMIC), Georgina Gómez e Ibrahim Zúñiga (Faculdade de Medicina) e Ana Mercedes Pérez (Centro Nacional de Pesquisa em Tecnologia de Alimentos – CITA ), além de Garret Suen, da Universidade de Wisconsin, e vários alunos assistentes.

Fonte: Texto escrito baseado na matéria de Caterina Elizondo Lucci, jornalista da assessoria de comunicação da UCR, e publicada em 14 de agosto de 2019. A foto de destaque é de Jorge Vindas, fundador da Associação da Zona Azul da Península de Nicoya, que clicou José Bonifacio “Pachito” Villegas Fonseca, 102, uma das pessoas mais longevas da zona azul da Península de Nicoya que, desde seus quatro anos, anda a cavalo, atividade que ele ainda faz todo domingo, por careca de duas horas. 


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