Coragem disfarçada de avó

Não se engane, como eu, com o sorriso aí de cima. Quando conheci Maria Oneide Costa Lima, de 62 anos, ela fazia voz fina e mimos para alegrar um de seus muitos netos. Arrastando o chinelo, com fala mansa e riso fácil, parecia uma senhora tranquila em seu papel de avó. Observando-a ali, na intimidade da casa, não poderia desconfiar da bravura que essa senhora carrega na bagagem.

Ana Aranha *

 

coragem-disfarcada-de-avoOneide é uma daquelas pessoas que tem História com “h” maiúsculo. Sentada nos fundos da casa onde criou sozinha os seis filhos, ela desfiou sua trajetória pontuando cada capítulo com um sorriso. Como se fossem causos de menina travessa, contou episódios perigosos e cruéis que enfrentou no sul do Pará nas décadas de 70 e 80. Histórias do tempo em que era perseguida por pistoleiros, ameaçada por fazendeiros e vigiada pelo regime militar.

Seus filhos brincam que algumas bravuras da mãe são “coisa de gente doida”. Mas sentem orgulho e, de diferentes formas, buscam uma trilha parecida. Nem ela sabe explicar de onde tirou ousadia para algumas das reações que teve às ameaças da vida. Uma delas foi quando tinha 20 anos e ouviu a voz de um homem, dentro de sua casa, jurando de morte o seu marido. Os dois homens estavam sentados na sala e Oneide ouviu a conversa do quarto. Ela buscou a espingarda velha, tirou o pó, entrou na sala com cara de braba e deixou a arma apoiada na parede, ao alcance do marido. “Aquela espingarda não atirava há anos, mas podia servir pra alguma coisa, nem que fosse pra bater na cabeça do pistoleiro”, ela brinca. E, como faz quase sempre que fala do marido, suspira: “Eu tinha muito medo de perder ele, dizem que os bons não duram”.

Seguindo a sua lógica, Raimundo Ferreira Lima, conhecido como Gringo, deve ter sido um homem muito bom. Pois foi assassinado aos 43. Gringo era ameaçado por ser o líder do sindicato dos pequenos agricultores de Conceição do Araguaia. Quando eles se casaram, ele ainda não era envolvido com o sindicato. Ela tinha 16 anos, ele 30. Como era muito menina, ganhou o apelido de Pituca. O apelido dele veio da sua época de escola: magro e baixinho, a turma caçoava que ele parecia um “grilo”. Mas, brigão desde sempre, ele apelava com os colegas que faziam a brincadeira e esses foram obrigados a inventar o “Gringo”.

Oneide se encantava pelo interesse do marido pelo conhecimento. “Era um homem inteligente, letrado”, ela diz, entre mais suspiros. Ele trabalhava como gerente de uma fazenda, até o dia em que o dono mandou expulsar os posseiros, pequenos agricultores que moravam nas fronteiras da propriedade. O fazendeiro queria expandir suas terras. Gringo não só se recusou a executar a ordem e pediu as contas, como o episódio lhe fez despertar para as injustiças dos conflitos de terra. Buscou trabalho na Comissão Pastoral da Terra (CPT), entidade ligada à igreja Católica que auxilia os trabalhadores do campo.

Menos de um ano depois da demissão, foi eleito líder do sindicato dos pequenos agricultores. Mas, ao ensinar os direitos aos pequenos, Gringo despertou a ira dos grandes: os fazendeiros, políticos e militares – instâncias cujas fronteiras eram invisíveis no Brasil do governo militar e ainda se misturam no Brasil de hoje.

Na manhã em que o marido foi encontrado agonizando com três balas no corpo, Oneide correu para o local, mas ele já não tinha vida. Ela reagiu com luta: quase foi presa porque insistia em ela mesma colher as provas do crime. Sabia que, se deixasse a polícia “fazer seu trabalho”, os matadores nunca seriam encontrados. Sob ameaça de prisão, foi retirada à força do local. Anos depois, o caso foi arquivado por falta de provas.

Sozinha com os seis filhos, que tinham entre nove meses e 12 anos, a reação de Oneide surpreendeu muita gente. Ao invés de se afastar da causa que roubou a vida do marido, mergulhou de cabeça nela. Aproximou-se da Pastoral da Terra e passou a fazer formação política e de orientação sobre os direitos da população nas comunidades rurais à beira do rio Araguaia. Logo entrou para a lista de pessoas “monitoradas” pelo governo.

Sempre que algum conflito estourava entre posseiros e fazendeiros, ela e os padres da CPT eram os primeiros suspeitos. Oneide chegou a ficar 72 horas em prisão domiciliar. Certa vez sua casa foi invadida pela polícia, que levou todos os álbuns de fotos da família.

Uma das imagens “confiscadas” apareceu em panfleto jogado de avião sobre as comunidades rurais onde Oneide atuava. Nele, lia-se que ela usava o dinheiro da igreja para fazer festas e orgias. “As pessoas não sabiam ler e guardaram a foto, achando que era uma homenagem”, Oneide ri. “Quando eu chegava, elas corriam pra mostrar o papel com minha imagem. Aí eu lia o que estava escrito e elas rasgavam no meio”.

As vizinhas ralhavam com a amiga, pediam para “aquietar”. “Naquela época, as pessoas tinham muito medo de falar sobre política. Eu não tiro a razão, depois de tudo que vimos acontecer aqui durante a guerrilha”. Muitos comerciantes de São Geraldo do Araguaia (nome do município criado no local onde Oneide mora) foram perseguidos por vender produtos aos membros da guerrilha do Araguaia – movimento que pretendia derrubar o governo militar pela luta armada. “Teve um comerciante que foi encontrado morto com marcas de algema, ele tinha sido acusado de vender produtos para a Dina”, ela lembra, referindo-se à Dinalva Conceição Oliveira Teixeira, uma das guerrilheiras cujo corpo nunca foi encontrado.

Oneide só recuou da sua luta quando as ameaças chegaram a sua família. Ela recebeu o seguinte recado: se continuasse auxiliando os posseiros, os seis filhos teriam o mesmo destino do pai. “Disseram que matavam todos na casa, até as galinhas”. A imagem lhe assustou pois ela sabia que era factível. Afastou-se do trabalho na pastoral, deixou de ir nas reuniões com as comunidades rurais e, por dez anos, vestiu a camisa do silêncio.

“Que está acontecendo, mãe?”, os filhos perguntavam. “Tá quieta, nem parece a senhora”. Vê-se pelas carreiras trilhadas pelos filhos que eles também carregam o espírito combativo dos pais. Um é sociólogo, outro é líder sindical e uma das filhas é professora. O mais bravo virou sargento “para vingar a morte do pai”, mas foi demovido da ideia.

Ela passou a investir só na carreira de educadora. Brigou até convencer a prefeitura a abrir um colégio com o nome do seu marido. Hoje é diretora da Escola Municipal Raimundo Ferreira Lima. Há poucos anos, encontrou um jeito diferente para retomar as questões do campo. Procurou financiamento de um projeto da ONG Repórter Brasil que trata dos direitos dos trabalhadores rurais. Os professores de sua escola receberam formação para inserir nas aulas uma questão que gera bastante polêmica na atualidade: o trabalho escravo contemporâneo.

O tema provocou controvérsia na escola, onde há funcionários ligados a gerentes de fazendas. Além de incomodar os políticos locais que são fazendeiros e exploram a mão de obra até onde podem. Mas também despertou os alunos, que trouxeram as histórias dos pais que são peões de fazenda e levaram informações para casa. Outros descobriram que tinham direito ao fim-de-semana de descanso e criaram um sindicato para representar os jovens que trabalham como caixa nos mercados da cidade.

Assim, dez anos depois, a Oneide briguenta refloresceu. “Quando li o tema do projeto, pensei: ‘É isso que vai me trazer de volta’”.

Depois de conhecer a brabeza que pulsa por traz da voz doce de Oneide, nunca mais vou olhar uma senhora do mesmo jeito. O sorriso das avós pode esconder muito mais força do que nós, “jovens”, jamais teremos.

* Ana Aranha é repórter apaixonada pelo ofício de contar histórias. Trabalhou na revista “Época”, na agência “Pública” e colaborou para diversos veículos, como o jornal inglês “The Guardian”. Tem 11 prêmios de jornalismo. Escreve para o blog 3 por 4: Disponível Aqui. Este texto foi reproduzido do Boletim de Atualização – Nº 325 – 25/10/2013 de Outras Palavras: Disponível Aqui

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